Mese 



Mese 


FELIPE REINO 


Para todas que aturaram quatro meses por essa 
continuao. 



"H instantes em que os homens so senhores do seu 
destino." 

William Shakespeare 


PRLOGO 
Est na hora de voltar! 
Voc precisa voltar! 
Voc est preparada para voltar! 
Voc tem que voltar! 
Beatriz... Volte! 



CAPTULO 1 / ENTRE DOIS MUNDOS (OUTRA VEZ) 


E 


u estava em um lugar deserto. Um vento forte soprava 
e quase podia ver a terra sendo levada com ele. Um 
imenso lobo com chamas nos olhos me observava 
enquanto eu estremecia de medo. O vento fazia com 
que seus pelos se movessem e ele parecia no querer 
fazer outra coisa alm de me observar. Era como se eu 
estivesse sendo vigiada e no soubesse exatamente o 
motivo. 

Eu fitava o lobo um pouco confusa. Aos poucos 
a presena dele deixou de ser amedrontadora e passou 
a ser mais agradvel, quase protetora. No entendi o 
que estava acontecendo, mas sabia que aquilo 
significava muito mais do que um simples sonho. 

No foi a primeira e acredito que no ser a 
ultima vez que tive aquele sonho. Desde que acordei 
do meu coma venho tendo sonhos estranhos com 
muita frequncia, quase diariamente. Isso me perturba 
de uma forma que no sei explicar. No pelo fato dos 
sonhos serem estranhos, mas o fato de haver algo 
extremamente serio que eu esqueci e preciso com 
urgncia me lembrar. 

Meus cadernos tambm haviam virado um 
grande tormento. Sempre que comeava a escrever 
algo, smbolos estranhos vinham em minha mente e 
quando olhava o que estava escrevendo... L estavam 
eles! Era extremamente perturbador. 


Hoje faz exatamente 1 ano desde que acordei 
do meu coma. Eu  com a minha imensa sorte  
machuquei o joelho e acabei rolando morro a baixo e 
batendo com a cabea em um poste. Fiquei pouco mais 
de 1 ms internada. Mas no entendo o motivo de 
sentir que no foi isso que aconteceu. 

 Beatriz?  minha me  Voc vai sair? 
 Sim, eu vou comprar o presente!  respondi. 
 Que presente?  parecia uma piada, mas ela 
realmente havia esquecido. 
 O presente do Nicardo!  naquela semana 
iramos comemorar o nosso aniversario de oito meses 
de namoro. 
Minha primeira impresso do Nicardo no foi 
das melhores. A primeira vez que o vi, ele estava 
parado em minha janela, olhando para meu quarto. E 
no foi apenas uma vez, mas varias. Na semana 
seguinte, quando voltei para escola, acabei 
descobrindo que ele iria estudar conosco e acabei 
descobrindo que j o conhecia antes  e outra pessoa 
da qual ele me proibiu de tentar lembrar. 

Convenci de que eu havia tido algum tipo de 
lapso de memria e acabei apagando tudo o que vivi 
com Nicardo e com essa tal segunda pessoa que no 
consigo lembrar sequer o nome. Era a nica opo 
lgica que me passava pela cabea, mas tentava no 
ficar pensando demais nisso. 


Fui at uma loja de ternos. Nicardo vivia 
dizendo que achava aquelas roupas interessantes e 
diferentes e eu ficava sem entender, mas deixava 
passar. Nicardo tem sido uma pessoa muito importante 
na minha vida, apesar de... No sei explicar, mas existe 
algo nele, ou na lembrana que tento resgatar dele, 
que no parece se encaixar. Talvez se ele deixasse o 
cabelo crescer... 

 Boa tarde!  uma moa muito bonita me 
atendeu. Nunca imaginei que seria atendida por uma 
mulher em uma loja de ternos. 
 Por favor, quanto est quele modelo na 
vitrine?  apontei  O terceiro, preto. 
 Aquele modelo est por R$ 429,90.  a moa 
tinha uma voz enjoada. 
 Nossa!  deixei escapar. 
 Mas se quiser, temos alguns modelos mais 
em conta senhorita.  a moa tentou me levar para a os 
ternos em liquidao. 
 No, no!  dei um passo para trs  Eu quero 
aquele!  tamanho nico, certo? 
 Sim senhorita!  a moa me olhou 
desconfiada. 
 Poderia dar uma olhada?  sorri. 
O modelo era perfeito. Ficaria timo no 
Nicardo. Sempre que passvamos por essa loja sentia 
que o Nicardo queria muito aquele terno. Outra coisa 


que no sei explicar exatamente, mas eu conseguia 
sentir o que o Nicardo sentia. Era como se tivssemos 
um tipo de elo, uma ligao mgica. E no era s com 
ele. s vezes parecia estar ouvindo os pensamentos 
dos outros e s vezes parecia estar sentindo 
exatamente o que a pessoa ao meu lado est sentindo. 
Isso era horrvel. Eu sentia muitas vezes sensaes que 
nunca havia experimentado e outras que desejava 
nunca experimentar novamente. Isso era s uma das 
coisas estranhas que estava acontecendo comigo desde 
que acordei do coma. 

As mesadas deste ms, a do ms anterior e a 
do ms seguinte estavam sendo gastas neste terno. 
Nunca imaginei que um dia gastaria tanto em um 
presente. Mas o Nicardo  to legal comigo, to 
paciente, me entende e no liga para minha m sorte. 
Acho que o Nicardo merece um bom presente. 

Cheguei em casa, tirei os fones do meu celular, 
deixei a BoA cantar Hurricane Venus no volume 
mximo e fui esconder o presente em meu guarda 
roupa. No queria que o Nicardo visse o seu presente 

antes do tempo. Enquanto guardava acabai 
derrubando um livro. Melhor dizendo, acabei 
derrubando o livro. 

Eu encontrei esse estranho livro pouco depois 
de ter acordado do coma. Esse livro estava trancado e 
no fazia a mnima idia de onde estava a chave. No 


fazia idia nem de onde tinha surgido aquele livro e 
isso era extremamente perturbador. Na verdade 
perturbador mesmo era as escritas na capa, elas sim 
eram perturbadoras. 

Eram smbolos estranhos e no fazia a menor 
idia do sentido, como os smbolos que aparecem na 
minha mente. Assim como a caixa vermelha, sinto que 
esse livro guarda algo muito importante e ser muito 
til para mim quando desvendar o seu mistrio. 

A noite chegou bem rpido naquele dia e logo 
j estava dormindo outra vez. Minhas noites de sono j 
eram bem previsveis, provavelmente veria o lobo 
assustador ou ento uma moa com um vestido rosa. 
Mas desta vez o sonho foi um pouco diferente. 

Estava novamente em um deserto, mas desta 
vez diferente do habitual deserto em que eu me 
encontro com o lobo. Eu olhava para o cho e via um 
pouco de grama, o restante era terra seca. Um homem 
levantava os braos e uma grande bola de fogo descia 
do cu. Era um cometa. Todo o local se encheu de fogo 
e pessoas comearam a lutar contra o homem e antes 
que eu pudesse reconhecer-las o cenrio do sonho 
mudou. 

Agora eu estava em uma floresta. No, um 
bosque. Varias lanternas japonesas eram acesas em 
varias rvores e uma voz dizia Ouvi algum? em 
seguida milhares de vozes repetiam Algum, algum, 
algum. De repente cai de uma rvore um ser 


baixinho e de ps redondos e gordos na minha frente. 
Era um ser muito estranho e com um penteado ainda 
mais estranho. Novamente o cenrio do sonho mudou, 
mas antes que pudesse notar onde estava o 
despertador comeou a tocar. 

Acordar tambm no havia se tornado uma 
das minhas coisas favoritas. De certa forma nunca foi, 
mas agora estava acontecendo coisas que me deixava 
muito preocupada. 

Fui ao banheiro lavar o rosto. Minha cabea 
doa por causa do pesadelo. O pior era sentir que eu 
no havia imaginado tudo aquilo. Parecia que eu j 
havia vivenciado aquelas situaes, como se fossem 
lembranas e no apenas outro fruto da minha frtil 
imaginao. 

Abri a torneira e lavei o rosto. Concentrei-me 
no espelho, eu j sabia o que viria depois. Sempre que 
tenho pesadelos  o que vem acontecendo com 
frequncia  isso acontece logo de manh. 

A primeira vez eu levei um susto e no 
consegui controlar. Na segunda demorou um pouco, 
mas acabei estabilizando a situao. Na terceira eu j 
sabia o que devia fazer e da quarta em diante eu j no 
tive mais problemas. 

Parei de fitar o espelho para no ter que dar 
de cara com litros e litros de gua passando por detrs 
de mim e subindo para o teto at descer novamente 


para dentro do ralo da pia. No sabia ainda o porqu 
de isso estar acontecendo, mas desejava todos os dias 
que isso parasse. 

A primeira vez que isso aconteceu o meu 
quarto ficou alagado. A torneira chegou a quebrar com 
a presso da gua que saia furiosamente. Por sorte no 
estragou muita coisa que eu j no estivesse com 
inteno de trocar  como minha cama e guarda roupa 
, mas o meu computador quase foi para o lixo e por 
muito pouco eu no perco todos os meus livros. Mas 
isso no  um fenmeno exclusivo da gua, j 
aconteceu com fogo tambm. Para minha sorte o caso 
com o fogo aconteceu depois de j ter aprendido a 
controlar a gua. 

Estava na cozinha, evitando qualquer coisa 
que parecesse pontiagudo ou cortante, quando 
comecei a fitar a comida no fogo. Olhei para o fogo. 
Aquela pequena chama alaranjada pareceu comear a 
crescer e crescer. Eu olhava atnita enquanto ela se 
juntava as chamas das outras bocas do fogo. No 
demorou muito e senti o cheiro de queimado invadir a 
cozinha. Corri para tentar desligar o fogo, mas ele 
pareceu perceber a minha presena e saiu das bocas do 
fogo e ficou flutuando ao meu redor. O calor do fogo 
estava machucando a minha pele e j comeava a suar 
quando tentei fazer o mesmo que fazia com a gua. 
Respirei fundo e tentei ordenar ao fogo que parasse   
ridculo, mas funcionou. O fogo comeou a diminuir at 


desaparecer completamente. Atrada pelo cheiro de 
queimado, minha me veio conferir o que estava 
acontecendo. Disse que havia sentido o cheiro de algo 
queimando e corri para apagar o fogo. No tentei 
explicar como todas as coisas que estavam sendo 
preparadas queimaram ao mesmo tempo. 

Desde o incidente h um ano, Camila nunca 
mais passou pela rua daquela padaria. Ela dizia que 
trazia ms lembranas e maus agouros. Das ms 
lembranas eu no tinha  ou pelo menos no me 
lembrava , mas dos maus agouros eu preferia ficar 
bem longe, minha vida j era agourenta demais. 

Desencontrei Camila na ida para escola, mas 
encontrei com Toni. O namoro dos dois estava indo de 
vento em poupa. Depois que voltei do coma, Toni 
resolveu pedir Camila em namoro. Ele disse que ficou 
assustado com a minha situao e temeu que algo 
parecido acontecesse com Camila. 

Toni era um cara legal. Um jovem de cabelos 
lisos e castanhos e imensos olhos azuis. Seu nico 
defeito era o nariz, um pouco grande para o meu gosto. 

 Voc tambm se perdeu da Camila?  ele 
perguntou. 
 No exatamente.  sorri  Estava esperando 
por ela para seguirmos juntas para a escola, mas ela 
no apareceu. 

 E Nicardo?  ele olhou desconfiado  Onde 
ele est? 
 Nicardo fez uma viagem com os pais, volta 
s amanh.  respondi um pouco nostlgica. 
 Ah.  foi a nica coisa que ele disse.  
Vocs se do muito bem! 

 Acho que sim.  sorri. 
 Posso te perguntar uma coisa?  ele me 
parou. 
 Acho que sim.  respondi dando um sorriso 
torto. 
 A Camila disse algo sobre querer terminar 
comigo?  ele me deu um susto. 
 N... No!  respondi aps me recuperar do 
susto  No, ela no quer terminar com voc! 
 E que ns estvamos indo para a escola 
juntos, como sempre, mas ela desapareceu.  ele fitou 
triste o cho. 
 O que ser que aconteceu?  estranhei. 
 Beatriz?  eu conhecia essa voz. 
 Nicardo?  perguntei incrdula. 
Era ele mesmo. Estava na minha frente, 
esbanjando sua beleza e carisma. Por alguns instantes 
achei que estava tendo uma miragem  ou algum 
devaneio novo , mas logo pude sentir o seu abrao me 
apertar com uma fora um pouco maior que o habitual. 

 Voc vai acabar me partindo ao meio!  
disse tentando fazer-lo me soltar.  Voc no deveria 
voltar apenas amanh? 


 H... Sim!  ele pareceu sem jeito  Digo, 
sim! H... E que eu... Bem, tive que... Voltar mais cedo! 
 Hum, sei...  sorri. 
 Serio, eu tive que...  ele tentou se explicar. 
 Pode confessar!  dei um soco em seu 
ombro  Voc voltou por minha causa. Ficou com 
saudades? 
 S-s-sim!  ele olhava para Toni  Fiquei com 
saudades. Eu no consigo esconder nada de voc! 
 Bobinho...  dei um beijo nele  No  o 
namorado mais fofo que pode existir? 
 H?  Toni me olhava estranho  No sei. 
 Ah, claro!  percebi a idiotice da minha 
pergunta  Isso  o tipo de coisa que eu perguntaria 
para a Camila! 
 E o que ela responderia?  tinha esquecido 
que a insegurana de Toni o estragava. 
 Que s existe um namorado mais fofo do 
que o Nicardo! 
 Q-q-quem?  Toni perguntou. 
 Voc!  respondi  Dh! 
 Ento qual seria o motivo dela sumir?  ele 
parecia realmente apavorado. 
 Espere!  Nicardo nos parou  A Camila 
sumiu? 
 Sumiu!  Toni ficou ainda mais apavorado. 
 Como?  Nicardo perguntou. 
 Eu estava conversando com ela enquanto 
amos para escola e, em algum momento, ela no 

estava mais comigo. Ser que ela se encheu de mim e 
resolveu fugir de mansinho? 

 Acredito que no.  Nicardo falou baixo. 
 C-c-como assim?  Toni estava um pilha de 
nervosos  O que voc desconfia? 
 Beatriz, precisamos voltar!  Nicardo me 
pegou pelo brao. 
 Espere um momento!  Toni tentava ir atrs 
de ns enquanto Nicardo me puxava e corria.  O que 
est acontecendo? 
 Volte para a escola!  Nicardo gritou  Fique 
por l! 
O que vi em seguida foi algo muito estranho. 
Nicardo estendeu a palma da mo direita no rosto de 
Toni e uma bola azul claro comeou a sair de dentro 
dela. Ela passou e entrou dentro da cabea de Toni 
que, por alguns segundos, ficou paralisado e nos fitava 
com os olhos vidrados. Logo em seguida ele balanou a 
cabea como se tivesse acordado de uma transe e 
seguiu em direo a escola tranquilamente. 

 O que voc fez?  perguntei enquanto ele 
me pegava no colo. 
 No tenho tempo para explicar!  ele no 
olhava para mim  Voc guardou aquela caixa 
vermelha certo? 
 Aquela que no abre? Sim!  respondi um 
pouco confusa  Est no meu quarto! 
 timo! 

Nicardo comeou a correr em uma velocidade 
impressionante e quase tive certeza de que estava 
tendo outro dos meus sonhos estranhos. Sua pele 
tambm comeou a mudar. Parecia que uma pequena 
crosta de pedra cobria seu rosto e seu corpo. 

Estava reconhecendo o caminho que Nicardo 
estava seguindo. Era o caminho da minha casa. O que 
ele estava querendo? 

 Nicardo, eu estou ficando com medo!  
disse enquanto olhava as coisas passarem por mim 
feito flecha. 

 Eu tambm.  ele continuava sem olhar para 
mim. 
Chegamos em casa pela janela do meu 
quarto. No sei exatamente em que momento, mas 
Nicardo subiu pelas paredes comigo no colo. 

 Rpido, onde est?  Nicardo me colocava 
no cho. 
 Onde est o que? 
 A caixa vermelha!  ele respondeu. 
 Ela est aqui, no meu guarda roupa! 
Abri o guarda roupa e acabei, 
inevitavelmente, revelando o presente de Nicardo bem 
antes do tempo. 

 O que  isso?  ele perguntou. 
 Seu presente!  respondi triste  Essa 
semana fazemos oito meses de namoro e queria algo 
especial. 

Por alguns instantes seus olhos brilharam, 
depois se transformaram em uma expresso de pena e 
remorso que, por fim, voltou ao desespero de antes. 

Peguei a caixa e aproveitei para pegar o livro 
tambm. Nicardo olhou para ele e se assustou, mas 
pareceu j conhecer-lo ou saber de onde ele veio. 

 O que voc quer com essa caixa?  
perguntei. 

 Abra!  sua voz estava serio. 
 O que? 
 Abra a caixa!  ele continuava serio. 
 Mas ela no abre!  notei que o cho do 
meu quarto estava cheio de gua. 
 Vamos logo, abra a caixa!  ele estava 
ficando nervoso. 
 Mas... 
Fiquei apavorada. Novamente a torneira do 
banheiro quebrou e ouvi barulho de gua saindo do 
chuveiro. Parecia que quanto mais apavorada eu ficava, 
mais gua aparecia. 

A gua comeou a rolar pelas paredes, como 
se formassem pequenos rios e caiam bem atrs de 
mim, molhando completamente a minha cama e me 
molhando tambm. 

Minhas mos pareciam no querer me 
obedecer e a gua parecia estar esperando apenas um 
sinal meu para se espalhar por todo o quarto. Quando 
notei novamente todas as paredes estavam cobertas 
de cima a baixo por gua e o teto tambm. Um tipo de 


cachoeira se formou atrs de mim e parecia furiosa por 
eu estar mantendo ela presa. 

 Beatriz  Nicardo falava alto  apenas voc 
pode abrir essa caixa! 
Foi ento que finalmente consegui. Assim que 
abri a caixa, toda a gua que estava presa as paredes e 
ao teto comearam a entrar para dentro da caixa 
atravs da pequena cachoeira que se formou atrs de 
mim. A gua passava por minha cabea e entrava para 
dentro da caixa. Muitos e muitos litros dgua no 
paravam de entrar em uma caixinha to pequena. Era 
como se ela no tivesse fundo. Aos poucos percebi que 

o meu corpo e o de Nicardo estavam se dissolvendo 
junto com a gua e comecei a gritar apavorada, mas 
parecia que ningum estava ouvindo. Era como se nada 
estivesse acontecendo. 
A ultima coisa que me lembro foi de estar no 
colo de Nicardo, deitada em um cho transparente e 
com leo-marinho passando por debaixo de mim. 
Tomei um grande susto e me levantei no exato 
momento. Notei que o leo-marinho era o menor dos 
meus problemas. 

Estava em um lugar completamente diferente 
de tudo o que eu j havia visto. As ruas eram feitas de 
uma pedra transparente e abaixo de ns, a gua e as 
casas eram todas feitas de pedras azuladas que davam 
um clima de frio. Haviam varias rvores de tronco azul 
e folhas brancas e uma diversidade incrvel de flores. As 


casas tinham canteiros de rosas brancas. Por um 
instante senti que tudo isso no era to estranho e 
diferente. 

As pessoas tinham uma colorao meio branca 
e azulada. Os cabelos  azuis escuro  eram 
extremamente lisos e seus olhos eram azuis cinzentos e 
todos puxados, feito olhos de asiticos, parecendo 
guardar todo o oceano em duas pequenas esferas. Seus 
rostos eram afilados e bonitos e em seus pescoos 
havia guelras semelhantes as de um tubaro. Mas havia 
algo de errado neles. Eles estavam tristes, com os olhos 
longe, como se estivessem relembrando um passado 
que nunca iria voltar. 

Quando olhei para Nicardo tomei outro susto. 
Sua pele havia se transformado em pedra e seus 
cabelos haviam embranquecido completamente. Era 
como se ele tivesse contrado uma doena de pele ou 
sido enfeitiado por uma bruxa de contos de fada. 

 O que aconteceu com voc?  perguntei. 
 Juro, quando tivermos tempo eu explico 
absolutamente tudo!  Nicardo sussurrava. 
 Mas ser que poderemos... Aaahh!  levei um 
grande susto quando olhei para um dos postes de 
iluminao. 
 Procurados?  Nicardo arrancou o cartaz e riu 
 Vivos ou mortos... Como eles conseguiram nos 
desenhar to mal? 

D 


CAPTULO 2 / UM CASTELO ABANDONADO E 
MEMRIAS ESQUECIDAS 


e fato ns estvamos horrveis naquele desenho, mas 
ainda era possvel reconhecer que ramos ns. Alm de 
mim e do Nicardo, havia mais trs pessoas no cartaz. 
Era uma jovem moa de cabelos encaracolados e com 
guelras de tubaro, um rapaz que aparentava ser o 
mais velho e de longos cabelos e, por fim, uma figura 
que me pareceu extremamente famlia. 

Era muito estranho, mas sentia que j havia 
passado muitas horas da minha vida com aquela 
pessoa. Aqueles cabelos castanhos que cobriam as 
orelhas e os aparentes olhos verdes pareciam muito 
mais significativos do que os demais, at mesmo do 
que o Nicardo. 

 Por que esto nos caando?  perguntei. 
 Agora no  hora para responder essas 
perguntas!  ele vigiava as pessoas.  Neide parece no 
ter mudado muito desde a ltima vez que estive aqui. 
 Neide?  perguntei  Espere um minuto! 
Voc j esteve aqui? 
 Sim!  ele olhou para mim e depois se virou 
para vigiar as pessoas e voltou a olhar para mim  Voc 
tambm j esteve aqui! 
 Como  que ?  gritei. 
 Quieta!  ele tapou a minha boca  No 
chame tanto a ateno. Devemos sair daqui o mais 
rpido possvel. 

 Vocs ouviram algo?  uma voz vinha da rua 
que fazia esquina com a nossa. 
 Porcaria!  Nicardo sussurrou  Venha! 
Corremos para outra rua e ouvi duas pessoas 
dizendo olhe l e correndo atrs de ns dois. No sei 
exatamente o que eram e nem o que queriam, mas 
estavam furiosos. 

 Quando eu disser trs est ouvindo?  
Nicardo comeava a correr mais rpido. 
 Fazer o que quando voc disser trs?  
perguntei inutilmente. 

 Um, dois, trs! 
De repente eu sabia o que fazer. Era como se 
algum tivesse me enviado um sinal, uma luz e 
finalmente lembrei o que deveria fazer. 

Lembrei das aulas de meditao e do yoga  
digo yoga por que aquilo era tudo, menos yoga  que 

o Nicardo me dava diariamente e que me ajudou a 
controlar os jatos de gua que saiam da pia do meu 
banheiro. 
Como num passe de mgica, minha vontade foi 
cumprida. Um jato de gua perfurou o cho e comeou 
a inundar as ruas levando tudo e todos. No estava 
acreditando no que estava acontecendo, mas no 
estava to assustada como imaginei que estava. 

 Tudo bem, eu estava pensando em algo com 
fogo!  Nicardo me pagava no colo. 
 Fogo?  perguntei. 

 Mas ganhamos tempo.  ele sorriu  Agora 
temos que ser bem rpidos! 
Nicardo comeou a correr feito um louco e  
com um pouco de dificuldade  pude notar o motivo. 
Esses seres estranhos que estavam nos perseguindo 
eram exmios nadadores e agora estavam mais rpidos 
do que antes. 

Aos poucos no vi mais ningum nos 
perseguindo. Nicardo comeou a diminuir a velocidade 
e sua respirao comeou a ficar mais pesada. Tambm 
pudera, me carregou no colo quilmetros e 
quilmetros em velocidade mxima. 

 Por que eles estavam atrs de ns?  
perguntei quando ele me colocou no cho. 

 Espere... Ah... Espere um minuto!  ele 
sentou no cho e colocou a mo no peito. 
 Espero que agora voc possa responder 
algumas das minhas perguntas!  falei um pouco alto. 
 Shhh!  ele colocou o indicador na frente da 
boca  Que atrair-los outra vez? 
 Desculpe!  baixei a voz constrangida  Eu s 
queria entender o que est acontecendo! 
 Espero que esse lugar ainda seja um bom 
esconderijo.  Nicardo se colocava de p  Vamos 
entrar! L dentro eu te conto tudo. 
Estvamos de frente para um enorme castelo 
abandonado. Rodeamos um imenso muro at chagar 
ao porto. No foi muito difcil de entrar, o porto 


estava com algumas de suas barras tortas ou 
quebradas. O castelo no estava em runas, estava 
apenas velho. Sua cor estava desbotada, havia janelas 
quebradas e parte da pintura havia descascando, fora 
isso, o castelo estava em perfeito estado. Novamente 
tinha a impresso de j ter vivido tudo aquilo antes. 

Assim como o lado de fora, dentro do castelo 
as coisas estavam apenas muito velhas. Haviam coisas 
quebradas e poeira para tudo que  lado. Mas ainda 
no era a minha imagem de castelo abandonado. Esse 
castelo aparentava ter sido limpo h mais ou menos 
um ano, mas depois resolveram esquecer de vez o 
velho primeiro palcio de Neide. O velho primeiro 
palcio de Neide? Algo parecia estar voltando a minha 
cabea. 

A primeira coisa que vi foi uma longa escadaria, 
com seu tapete vermelho desbotado e empoeirado. 
Havia uma grande porta a esquerda e outra grande 
porta a direita, assim como na parte de cima do 
castelo. No meio, ao fim da escadaria, havia outra 
grande porta. 

Fiquei fitando aquela porta por um tempo. Algo 
nela obrigava a minha cabea a se lembrar. Sentia que 
havia acontecido algo de muito especial naquela sala, 
mas o que seria? 

 Lembrou de algo?  Nicardo perguntou. 
Neste momento um som, uma melodia, tocada 
ao piano comeou a invadir o local. Era uma melodia 


triste e dramtica, mas ao mesmo tempo romntica e 
arrebatadora. Era uma belssima melodia. Senti que j 
havia ouvido antes, mas no lembrava quando. 

 Voc est ouvindo isso?  perguntei. 
 Isso o que?  Nicardo perguntou. 
 Essa msica? 
 Desculpe...  Nicardo balanou a cabea 
negativamente. 
A melodia estava sendo tocada apenas em 
minha mente. Seria uma lembrana? Eu ainda estava 
to confusa com tudo o que estava acontecendo que j 
no tinha certeza da minha prpria sanidade. Foi neste 
instante que aconteceu. Minha primeira lembrana de 
verdade. 

Abria porta que tanto me intrigava e dei de 
cara com um imenso salo. Ele era rodeado por 
enormes janelas e velhas cortinas vermelhas. A nica 
coisa que havia no salo era um velho piano destrudo. 

 O que estava tocando?  perguntei. 
 O Oceano  uma moa se virou para mim   
uma composio minha, estava muito ruim? 
 No!  me espantei com a pergunta  
Muitssimo pelo contrario, era linda! 

 Serio mesmo?  ela parecia no acreditar. 
 Serio!  respondi. Nicardo estava do meu 
lado. 
 Era realmente uma bela cano.  Nicardo 
tambm concordava  Toque-a outra vez? 

 Se vocs gostaram... Vamos l. 
 Voc me concede a honra?  Nicardo estendia 
a mo. 
 Est me convidando para danar?  
perguntei. 

  o que parece?  ele sorriu  Sim, estou te 
convidando para danar. 
 Mas eu no sou boa em dana.  eu parecia 
tentar escapar. 
 Tudo bem, eu tambm no sou.  ele sorriu. 
 J que insiste tanto...  havia me rendido. 
Um claro tomou conta de minha viso e 
quando dei por mim estava jogada no cho, com 
Nicardo me segurando. 

 O que houve?  ele perguntou preocupado. 
 No sei, acho que... Acho que... Acho que tive 
uma viso!  estava tonta. 
 Uma viso?  ele se assustou.  No teria sido 
uma... Lembrana? 
 Uma lembrana?  estava confusa. 
 Quem est ai?  uma voz feminina ecoou no 
salo. 
 Venha!  Nicardo me pegou no colo e foi para 
trs da porta.  No saia da. 
Nicardo me colocou sentada no cho e pegou 
uma espada que estava pendurada na parede, perto de 
uma das janelas. A espada parecia um pouco 


enferrujada, mas ainda tinha um pequeno brilho letal e 
ameaador. 

Nicardo voltou para trs da porta e esperou at 
a pessoa chegar perto. Notei que os passos comearam 
a se aproximar, se aproximar, se aproximar at que 
BLANG, BLANG! 

As espadas de ambos se cruzaram. Os dois 
baixaram as armas e pareceram extremamente 
aliviados. Olhei melhor para a moa e reconheci na 
mesma hora. Era a moa que vi no cartaz e a moa que 
apareceu em minha lembrana. 

 Thalassa!  Nicardo suspirou aliviado. 
 Nicardo, Beatriz!  a Thalassa pareceu muito 
feliz  No acredito que vocs voltaram! 
 Espere! Ns j nos conhecemos mesmo? 
perguntei. 

 Acho que agora j est na hora de voc saber 
de tudo!  Nicardo ficou serio. 
Nicardo me contou que estvamos em um 
lugar chamado Ofir. Este mundo era parte de outra 
dimenso, bem distante da Terra e que este lugar 
estava em uma grande guerra. Ele disse que fui 
chamada para este lugar h um ano para ser a 
salvadora deles, mas eu quis desafiar a profecia e 
acabei fazendo com que Ofir casse em desgraa e que 
Bianor, o grande vilo a frente da guerra, ganhasse 
poder absoluto para fazer o que quisesse com Ofir. 


Ele contou que fui mandada para Terra outra 
vez para a minha prpria proteo e que eu deveria 
treinar e aperfeioar meus poderes que me foram 
doados por Alina, a rainha da Capital de Ofir. Alina 
havia sido capturada por Bianor e quase morreu se no 
fosse por um pedido meu para Dmaris, a primeira 
rainha de Ofir. Dmaris, depois de planejar a morte do 
marido, no aguentou o remorso e se trancou dentro 
de um cristal mgico. 

O cristal foi um plano de Dmaris para no 
deixar o povo que ela tanto amava desamparado. Ela 
foi a primeira grande maga de Ofir e sempre realizava 
com magia as necessidades de seu povo. Mas, por 
precauo, o cristal foi dividido em seis partes e 
espalhados por toda Ofir para que no cassem em 
mos erradas. 

Toda essa histria pareceu um tanto absurda 
para minha compreenso, mas se comparasse com os 
ltimos acontecimentos de minha vida parecia uma 
histria bem coerente. 

Tentei forar minha mente a me lembrar de 
tudo o que me contavam, mas de nada adiantou. O 
mximo que consegui foi uma bruta dor de cabea. 

 Tem certeza de que esse lugar continua 
sendo seguro?  Nicardo perguntava para Thalassa. 
 Seguro este lugar no , mas ele continua 
sendo o lugar com o menor ndice de visitao do reino 

de Neide.  Thalassa sorriu  De vez em outra alguns 
guardas aparecem, mas eu tenho um esconderijo aqui 
dentro. 

 Acha que podemos passar a noite aqui?  
Nicardo perguntou. 

 Sim, podem. Como nos velhos tempos? 
 Como nos velhos tempos!  Nicardo sorriu. 
Samos do salo e entramos na porta da direita. 
Havia um grande corredor e varias portas. Algumas 
estavam abertas, outras simplesmente arrombadas, 
mas no olhei o que tinha dentro. Novamente uma 
forte sensao de que j havia vivido aquilo invadiu 
meu peito. Era como se j tivesse feito esse mesmo 
trajeto, o que  pelo que me contaram  eu realmente 
fiz. Estava comeando a entender o famoso Dj Vu. 

 Teremos que ficar todos no mesmo quarto.  
Thalassa abria uma porta que quase tombou.  Os 
outros quartos no esto habitveis. 

 Continua com seus estoques de lenis?  
Nicardo perguntou. 

 Sim!  ela sorriu. 
O quarto era bem grande e a velha cama que 
estava ali tambm. Poderamos dormir os trs 
tranquilamente e ainda sobraria espao para mais uma 
pessoa. 


Havia tambm um velho guarda roupa, ao lado 
de uma grande janela aparentemente emperrada. 
Havia uma porta dentro do quarto que estava aberta e 
revelava uma banheira  presumi que fosse o banheiro. 

No consegui tirar aquela lembrana de minha 
cabea. Estava to atordoada com tudo o que estava 
acontecendo comigo que no consegui dormir. Estava 
pensando no s na lembrana, mas estava pensando 
na histria que me contaram e em tudo o que eu havia 
esquecido. Mas por que eu havia esquecido? Quando e 
como eu esqueci coisas to importantes? Cheguei a 
pensar que estava tendo um noite longa e que esse era 

o sonho mais estranho de todos que venho tido, mas 
infelizmente sabia que no era um sonho. 
Quando finalmente dormi  horas depois  tive 
um sonho. Ou uma recordao. Eu comeava a 
questionar as coisas que surgiam em minha mente 
desde que soube de toda a verdade. 

Eu estava em um bosque e sentado no topo de 
uma rvore estava um jovem. No conseguia ver seu 
rosto, mas seu brao sangrava muito. Ele parecia estar 
prestes a desmaiar e eu queria muito fazer alguma 
coisa, mas descobri que era intil. Eu no estava no 
bosque, estava assistindo tudo dentro de uma sala com 
paredes em vrios tons de roxo. 

Eu me olhava no espelho e via uma mulher de 
cabelos loiros e vestido rosa. A mesma que eu havia 


visto em meus sonhos algumas vezes depois que voltei 
do coma  ou de Ofir. Ela me olhava aflita e se 
perguntava sobre algo que no conseguia ouvir. Ento 
reparei que ela no estava falando comigo, mas com 
outra pessoa. 

Era uma sombra negra e aterrorizante, mas a 
mulher de vestido roxo no se deixava intimidar e 
parecia encarar o homem. Aos poucos o homem entrou 
em meu campo de viso e uma foice surgiu de sua 
mo. Ele estendeu a foice e mirou na cabea da mulher 
e foi com tudo. 

 Aaahh!  acordei antes de presenciar a cena. 
Eu estava sozinha na cama. No havia mais 
ningum no quarto. Entrei em desespero. O que teria 
acontecido com os dois? Por que eles me deixaram 
sozinha? 

Comecei a andar pelos corredores, procurando 
pelos quartos destrudos. Rudos assustadores vinham 
de cada passo que dava, sons estranhos apareciam a 
cada vez que encostava na porta e o eco dos meus 
gritos pareciam gargalhadas de fantasmas. 

Segui para as escadas e desci correndo. No sei 
exatamente dizer qual caminho eu havia pego. Estava 
to desesperada que no olhava por onde andava, 
apenas andava. Talvez eu no estivesse 
emocionalmente preparada para enfrentar aquele 
mundo estranho sozinha. 

Entrei em uma porta e dei de cara com o que 
deveria ser um jardim. O que deveria ter sido um belo 


jardim. Estava todo congelado, mas ainda podia sentia 
a vida que um dia passou por ele. Havia varias rvores, 
sem folhas, e vrios canteiros que deveriam ser 
repletos de flores. Havia tambm um pequeno chafariz, 
com um cavalo marinho esculpido e havia pedras azuis 
fazendo um caminho circular por todo o jardim. 

Eu no sabia explicar, mas estava sentindo que 
j havia visto aquele jardim vivo antes. Vendo as 
minhas ltimas descobertas, provavelmente eu 
realmente havia visto aquele jardim em sua melhor 
forma. Era uma pena que eu no lembrasse como esse 
jardim era antes, mas por algum motivo eu sentia que 
veria ele incrvel, forte e vivo novamente. 

 Voc est ai?  era a voz de Nicardo. 
 Por que voc sumiu?  corri e o beijei  Fiquei 
to assustada. 
 Lembrou de mais alguma coisa?  ele 
perguntou. 
 Eu estou tentando no forar minha mente.  
respondi de cabea baixa. 

 Entendo.  Nicardo no pareceu muito 
decepcionado. 
 Mas por que voc sumiu?  voltei a minha 
pergunta  E a Thalassa, onde ela est? 
 Estvamos montando guarda!  comeamos a 
andar pelo jardim  Eu fui primeiro e depois a Thalassa 
trocou de lugar comigo. Agora que j amanheceu, 
resolvemos ficar os dois vigiando. 

 E por que no me acordaram?  perguntei 
irritada. 
 Voc est passando por um momento difcil  
Nicardo segurava em meus ombros  resolvemos 
deixar voc descansar o quanto fosse necessrio. 

 Sim, sim.  tirei suas mos de meus ombros  
Mas no faam isso outra vez! Eu fiquei muito 
assustada. 

 Est tudo bem, no iremos fazer de novo!  
ele sorriu. 

 Obrigada.  retribui o sorriso. 
 Voc est preocupada?  ele olhava intrigado 
comigo. 
 No sei se a palavra certa seria essa.  eu 
disse  Talvez... Assustada. So tantas informaes e 
em to pouco tempo, ainda no consegui digeri tudo 
isso. 
 Eu imagino.  ele sorriu. 
 Ser?  achei graa. 
 Voc pode no acreditar, mas eu sinto o que 
as pessoas sentem. 
 Voc tambm?  fiquei surpresa. 
 Na verdade essa era uma exclusividade minha 
no grupo  ele sorriu  voc roubou isso de mim. Sua 
ladrazinha! 
Nicardo pulou em mim e comeou a me encher 
de ccegas. As minhas gargalhadas e as gargalhadas 
dele faziam parecer que nada disso estava 
acontecendo. Tudo no havia passado de um sonho 


estranho. Mas eu sabia que no era um sonho 
estranho. 

 Nicardo...  eu estava prestes a tocar em um 
assunto perigoso  E a outra pessoa. Aquele que no 
posso falar. Ele  daqui tambm no ? 
 Beatriz, esse assunto agora?  ele fechou o 
rosto. 
 Acho que chegou o momento.  cheguei mais 
perto. 
 No, no  o momento!  ele ficou chateado. 
 Claro que  o momento!  o segurei pelo 
brao  No existe outro momento melhor. 
 Ser que voc no entende? 
 No!  respondi automaticamente  Existem 
varias coisas que eu preciso lembrar. Quem sabe se eu 
me lembrar dele eu no consiga lembrar de outras 
coisas? 
 No!  ele quase gritou  Voc pode lembrar 
de tudo, menos dele! 
 Por que essa agressividade? 
 Voc realmente no entende?  ele 
perguntou  Ser que no consegue sentir? 
 Eu... Eu... Eu no sei!  coloquei as mos na 
cabea  Eu no sei, est tudo to confuso, to 
estranho. 
Nicardo comeou a me fitar triste. Ele suspirou 
e espremeu a boca. Sabia que estava sendo cruel com 
ele, mas no sabia explicar o motivo. Eu estava vivendo 


no momento mais estranho e complexo de toda a 
minha vida. 

 Sim, ele era de Ofir.  Nicardo comeou a 
falar  Seu nome era Alexis, ele era o prncipe herdeiro 
da Capital. Ele  o irmo do Neandro. 
 Ele nos acompanhou durante a primeira vez 
que estive aqui?  perguntei mais calma. 
 Foi ele quem te achou!  ele no olhava para 
mim. 
 E por que voc no falou nada dele para mim 
quando estava contando o que aconteceu um ano 
atrs? 
 Eu no podia. E complicado.  ele fitava o 
cho. 
 E como ele era? Como era a minha relao 
com ele? A relao dele com voc? Vocs eram amigos, 
digo, ns trs? 
 O que voc est me perguntando?  Nicardo 
parecia decepcionado. 
 Nicardo, Beatriz!  Thalassa chegava 
apavorada  Ainda bem que encontrei vocs! 
 O que aconteceu?  Nicardo perguntou. 
 Ouvi pessoas entrando pelo porto!  
Thalassa vigiava as janelas  Eles esto entrando no 
castelo. 

 Eles?  fiquei assustada  Eles quem? 
 Os Leons!  Thalassa respondeu rpido. 
 Leons?  perguntei. 

 So guardas de Bianor  ela nos puxava para 
fora do jardim. 
 E ns no podemos enfrentar-los?  Nicardo 
perguntou. 
 Est doido?  Thalassa pareceu rir para no 
chorar  Eles so seres criados pelo prprio Bianor, no 
so coisas que se possam ser vencidas com facilidade. 
 Mas nos j destrumos coisas bem piores!  
Nicardo ainda queria lutar  Lembra do drago? 
 Sim, mas naquela vez estvamos em seis!  
Thalassa respondeu. 

 E o que vamos fazer?  perguntei 
desesperada. 
 Eu acho que disse que tenho um esconderijo? 

T 


CAPTULO 3 / ESCONDERIJO ESCURO, UMA LUTA 
SURPRESA E UM MENINO GNIO 


halassa nos levou de volta ao grande salo. A essa 
altura os tais Leons j haviam entrado no castelo. 
Estava apavorada com toda essa adrenalina, mas 
consegui enxergar as coisas a minha frente. 

Thalassa parou na frente de um velho quadro e 

o empurrou para o lado. O quadro revelou um buraco. 
No era bem o tipo de esconderijo que tinha em 
mente, mas a situao no deixava outra alternativa. 
O buraco no era grande, mas deu para 
ficarmos todos sentados esperando que os Leons no 
nos encontrassem. O que me incomodou mesmo foi a 
escurido. Aps Thalassa soltar o quadro, um manto 
negro pairou sobre os meus olhos. No conseguia 
enxergar absolutamente nada, isso era assustador. 

 Nicardo, cad voc?  sussurrei tateando o 
nariz de algum. 
 Estou aqui!  uma mo puxava o meu brao. 
Nicardo estava do meu lado direito. 
 Vamos ficar em silncio!  Thalassa disse 
bem baixinho. 
Barulhos de todos os tipos ecoavam pelo 
palcio. Portas sendo arrombadas, coisas sendo 
jogadas no cho e passos pesados para todos os lados. 
Eu me segurava para no gritar com cada susto que 
levava. 


Demorou um bom tempo at que eles fossem 
embora. Para mim pareceu uma eternidade e cheguei a 
pensar que morreria naquele buraco escuro. O pnico 
tomou conta de mim e tive que vencer-lo para nossa 
segurana e isso havia me deixado exausta e a flor da 
pele, como um grito que voc engole e fica entalado na 
garganta. 

 Ser que eles j foram?  Nicardo sussurrou. 
 E um pouco arriscado olhar, mas vou tentar. 
No precisou de Thalassa sequer estender a 
mo, passos que pareciam ser de duas pessoas  ou 
dois seres  comearam a fazer o cho tremer. Eles 
eram gigantes? 

Rudos estranhos, como rugidos de um leo 
distorcidos, comearam a passear pelo salo. Os passos 
pararam e ouvi um rudo parecido com um co 
farejando algo. Um silencio tomou conta do local 
novamente. 

 Acho que agora eles foram. 
Thalassa tentou novamente. E novamente no 
foi necessrio ela sequer estender a mo. BAM, BAM! 
Algum batia no piano com fora. Eles ainda estavam 
por ali. Ser que eles no iriam embora nunca? 

Temi no aguentar o pnico e comear a gritar 
apavorada, mas para minha sorte Nicardo estava 
segurando forte a minha mo. No sei se meu corao 
iria aguentar tanta adrenalina assim. 


Os passos continuavam pelo salo e pareciam 
acompanhar as batidas do meu corao, ficando cada 
vez mais altos. Alexis, Alexis, Alexis. Por que esse nome 
na minha cabea agora? Quem ou o que  Alexis? Eu 
realmente no estava tendo um dia muito bom. 

Nicardo reparou que eu estava ficando agitada 
e me abraou. Temporariamente aquilo me acalmou, 
mas a cada novo passo que os Leons davam no salo 
era um sobressalto em meu corao e minha 
respirao comeava a ficar descontrolada. 

 Beatriz, acalme-se!  Thalassa tambm 
segurou minha mo  Voc j enfrentou coisas to 
terrveis quanto eles. 
 Mas eu no me lembro!  tentei no gritar  
Fora que voc disse que eles eram perigosos demais 
para apenas ns trs. 

 E eles realmente so!  Thalassa sussurrou 
ainda segurando minha mo. 
 Acho que isso no est ajudando.  Nicardo 
tambm tentava no gritar. 
 Vamos ficar em silncio, eles podem estar nos 
ouvindo!  Thalassa deu uma tima idia. 
Os passos comearam a se aproximar do nosso 
esconderijo. Estava ficando louca. E se eles nos 
descobrissem? Estava tentando afastar esses tipos to 
deprimentes de pensamentos da minha mente, mas 
era difcil quando o fim era certo. 

Os passos comearam a se afastar e tive um 
rpido momento de alivio. Estava prestes a me 


assegurar de que estvamos seguros quanto um claro 
iluminou todo o nosso esconderijo e me deixou cega 
por alguns instantes. Havamos sido descobertos. 

Os Leons no eram exatamente aquilo que eu 
estava esperando. Achei que veria lees de cinco 
metros de altura, andando em duas patas, com garras e 
dentes enormes e com os olhos ameaadores que todo 

o grande predador tem quando est de olho em sua 
caa. Ao invs disso, o que encontrei foi um pouco 
diferente. 
Eram dois seres peludos de um pouco mais de 
dois metros de altura, com uma grande barriga e um 
umbigo pontudo. No tinha presas e nem garras. Um 
usava duas grandes espadas e o outro um tipo de besta 
gigante. A nica coisa que estava igual ao que eu 
imaginava eram os olhos de predador, fitando-nos 
como se estivessem sentindo o sabor que cada um de 
ns tnhamos. 

 E o que vamos fazer agora?  finalmente 
pude gritar. 
 Agora teremos que lutar!  Thalassa pulou do 
esconderijo e foi direto na cabea do da esquerda, que 
estava com as duas espadas.  Voc, tente se proteger 
com isso! 
Thalassa havia conseguido pegar um dos 
escudos que estava pendurado na parede. Havia dois 
escudos pendurados, um de cada lado do salo e 
quatro pares de espadas cruzadas em cada parede. Na 


verdade no eram quatro pares exatos, Nicardo havia 
pego uma das oito espadas. 

 Mas como eu uso isso?  perguntei. 
 Apenas se defenda!  ela gritou enquanto 
puxava uma espada. Nicardo fez o mesmo. 
Antes que eu pudesse responder qualquer 
coisa Thalassa pulou do Leon e comeou a correr pelo 
salo, chamando ateno dele. Nicardo j estava 
lutando com o outro Leon e tinha ganhado um ponto 
de vantagem contra o monstro que havia perdido sua 
besta gigante  Nicardo havia feito em pedaos. 

Thalassa pegou outra espada e se defendeu 
contra as duas espadas gigantes do Leon. Ela no 
parecia to temerosa quanto eu, mas podia ver que ela 
estava com um pouco de medo. 

O outro Leon estava lutando contra Nicardo 
desarmado. Nicardo o golpeava nos braos, mas ele 
parecia nem sentir. Estava comeando a acreditar que 
aqueles bichos eram invencveis e que nossas horas 
estavam contadas. 

Thalassa pulou novamente no Leon e o 
desequilibrou. Por alguns instantes Thalassa teve o 
Leon sob seu controle, mas depois ele voltou a reagir. 
Thalassa continuava se impulsionando para trs e o 
Leon tentava no cair, mas foi intil. 

O Leon perdeu totalmente o equilbrio quando 
Thalassa havia sado de cima dele. Ele cambaleou e 


acabou caindo para trs e atravessando uma das 
imensas janelas que rodeava o salo. Thalassa foi atrs. 

O Leon que estava lutando contra Nicardo 
acabou se distraindo com o companheiro e levou um 
golpe na barriga, o que o fez acordar e voltar para a 
luta. 

Eu estava completamente perdida e apavorada. 
No queria que nenhum Leon machucasse Nicardo e  
apesar de no lembrar  eu j fui amiga da Thalassa, 
provavelmente ficaria muito mal se acontecesse algo a 
ela depois que eu recobrasse minha memria  se isso 
acontecer. 

Deixei o escudo tapando meu rosto. Apenas os 
olhos estavam visveis. Eu queria muito ajudar, queria 
muito fazer alguma coisa, mas o que? Olhando a minha 
impotncia, no consegui acreditar que um dia eu lutei. 

Perdi totalmente o que estava acontecendo 
com Thalassa e o outro Leon, mas a luta de Nicardo e o 
Leon restante continuava dentro do salo. E continuava 
com fora total. Por sorte Nicardo estava conseguindo 
seguir bem com a luta. 

Ele havia pego o outro escudo e estava 
conseguindo se defender dos golpes de espada que o 
Leon transferia incansavelmente sobre ele. O Leon no 
parecia desesperado, mas agia feito um louco, 
acertando o cho com fria sempre que errava o alvo. 
Nicardo continuava na defensiva, provavelmente 
estava esperando o melhor momento para atacar. 


Eu continuava com o escudo tapando meu 
rosto e ainda estava apavorada com o que estava 
acontecendo. Estava preocupada com Thalassa, no 
ouvi mais nenhum sinal desde que ele foi atrs do 
outro Leon. O que ser que estava acontecendo? 

O Leon de Nicardo resolveu mudar de ttica. 
Jogou a espada que ficou perfurou a parede, ficando 
agarrada quase pela metade e comeou a atacar 
Nicardo com as mos. Ele agarrou Nicardo por trs, que 
conseguiu escapar e golpear o Leon na barriga. Nicardo 
tentou outro golpe, mas o Leon o chutou e o fez bater 
de costas na parede. Quase morri neste momento. 

Joguei o escudo fora e fui socorrer o Nicardo. 
Eu no podia deixar-lo fazer isso com o meu namorado. 
Mas o que eu poderia fazer para ajudar? Estava to 
apavorada que nem me lembrei que havia inundado 
uma rua inteiro no dia anterior. 

 Voc est bem?  perguntei. 
 Estou, volte e se proteja!  ele gritou se 
ponde de p novamente. 
 Mas... 
 Volte e se proteja Beatriz!  ele gritou 
novamente.  Eu irei ficar bem. 
Nicardo voltou para luta escorregando por 
debaixo das pernas do Leon e o atacando pelas costas. 
O Leon se contorceu e deu um grito que estremeceu o 
cho. Antes de Nicardo retirar a espada, o Leon virou



se para Nicardo e o pegou pelo brao, rodando-o e o 
atirando novamente contra a parede. 

Tentei ir ajudar-lo novamente, ma o Leon foi 
mais rpido e o pego pelas pernas e o atirou no cho. 
Nicardo tentou se levantar, mas com os ps, o Leon o 
jogou de volta ao cho. 

O sangue vermelho vinho escorria das costas 
do Leon. Era a primeira vez que o vi sangrar desde que 
a luta comeou. O Leon tentou retirar a espada das 
costas, mas no conseguia alcanar-la. Nicardo 
aproveitou o momento de distrao e chutou a barriga 
do Leon sem d. 

O Leon caiu de costas e a espada atravessou o 
monstro, que ficou paralisado no cho. Thalassa 
reapareceu nos dando um susto quando abriu a porta 
do salo. Ela viu o Leon cado e arregalou os olhos, ele 
estava se levantando. 

 Nicardo, cuidado!  gritei. 
Antes que Nicardo pudesse fazer qualquer 
coisa, Thalassa deu um salto e golpeou o Leon na 
cabea, decapitando-o. O Leon caiu de cara no cho. 

 Esses monstros so como zumbis, s morrem 
se acertar na cabea.  ela disse. 
 Legal.  Nicardo olhava com um pouco de 
raiva  E por que no avisou antes? 
 Eu tambm s descobri agora!  Thalassa 
arrancou a espada das costas do Leon.  Pegue isso! 
Thalassa jogou a espada para Nicardo, que 
agarrou. Ele olhou a espada suja de sangue e caminhou 


para perto do Leon. Ele comeou a limpar a espada na 
roupa do Leon e depois analisou a espada. 

 Essa no est enferrujada!  s agora ele 
havia percebido isso. 
 Essas foram duas espadas que trousse para 
emergncias como essa!  Thalassa tambm limpava a 
dela.  O resto do castelo est vazio. Esses eram os 
ltimos, provavelmente ficaram para dar uma ltima 
chegada. 
 Realmente foi a ltima!  Nicardo tinha um 
sorriso mrbido no rosto. 
 Ns vamos sair daqui agora certo?  
perguntei. 

 Sim, ns vamos!  Thalassa respondeu  No 
s deste castelo, mas como do reino. Neide j comeou 
a ser um lugar perigoso demais para ns. 
Samos do castelo completamente 
encapuzados. Thalassa havia escondido sobretudos e 
lenos no castelo para uma fuga como essa. Estvamos 
parecendo pretendentes a uma verso de Bollywood 
de Matrix. 

Aparentemente ningum estranhou trs 
criaturas encapuzadas andando pelas ruas de forma 
suspeita e esperava que continuasse assim at 
chegarmos onde quer que devssemos chegar. 

Comeava a sentir Neide como algo mais real. 
No via mais aquele lugar como algo fora do comum ou 
como um sonho. Neide comeava a ser algo real para 


mim, como se sempre estivesse por ali, andando por 
aquelas ruas. Seria a minha memria recobrando coisas 
deste meu passado esquecido? 

Andamos muito, mas finalmente chegamos ao 
nosso destino. Era uma casinha, quase imperceptvel 
de to simples, perto do porto. Thalassa se aproximou 
da porta e fitou o lugar, como se esperasse o momento 
certo para agir. 

Depois de ter certeza de que no havia 
ningum olhando, Thalassa bateu cinco vezes na porta. 
Trs vezes com a mo e duas com o p. Estranhei o ato, 
mas imaginei que esse deveria ser algum tipo de senha 
avisando que era ela quem estava chegando. 

Quem abriu uma pequena fresta da porta foi 
um rapaz de estatura media, com grandes e grossos 
culos, cabelos pretos bem escuros e olhos to pretos 
quanto o cabelo. Talvez pudesse ser bonito sem os 
culos. Era magro e usava uma blusa branca com a gola 
manchada e um tipo de bermuda balo azul que fazia 
com que suas pernas parecessem com uma lona de 
circo. 

 Finalmente vocs chegaram.  o rapaz abriu 
totalmente a porta  Entrem! 
A casa era um pouco maior do que aparentava 
ser do lado de fora. Havia um grande cmodo que 
estaria completamente vazio se no fosse a presena 


de um tapete, uma mesa e seis cadeiras. Havia uma 
porta, a esquerda, ao lado da mesa e outra na direo 
oposta. Uma nica janela estava aberta e dela 
conseguamos ver todo o porto. 

A porta da direita estava aberta. Pude notar 
algumas coisas olhando por ela. Havia outra mesa, 
porm menor e em cima da mesa havia vrios livros e 
jogado no cho tambm. Alm dos livros, haviam vrios 
cadernos, papeis soltos, lpis e rguas espalhados por 
todo o canto. Andei um pouco para perto da porta 
impulsivamente  que intrometida  e vi uma cama, 
tambm cheia de livros e cadernos. 

... ento j chegou a hora?  no havia 
reparado que estavam todos conversando. 

 Desculpe, chegou a hora de que?  perguntei. 
 A hora de partir e encontra com Tales alteza! 
 o rapaz fez uma reverencia. 
 Alteza?  me assustei  Que histria  essa? 
 Acho que no lhe apresentei  Thalassa e 
aproximava do rapaz  Esse  o Cosmo. Nosso gnio 
inventor e meu melhor amigo. Cosmo pegue leve com 
a Beatriz! Ela ainda no se lembra de nada. 
 Espere, mas ele me chamou de alteza!  
entrei no meio dos dois  At onde vocs me contaram 
eu apenas lutei contra monstros e estou destinada a 
salvar Ofir. Eu por acaso me casei com algum prncipe? 

 No.  Nicardo respondeu hspido  Vamos 
mudar de assunto? 

 Voc conseguiu informaes sobre os outros? 
 Thalassa perguntou. 
 No.  Cosmos respondeu sentando em uma 
das cadeiras  Apenas com Tales, mas ainda assim foi 
s uma vez e ele no sabia de nada sobre os outros. 
Disse apenas que iria investigar. 
 Que situao!  Thalassa parecia aflita. 
 Hoje de manh apareceram dois guardas 
aqui!  Cosmo falava tambm aflito. 
 E o que aconteceu?  Thalassa perguntou 
preocupada. 
 Eles revistaram a casa inteira e quase 
descobriram tudo. 
 Mas eles no desconfiaram de nada?  
Thalassa colocava a mo no corao. 
 Aparentemente no.  Cosmo respondeu  
Apareceram, revistaram tudo e constataram que no 
tinham motivos para me prender. Temi que eles 
pudessem me levar apenas pela suspeita. No seria a 
primeira vez que eles fazem isso. 

 Calma Cosmo, ns j estamos prontos para 
partir!  Thalassa o acalmava. 
 Isso  timo.  Cosmo fitava o cho  J 
estava ficando com medo de no voltar a te ver. 
 No precisa temer. Eu estou aqui.  Thalassa 
abraava Como  Tambm odiaria no te ver mais! 
 Mas vocs esto falando de fuga?  Nicardo 
perguntou. 

 Sim.  Thalassa respondeu  No d mais 
para ficar em Neide. Estamos correndo muito perigo 
por aqui. Isso que aconteceu com o Cosmo  a maior 
prova de que Neide no  mais um lugar seguro. Em 
pensar que parte da culpa e...  Thalassa se calou. 
 Mas voc  diferente!  Cosmo consolava 
Thalassa  Agora, mas do que nunca, voc precisa ter 
foras para vencer essa batalha e tomar o que  seu 
por direito. 
No estava entendendo muito bem o que 
estava acontecendo, mas sabia que deveria ser algo 
grave e esperava conseguir me lembrar  se  que um 
dia eu soube de quem a Thalassa estava falando. 

 Est certo.  Thalassa ergueu a cabea  No 
estamos com tempo para isso. Agora  o momento de 
agir e lutar. 
  assim que eu gosto de ver!  Cosmo sorriu. 
 Vocs se conhecem h muito tempo?  
perguntei. 

 Pouco depois que voc voltou para a Terra, 
logo quando comeou a guerra, encontrei esse rapaz 
fugindo de um bando de criaturas errantes que 
passaram para o lado de Bianor.  Thalassa sorria  Eu 
o salvei e desde ento ele me segue para todos os 
lugares. Tornamo-nos grandes amigos e ele tem sido 
til. Cosmo  um excelente inventor. Mas est a oito 
meses trabalhando em um nico projeto. 
 Ser o projeto que nos levar daqui!  
Cosmos sorria misteriosamente. 


 Que projeto  esse?  Nicardo perguntou. 
Antes que ele pudesse responder, bateram na 
porta. Eu, Thalassa e Nicardo ficamos sem saber o que 
fazer. E se fossem os guardas? 

 Rpido, entre nessa porta e sigam para a 
porta a direita. Batam trs vezes na parede e entrem!  
Cosmo abria a porta da esquerda. 
Entramos na cozinha da casa. No era muito 
grande, apenas uma pia e um fogo, mas era maior do 
que poderia aparentar se olhssemos do lado de fora. 
Essa casa era encantada? 

No foi muito difcil achar a porta da direita. 
Tecnicamente era a nica porta, j que a da esquerda 
era to pequena que s passaria parte da minha perna 

 ao menos que ela aumentasse de tamanho depois 
que abrssemos. 
Agora estvamos no dispensa. Havia trs 
grandes prateleiras cheias de latas, sacos e frutas. A 
nossa frente, uma parede lisa. Batemos trs vezes 
como ele mandou e nos afastamos automaticamente. 
A parede comeou a descer e revelar uma passagem. A 
parede voltou ao normal e ficamos no escuro outra vez. 

Ouvimos alguns barulhos de conversa, mas no 
parecia estar acontecendo nada de grave com o 
Cosmo. Minutos depois um silncio tomou conta do 
lugar. Estava ficando enjoada de ficar no escuro, no 
silncio e na expectativa de salvar a minha vida. 


Ouvimos trs batidas quebrando o silncio. 
Estvamos enxergando novamente. 

 Vocs no acenderam as luzes?  Cosmo 
sorriu empurrando um tipo de tijolo que parecia estar 
solto. 
A porta se fechou novamente, mas desta vez 
no ficamos na escurido. A luz revelava um longo 
corredor. A cada 30 centmetros uma nova luz se 
acendia. 

 Foi complicado trazer-lo at aqui.  Cosmo 
parou  Ainda me pergunto como consegui, mas isso 
no vem ao caso. 
Cosmo abriu uma porta no cho e nos 
deparamos com um objeto grande e acinzentado 
boiando no meio de uma imensido azul. 

 Isso  um submarino?  perguntei. 
 Correto!  Cosmo sorriu  Mas no  como os 
outros, esse submarino foi projetado para ser mais 
rpido, mais forte e, com um pouco de magia, ser 
invisvel. 
 Invisvel?  Thalassa parecia surpresa. 
 Depois que voc foi sumiu, fiquei estudando 
as magias que voc me ensinou e consegui adicionar 
isso ao projeto.  Cosmo falava com orgulho.  Agora 
sim, seremos imperceptveis. 
 Isso  maravilhoso!  Thalassa tambm 
parecia orgulhosa. 
 Ele  silencioso, rpido, forte e pode ficar 
invisvel. Realmente  o meu maior projeto!  Cosmo 

descia uma escada improvisada e abria a entrada do 
submarino. 

 Ns iremos atrs de Tales?  Nicardo 
perguntou  Mas onde ele est? 
Thalassa e Cosmo se entreolharam 
preocupados. Thalassa suspirou fundo e quase pensei 
que ela deixaria Nicardo sem resposta, mas respondeu. 

 Tales est em Leander.  seu olhar era triste  
Mas acho que voc no ir gostar do que vai encontrar. 


CAPTULO 4 / UMA QUASE DESASTROSA VIAGEM DE 
SUBMARINO 


O
O
submarino no era como eu imaginava que um 
submarino fosse. Era quase como uma casa 

improvisada. Tinha colches, tinha pia, tinha uma 

mesa e um armrio. Tinha tambm todo o 

equipamento de submarino, como a mesa de controle. 

Realmente esse Cosmo deveria usar algum tipo 
de mgica ilusria, por que o submarino olhando de 
fora tambm parecia bem menor do que olhando de 
dentro. 

 O submarino j estava pronto faz umas duas 
semanas  Cosmo comeou a falar  S estava 
esperando voc chegar ou as coisas ficarem feias 
mesmo. 
Olhei para os dois lados espantada. Olhei 
novamente para ter certeza. Olhei para Cosmo confusa 
e coloquei a mo no peito. 

 Eu?  perguntei incrdula  Voc estava me 
esperando? 
 Mas  claro!  Cosmo respondeu. 
 Como?  perguntei novamente incrdula. 
 Eu realmente fiquei apaixonado por sua 
histria e pelo seu destino. Virei seu f.  Cosmo 
comeou a explicar  Sempre ficava igual uma criana 
quando Thalassa contava as histrias de suas 
aventuras. 

 Mas voc sabia quando eu iria voltar?  
estava ficando assustada. Mais assustada. 

 No exatamente.  ele ficou serio  Eu sabia 
que voc estava para voltar, mas achei que seria 
apenas daqui a uma ou duas semanas. 
 E o que eu acho estranho!  Nicardo entrou 
na conversa.  Algumas vezes eu conseguia falar com a 
Rainha Alina, em meus sonhos. 
 Voc conseguia falar com a Rainha de Ofir?  
Cosmo se espantou  Ela continua desaparecida! 

 Eu sei, ela me contava!  Nicardo fitava o 
horizonte intrigado  Ela sempre me dizia que  hora 
estava chegando e que em breve ela apareceria para 
ns buscar. Mas ento, dias antes de chegarmos aqui, a 
voz dela apareceu em minha cabea e me guiou para 
um local isolado, uma floresta na montanha. Ela 
apareceu para mim e conversou comigo. 
 Claro, a natureza!  Cosmo empolgo-se. 
 O que tem a natureza?  Perguntei. 
 Alina est novamente no auge dos seus 
poderes.  Cosmo comeou a explicar  Mas, por algum 
motivo, ela continua presa. Talvez ela tenha um plano 
melhor. 
 Mas  a natureza?  perguntei novamente. 
 Existem varias dimenses, vrios planetas e 
todas distantes umas das outras.  Cosmo comeou a 
parecer o meu professor de cincias  Mas voc sabe 
qual o nico sistema que est interligado entre todas as 
dimenses? 

 A natureza?  chutei. 
 Exato!  sim, ele estava idntico ao meu 
professor de cincias  A natureza e uma das coisas 
mais poderosas que existem e, obviamente, existe 
muita magia na natureza. Toda est magia est 
interligada. A magia da natureza  a nica coisa que uni 
todas as dimenses. 
 E o que isso tem haver com o fato de Nicardo 
ter visto a Rainha Alina na floresta?  perguntei. 
 Falando nisso... Vocs cortaram meu assunto! 
 Nicardo lembrou. 
 Desculpe, continue falando.  Cosmo ficou 
vermelho. 
 Por instantes achei que estava tendo uma 
viso, mas era ela mesma.  Nicardo voltou a falar  
No pessoalmente, era um tipo de mensagem 
hologrfica, mas era ela. 
 E o que ela disse?  Thalassa perguntou. 
 Ela disse que o pouco de controle que ela 
ainda tinha sobre Ofir desapareceu.  Nicardo se 
sentou  Ela contou que Bianor estava tentando de 
todas as formas trazer Beatriz de volta para Ofir. Ele 
no estava satisfeito em saber que Beatriz estava viva. 
 Espere!  me assustei  Eu acho que ainda 
no digeri 100% essa histria toda que vocs me 
contaram at agora. Quer dizer que esse Bia ai estava 
fazendo de tudo para me ver debaixo de sete palmos? 
  o que parece.  Nicardo respondeu. 

 A Rainha Alina contou que estava usando 
toda a sua magia para vetar os pensamentos dela, 
assim Bianor no poderia descobrir qual eram os 
planos dela contra voc e estava tambm fazendo o 
mximo possvel para vetar os portais que Bianor 
estava abrindo. 
 Como?  Cosmo se assustou  Portais? 
 Como disse, Bianor estava querendo a todo 
custo trazer Beatriz de volta para Ofir.  Nicardo 
comeou a explicar  Parece que ele comeou a abrir 
dezenas de portais por varias dimenses em uma 
tentativa desesperada de trazer a Beatriz de volta. 
 Nossa, ele quer mesmo a sua cabea!  
Cosmo passava uma mensagem extremamente 
reconfortante. 

 Mas com a fora de Bianor aumentando, a 
Rainha Alina acabou perdendo o controle da situao e 
pediu para que protegesse Beatriz at chegar o 
momento certo de ela voltar.  Nicardo me fitava  A 
Rainha disse que tambm estava preocupada com o 
que esses portais podem causar nas outras dimenses. 
Ela no sabia como Bianor estava abrindo-os e temia 
que mais pessoas de outras dimenses pudesse estar 
adentrando a Ofir por esses portais. 
 Isso seria pssimo!  Thalassa estremeceu  
No sabemos o que existem em outras dimenses. Se 
Bianor resolver usar isso a seu favor, conseguir novos 
aliados. No d para saber o que ser de Ofir se seres 
de outras dimenses se juntar a ele. 


 E se ele encontrar seres poderosos, talvez o 
exrcito que o Rei Cleo est fazendo possa no servir 
de nada!  Cosmo parecia no gostar da idia. 
 Por que no contou isso antes?  Thalassa 
tambm no havia gostado da notcia. 
 Foram tantas coisas acontecendo ao mesmo 
tempo. Acabei me perdendo.  Nicardo respondia 
constrangido.  Mas o importante  que se ainda no 
estava na hora de Beatriz voltar, por que ela nos 
trousse agora? Isso que eu no entendo. 
 Algo de muito grave deve ter acontecido.  
Thalassa pensava alto.  Se a Rainha Alina realmente 
perdeu o controle da situao, no d para dizer o que 
nos espera pela frente. 

 Agora s nos resta esperar e descobrir o que 
nos aguarda.  Cosmo encerrou o assunto com um tom 
tenebroso na voz. 
S iramos chegar a Leander de manh, por isso 
resolvi dormir um pouco. Toda essa situao estava me 
desgastando demais. Era como se tivesse passado o dia 
inteiro fazendo os treinamentos de artes marciais que 

o Nicardo tanto insistia que fizssemos todo domingo 
de manh. Tentar encaixar todas as informaes que 
eram jogadas bruscamente para cima de mim tambm 
exigia um pouco de esforo fsico e mental. Meu 
corao sempre parecia explodir a cada nova 
informao e minha cabea parecia estar sendo usada 

como bola de tnis, sendo jogada de um lado para o 
outro a cada nova informao. 

Eu estava em um salo com paredes roxas. 
Olhava no espelho e via o reflexo de uma mulher com 
cabelos loiros e um vestido rosa. Eu j havia visto 
aquele mulher outras vezes, em outros sonhos, mas 
desta vez ela parecia estar realmente ali, atrs do 
espelho. 

 Vejo que chegou bem a Ofir.  ela sorria  
Isso  muito bom! 

 Quem  voc?  perguntei. 
 No est se lembrando de mim?  ela voltou 
a sorri  Acho que me filho tentou te proteger de voc 
mesma! 
 Seu filho?  perguntei. 
 Voc parece mais forte desde a ultima vez 
que a vi!  ela parecia admirada.  O Nicardo cuidou 
bem de voc. Fez exatamente o que deveria ser feito. 
Foi uma sabia deciso. De ambos. 
 Deciso?  estranhei  Do que est falando? 
Quem  voc? 
 Beatriz, no tema!  seu sorriso era doce  Eu 
estou do seu lado, mesmo que voc no se lembre 
ainda. 
 Mas ser que poderia me dizer ao menos seu 
nome?  perguntei. 
 Meu primeiro nome  Alina.  seus olhos 
brilhavam feito pedras preciosas  J fui conhecida 

como Rainha de Ofir, a capital. Hoje estou sendo dada 
como morta pela maior parte deste mundo. 

 Ento voc  a Rainha Alina?  estava 
espantada e constrangida  Me perdoe, eu... Eu no 
sabia! 
 Voc no tem do que ser perdoada. No fez 
nada.  sua mo tentou tocar meu rosto, mas foi 
impedida pelo vidro do espelho. 
 Eu no sei o que dizer.  acabei fazendo uma 
reverencia.  Eu soube que esse homem que te 
aprisionou estava atrs de mim. 
 Ele no te perdoa por ter escapado viva.  ela 
parecia triste  Ele ainda no sabe que voc est aqui. 
Tente esconder-se o mximo que puder, pelo menos 
at que recobre sua memria. 
 Mas como eu fao para recobrar minhas 
memrias?  perguntei e, instintivamente, tentei 
alcanar-la, mas bati de cara no espelho. 
 No ser batendo a cabea!  ela deu uma 
risada angelical.  Encontre meu filho. Encontre Alexis. 
Ele saber como trazer suas memrias de volta. 
 Mas como eu encontrarei Alexis?  perguntei. 
 Eu no posso mais falar, ele est chegando!  
A Rainha Alina se assustou. 

 Ele quem?  perguntei. 
 Bianor!  ela estava nervosa  Ele pode nos 
ouvir. 
 Como?  comeava a ficar assustada. 

 Procure por Alexis.  a imagem da rainha 
comeou a desaparecer. 
 Mas onde eu o encontro?  perguntei 
desesperada. 
 No!  ela deu um grito surdo  Ele nos 
ouviu! 
Acordei gritando. Senti Nicardo me segurar, 
mas no conseguia ver-lo. No, eu o via. Conseguia verlo, 
mas no conseguia alcanar-lo. Eu estava confusa. 
Aquele nome. Alexis. Por que ele mexeu tanto comigo? 

Eu comeava a ficar desesperada e tentava a 
todo custo me mexer, mas parecia que algo estava me 
prendendo. No estava conseguindo respirar. Por que 
aquele nome? Por qu? O que Alexis significa para 
mim? Por que eu estava tendo aquela reao. 

Sentia como se precisasse urgentemente verlo. 
Como se minha vida dependesse de encontrar-lo. E 
no era s por conta de minha memria perdida, mas o 
simples fato de ver-lo parecia estar mexendo comigo 
de uma forma assustadora. 

No conseguia me acalmar. Temia estar ainda 
gritando. J no sabia o que estava fazendo, havia 
perdido completamente o controle. Era como se meu 
corao soubesse exatamente quem era esse Alexis, 
mas minha cabea tivesse entrado em curto tamanho o 
desespero que se encontra na tentativa de se lembrar 
quem era Alexis. 


Ouvi vozes desesperadas. Deveriam ser 
Thalassa, Cosmo e Nicardo. Abri os olhos. 

 Mas o que est acontecendo?  Thalassa 
gritava. Fechei os olhos. 
 Faa alguma coisa!  Cosmo tambm gritava. 
Abri os olhos. 
 Eu estou tentando!  Thalassa estava nervosa 
 Nicardo faa alguma coisa!  fechei novamente os 
olhos. 
 Beatriz  era a voz de Nicardo  se acalme! 
 As rachaduras esto comeando a se fechar, 
mas a gua continua entrando!  era a voz de Thalassa. 
Eu continuava piscando. 
 Essa gua no pode ficar aqui dentro!  
Cosmo estava preocupado  Vai acabar estragando os 
equipamentos! 

 Beatriz  era Nicardo outra vez  se acalme! 
 Est aparecendo mais buracos!  Thalassa 
estava desesperada  Eu no irei dar conta! 
 Nicardo faa-a parar!  era a voz de Cosmo 
gritando. 
 Eu estou tentando, mas no sei o que fazer!  
Nicardo estava desesperado. 

 O que ser que aconteceu para ela ficar desse 
jeito?  Cosmo estava se aproximando. Eu j havia 
parado de piscar, mas minha viso continuava escura. 
 Eu no sei!  Nicardo estava desesperado  
Eu no consigo mais ler a mente dela! 

 Consegui parar os outros buracos!  Thalassa 
parecia cansada  Mas se novos buracos aparecerem 
eu no conseguirei dar conta! 
 E essa gua?  Cosmo estava nervoso  Vai 
ficar aqui? 
 Uma coisa de cada vez!  Thalassa se irritou  
Quer que eu mantenha os buracos fechados ou prefere 
que mais gua entre no submarino? 

 Tudo bem  Cosmo parecia chateado  j 
entendi! 
Eu deveria estar causando muitos problemas. 
Minha cabea estava muito confusa e no sabia direito 

o que pensar, mas eles pareciam desesperados por 
minha causa. Era de se esperar que mais cedo ou mais 
tarde a minha m sorte viesse dar um bom dia. 
Tentei relaxar. Respirei fundo e tentei manter 
minha cabea longe de tudo e me concentrar apenas 
em parar o que quer que eu estivesse fazendo. No 
queria ser a culpada por um desastre. 

 Veja!  Cosmo pareceu mais animado  Os 
buracos esto se fechando! 
 Acho que voc j pode desfazer as barreiras! 
 era a voz de Nicardo. 
 J no estava aguentando a presso!  
Thalassa parecia realmente cansada. 
 No faa mais isso!  uma voz diferente  
Tente se controlar. Eu quero te reencontrar viva!  
sentia que conhecia essa voz, mas no sabia de onde. 
Foi ento que... 


 Alexis!  gritei. 
POF! Um novo e pequeno buraco abriu no 
submarino que gradualmente voltou a se fechar 
conforme eu ia perdendo os sentidos. 

A ltima coisa que me lembro antes de perder 
os sentidos e de ouvir Cosmo dizer estamos 
chegando!. No sei se fiquei muito tempo 
desacordada, mas sei que foi tempo o suficiente para 
chegarmos a Leander. 

Quando acordei, estava no colo de Nicardo. Ele 
mexia em meus cabelos e passava a mo em meu 
rosto. Provavelmente no saiu de perto de mim um 
nico momento. Eram esses pequenos detalhes que eu 
amava nele. 

 Est melhor?  ele perguntou. 
 Estou!  respondi  O que aconteceu? 
 No sabemos direito.  ele sorriu  Voc 
estava dormindo e de repente comeou a ficar nervosa. 
Voc estava tendo um pesadelo? 
 Eu no sei, no consigo me lembrar! 
Tentei me levantar, mas estava um pouco 
tonta. Nicardo me segurou e me colocou deitada no 
colo dele outra vez. Fechei rapidamente os olhos, 
respirei fundo e tentei me levantar novamente. Desta 
vez consegui me manter de p. 

 Ainda falta muito para chegarmos a Leander? 
 perguntei. 
 No!  Cosmo sorria  Acabamos de chegar. 

 Mas no ser arriscado sairmos assim do 
submarino?  ainda estava um pouco tonta. 
 O submarino est invisvel.  Cosmo 
respondeu  E estamos parando m uma rea isolada. 
Longe da viso da maioria das pessoas. Talvez pelos 
cus pudessem nos ver, mas acho difcil. Leander virou 
uma cidade fantasma. 
 Cidade fantasma?  Nicardo se assustou. 
 Lembra que eu te disse que no iria gostar de 
como iria encontrar Leander?  Thalassa ficou fitando 
Nicardo.  Leander foi o primeiro reino a ser 
completamente destrudo. No existe quase nada por 
l. Os leandineses se dissiparam pelos outros reinos em 
busca de abrigo, enquanto outros se juntaram a Bianor. 
Os poucos que continuam vivendo nas runas de 
Leander tm uma vida miservel. 
Nicardo engoliu a seco a informao. Ele 
fechou os olhos e respirou fundo. Parecia estar 
prendendo o choro. Era ruim ver a pessoa que a gente 
ama nesse estado. 

Cosmo abriu a porta do submarino. Estvamos 
em frente a um grande deserto de areia e destroos do 
que um dia deveria ter sido uma casa bem grande. 

O sol estava bem forte e no demorou nem um 
pouco para estarmos todos cansados, com sede e 
suando muito. s vezes parvamos em baixo de alguma 
runa para se proteger do sol e descansar, mas a sede 


continuava firme e forte. Ningum havia lembrado de 
trazer gua. 

 Thalassa?  Cosmo quase gritou  Voc  a 
princesa das guas. Faa alguma coisa! 
 Eu no tenho energia o suficiente.  ela 
estava mais cansada que todos ns  Se eu perder mais 
gua em meu corpo vou acabar morrendo. 
 Vamos todos acabar morrendo se 
continuarmos a andar sem direo!  Cosmo estava 
irritado. 
 No tem como achar o Tales nisto aqui!  
Thalassa reclamava. 

Estvamos sentados debaixo de uma grande 
telha que estava apoiada em uma grande rvore. 
Conseguamos ver boa parte do local de onde 
estvamos. Mas no era uma viso muito agradvel. 
Era algo nada admirvel. 

Um pouco a direita havia um grande prdio que 
a cada segundo perdia uma pequena parte dele. Ao 
lado uma casa destruda pela metade. O telhado havia 
sido levado todo embora, mas a parte direita da casa 
parecia intacta. A esquerda havia outra grande casa, 
com o telhado aberto e as portas e janelas 
estilhaadas. O pouco vento que batia fazia pequenos 
cacos de vidro carem. 

Talvez em outras pocas isto aqui pudesse ser 
bem bonito de se olhar, mas hoje no era um bom 
ponto turstico. A nica construo que se mantinha de 


p era o que parecia ser o castelo. No estava intacto, 
mas era o que menos havia sofrido com o que quer que 
tenha deixado este lugar assim. 

Continuamos andando atrs do Tales. No ter a 
mnima noo de onde ele pudesse estar no estava 
ajudando muito, mas estvamos tentando da melhor 
forma que estvamos conseguindo. 

Entramos em uma zona com varias casas 
abandonadas. As casas no estavam destrudas, apenas 
velhas demais. Por varias vezes sentia vultos passando 
por trs de mim e quase podia sentir olhares estranhos 
em nossa direo. Aquele local estava me dando medo. 

Quanto mais andvamos, mas as casa se 
juntavam at que formou um pequeno corredor onde 
s era possvel passar um por um. 

As casas tinha placas quase caindo e portas e 
janelas remendadas com madeira. Algumas tinham 
uma sacada, mas no parecia muito confivel. Havia 
buracos em algumas paredes, mas aparentemente os 
mesmos foram tapados pelo lado de dentro. 

O silncio era absoluto. Apenas os nossos 
passos podiam ser ouvidos. O clima naquele lugar 
estava extremamente assustador e perigoso. Se 
precisssemos lutar ou fugir, no teramos espao para 
isso. 

Arrisquei olhar entre as gretas de algumas 
casas. No havia absolutamente nada. Em algumas via 
vultos passarem rapidamente, mas no conseguia 


identificar o que eram. Mas por dentro as casas 
pareciam habitadas. Seria possvel? 

O caminho comeou a se alargar novamente. 
As casas comearam a ficar para trs e novamente 
estvamos indo em direo a um campo de runas. 
Temia estarmos andando em crculos. 

Ouvi um barulho estranho. Algo tipo Psiu vindo 
de algum lugar. Andamos um pouco mais e novamente 
ouvi o Psiu vindo de trs de mim. Desta vez os outros 
pareceram ouvir tambm. 

 O que foi isso?  Thalassa parou.  Vocs 
ouviram? 
 No tenho certeza, mas acho que ouvi um 
psiu.  disse. 
Ignoramos e continuamos andando, mas logo 
paramos outra vez. Uma pedra havia sido atirada na 
gente. 

 Tudo bem, o que est acontecendo aqui?  
Thalassa procurava quem havia atirado a pedra.  Acho 
melhor seguirmos. 

Voltamos a andar, mas o atirador atacou 
novamente e o alvo fui eu. Com a ajuda da minha 
grande sorte, acabei tropeando na pedra e caindo de 
cara no cho de areia quente. 

 Quem fez isso, seja homem ou mulher e 
aparea!  Cosmo gritou. 
 Ei?  uma voz vinha distante  Aqui! 

 Onde?  Nicardo perguntou. 
 Aqui! 
Seguimos a voz e nos deparamos com um 
rapaz, debaixo dos destroos do que deveria ter sido 
uma lanchonete  o que explicaria a placa com um tipo 
esquisito de sanduche. 

O jovem tinha longos cabelos ruivos, amarados 
com uma fita lils e com uma cara de quem no gosta 
nenhum pouco da palavra trabalho. 

Thalassa, Cosmo e Nicardo olharam surpresos. 
Eles pareciam saber exatamente quem era aquele 
rapaz. Uma expresso de alivio tomou conta de todos, 
at que finalmente entendi quem era o rapaz. 

 Tales!  Nicardo gritou. 
 Quanto tempo no? 

R 


CAPTULO 5 / UMA MOA DE OUTRO PLANETA E UMA 
LEMBRANA ENCRENQUEIRA 


eencontrar Tales  para os outros  foi uma grande 
alegria. Estavam todos eufricos e cheios de coisas 
para contar. Para mim ele era um estranho, mas sabia 
que ele deveria conhecer de mim mais do que eu julgo 
que ele saiba. 

 Voc no mudou nada!  Tales sorriu  
Parece a mesma Beatriz de 1 ano atrs. 

 Obrigada. Eu acho  respondi. 
 Eu ainda no tinha visto o que havia 
acontecido aqui.  Cosmo olhava em volta. 
 Triste.  Tales fitava o cho  Eu estava aqui 
no dia da primeira invaso. Quer dizer, a primeira que 
deixou Leander neste estado. 
 Como assim?  perguntei. 
 Houveram varias invases, mas nenhuma que 
destrusse o reino inteiro.  Tales respondeu. 
 Sim, quanto a isso eu entendi.  olhava 
intrigada para Tales  Mas como assim a primeira vez 
que deixou Leander neste estado? Houve outras 
invases depois que destruram tudo? 
 Muitas outras!  Tales respondia com tristeza 
 A primeira vez, um exercito de homens e Leons 
atacaram o reino e fizeram isso como um alerta para os 
outros reinos que se opusessem aos planos de Bianor. 
Mas os sobreviventes, que na poca havia sido um 
nmero considervel, no deixaram se abater to fcil 

e comearam a reconstruir o reino, mas antes que eles 
pudessem terminar qualquer coisa, Bianor mandava 
destruir. Foi assim durante quase o ano inteiro. 

 Mas as pessoas ainda esto reconstruindo o 
reino?  perguntei assustada. 
 Agora eles desistiram.  Tales continuava 
triste  Foi um ano muito longo e muito doloroso. As 
pessoas cansaram de tentar reconstruir um reino que 
pouco tempo depois seria reconstrudo. Se no 
tivessem insistido tanto, o reino estaria em... Um 
estado melhor, digamos assim. 
 E onde esto os sobreviventes?  Nicardo 
parecia mais triste do que antes. 
 Os poucos que sobreviveram ficam 
escondidos.  Tales olhava para o corredor de casas 
que passamos  Fizemos um local especial para abrigar 
todos eles. 
 Mas como esto fazendo para se alimentar?  
perguntei preocupada. 

 Recebemos, clandestinamente, varias 
doaes.  Tales respondeu  Bianor sabe que isso 
acontece, mas faz vista grossa. Se ns no o 
incomodarmos, claro. 
 Ento os leandineses esto preferindo viver 
uma vida miservel a lutar pelo que  deles de direito? 
 Nicardo agora parecia indignado. 
 Como disse, chegou uma hora que todos 
cansaram.  Tales voltou a fitar o cho  Houve muitas 
batalhas. Todas com muitas mortes. Estvamos todos 

muito cansados de ver aqueles que amamos indo 
embora. Estvamos cansados de comear a trabalhar 
duro em algo e depois ver isso ser completamente 
destrudo. Estvamos todos cansados. Muito, muito 
cansados. 

 Desde que vocs se foram isso aqui vem se 
tornando uma tortura!  Thalassa olhava para Nicardo 
com pena.  Eu entendo a deciso dos leandineses. 
Realmente, estamos todos cansados. 
 Mas agora eles voltaram!  Cosmo gritou em 
uma sbita tentativa de animar a todos  Beatriz, a 
lenda, ela est aqui. Tudo vai voltar a ser como antes. 
Todos olharam para mim e  aparentemente  
se sentiram mais esperanosos. Eu no contaria muito 
com isso, no sei se daria conta de toda essa 
responsabilidade. Tentei no transparecer o que estava 
pensando. Acho que havia conseguido. 

 Voc est vivendo aqui?  perguntei tentando 
quebrar o silncio. 
 Na verdade, estou me escondendo.  ele 
acenou com a cabea para que o seguisse. 
 Escondendo?  Nicardo estranhou. 
 Muitas pessoas fazem isso.  Tales seguia em 
frente  Eles fogem dos outros reinos e vem se refugiar 
aqui. No sei se Bianor tambm faz vista grossa quanto 
a isso, mas acredito que no. Muitas pessoas juradas 
de morte esto aqui, como eu. 
 Voc est jurado de morte?  fiquei 
assustada. 

 Sim, todos ns!  ele deixou uma mensagem 
reconfortante. 
 Eu tambm?  Cosmo perguntou. 
 J descobriram que voc est acobertando a 
Thalassa?  Tales olhou para trs. 
 Acho que no.  Cosmo respondeu confuso. 
 Ento est tudo certo.  Tales sorriu  Por 
enquanto voc est a salvo. 
 Isso no  algo do qual eu me orgulho, mas 
agora somos criminosos procurados.  Thalassa estava 
bem atrs de Tales  Acho que se Bianor soubesse que 
estamos aqui j teria aparecido. Ou mandado Leons 
nos buscar. 
 Concordo.  Tales continuava seguindo em 
frente. 
A paisagem continuava a mesma. Total 
destruio, deserto e sol quente para tudo o que  
lado. O tempo que passamos descansando no foi o 
suficiente para disfarar o quanto estvamos com sede. 
No demorou muito para estarmos com as bocas secas 
novamente. 

Thalassa era a que mais sofria. Ela parecia 
exausta e j nem mais tentava disfarar. Cosmo 
tambm no parecia muito legal. Estava amarelo de 
suor. Eu deveria estar bem parecida com ele. Talvez 
pior. Os nicos que estavam bem eram Nicardo e Tales. 


 Vamos demorar a chegar onde quer que voc 
queira que cheguemos?  Cosmo perguntava quase 
tombando. 
 No, no!  Tales respondeu  Alis, j 
chegamos. 
Estvamos em frente a um grande galpo. No 
estava to ruim quanto o restante das construes que 
vimos, mas ainda era parte da paisagem de destruio. 

O galpo era rodeado por cercas de arames 
farpados, o que  vendo a luta que Nicardo e Thalassa 
tiveram em Neide  deveria ser apenas um enfeite e 
no um tipo de proteo. O galpo era de um marrom 
desbotado e era tapado por telhas de ao, o que dava 
um contraste um tanto estranho para o local. O sol 
refletia no telhado metlico e parecia ser enviado de 
volta para a atmosfera. Tales abriu uma longa porta de 
madeira. Entramos no galpo. 

Dentro do galpo havia varias pessoas e 
criaturas estranhas. Havia pessoas com orelhas e rabos 
vermelhos, fazendo lembrar um gato. Outras tinham a 
mesma aparncia aqutica de Thalassa. Uma grande 
parte das pessoas ali presente tinha a aparncia 
rochosa de Nicardo, o que presumi que deviam ser os 
leandineses sobreviventes. 

 Aqui  onde os sobreviventes se abrigam.  
Tales mostrava como se fosse um grande reino 
maravilhoso.  Construmos isso faz dois meses. 


 Mas e aquele corredor de casas?  perguntei, 
mas fui ignorada. 
 Temos gua bem aqui!  Tales abriu uma 
grande caixa branca, com vrios jarros dgua dentro.  
No posso dizer para pegarem o quanto quiserem, mas 
podem beber o suficiente. gua  muito difcil de se 
encontrar. 
O grande galpo servia como uma hospedaria 
improvisada. Havia algumas paredes visivelmente feitas 
apenas para dividir o espao de cada famlia ou grupo 
que estava ali. Havia cortinas tapando as entradas e 
pessoas andando por toda a parte. 

Apesar de muitas pessoas, o local no parecia 
apertado. Ele era grande o suficiente para todos que 
estavam ali. Mas de qualquer forma era triste imaginar 
que todas aquelas pessoas perderam as suas casas e 
que, se tentassem reconstruir-las, servos de Bianor 
acabariam destruindo tudo outra vez. 

 Tales, que bom que voc voltou!  uma moa 
de cabelos loiros corria e abraava Tales.  A Gaia 
estava muito preocupada. 
 Gaia?  Nicardo perguntou. 
  uma moa, vinda de outro planeta, que 
salvei.  Tales respondeu seguindo para um dos 
quartos  direita. 
 Outro planeta?  Nicardo perguntou. 
 Desde que vocs saram, Bianor vem abrindo 
vrios portais.  Tales comeou a explicar. 

 Sim, isso j sabemos!  Nicardo o 
interrompeu. 
 Pois bem, ela acabou caindo em um desses 
portais e acabou sendo atacada por Leons.  Tales 
parecia estar lembrando-se da cena  Ela estava muito 
assustada, provavelmente no conseguiu se defender 
por estar confusa demais. Vendo a situao, imaginei 
na mesma hora que ela deveria ser outra que caiu em 
um dos portais e fui ajudar-la. 
Tales deu trs batidas na parede e a cortina se 
abriu. Quem estava atrs dela era uma moa alta, com 
os cabelos em tranas rastafri negros. Havia trs 
bolinhas pretas envolta de cada olho cinza. Seus lbios 
eram grandes, mas delicados e ela usava vrios 
acessrios que pareciam de origem indgena. Sua pele 
era branca, mas estava pintada com listras pretas pelos 
braos e pernas. As suas bochechas tambm tinham 
pequenas listras pretas, que comeavam no queixo e 
terminavam perto da boca. Ela usava um vestido azul 
que parecia com vestido da poca dos homens das 
cavernas e era amarrado na cintura por uma corda 
marrom claro. Andava descalo e tinha um arco e 
flecha amarrado nas costas. 

 Pessoas, essa  a Gaia!  Tales sorriu  Gaia 
estes so Nicardo, Beatriz, Thalassa e Cosmo, meus 
amigos! 
 Muito prazer!  estendi a mo, mas fiquei no 
vcuo. 

Gaia olhou para cada um de ns de cima a 
baixo. Ela se aproximou de ns quase rastejando e se 
esquivando, mexeu em nossas roupas e nos cheiro e 
depois voltou para onde ela estava. Que garota 
esquisita. 

 No se preocupem, Gaia  assim mesmo.  
Tales sorriu constrangido  Ela desconfia de todo 
mundo. No espere muita conversa dela, ela s vai 
falar com voc depois que achar que pode confiar em 
vocs. 

 Mas ela fala Ofirniano tambm?  Nicardo 
perguntou. 
 No, eu ensinei a ela.  Tales respondeu  Ela 
ainda no sabe falar tudo, mas aprendeu muita coisa. 
Samos de perto do quarto e pude notar Gaia 
nos observando por detrs da cortina. Ela era 
realmente uma pessoa muito estranha. Ou no. Pus-me 
no lugar dela. Chegar a um mundo onde voc no 
conhece absolutamente nada e nem ningum e o 
primeiro contato que tem e de monstros tentando te 
matar. At que era compreensvel o medo dela de se 
aproximar de quem ainda no confia. 

 Ento voc veio para Leander para ajudarlos? 
 perguntei. 
 Na verdade, como disse, eu j estava aqui no 
dia da primeira invaso.  Tales respondeu indo para 
outro quarto.  Entrem!  ele sorriu   aqui que eu 
fico! 

 Mas Tales, o que te fez vir para Leander?  
estava curiosa  No era mais seguro onde voc 
estava? 

 Na verdade era. Na poca era.  Tales abriu 
uma gaveta e pegou uns papis  Lembra dessa letra? 
Peguei os papis, cheios de smbolos estranhos 
que pareciam os que eu escrevia de vez em quando e o 
devolvi. 

 No!  respondi  Acho que no me lembro. 
 Era a letra do Alexis.  esse nome outra vez  
Essas eram as anotaes que o Alexis fez antes de... 
Bem, antes de desaparecer. 

 O Alexis est desaparecido?  Thalassa 
perguntou. 
 A ltima vez que soube do Alexis foi no dia 
em que perdemos contato.  Tales colocou os papis 
encima da mesa  Quando voc voltou para Neide, 
Alexis havia desaparecido. A nica coisa que sobrou 
dele foi essas anotaes, guardadas em uma gaveta no 
quarto onde ele se escondia com o Neandro e a Linfa. 
 Me deixe ver o que est escrito?  Thalassa 
pegou as anotaes e se sentou em uma cadeira que 
estava ao lado da mesa. 
Thalassa comeou a analisar as anotaes e 
parecia no muito surpresa com o que estava escrito 
ali. 

 Realmente j era de se esperar!  Thalassa 
colocou as anotaes de volta na mesa  Ele estava  
procura da me. 

 A Rainha?  perguntei um pouco alto demais. 
 Sim, a rainha Alina!  Tales voltou a pegar as 
anotaes.  Ele tinha varias pistas sobre o paradeiro 
da Rainha e, com certeza, est rondando Ofir atrs 
dela. Eu vim para Leander em busca dele. Neandro 
estava passando por muitas dificuldades na Capital e 
precisava da ajuda do irmo para organizar as tropas e 
ter se juntar aos homens fortes do reino. 
 Mas  agora?  Nicardo perguntou  Como 
esto as pessoas na Capital? 
 Acredito que o reino ainda no foi invadido. 
Essas notcias sempre chegam rpido.  Tales guardava 
os papis  Mas acredito que estejam passando por 
muitas dificuldades. Provavelmente maiores do que da 
ltima vez em que estive por l. 
 Ento eles devem estar precisando de ns!  
Nicardo disse preocupado. 

 Estava esperando o retorno de vocs dois 
para poder fazer isso.  Tales sorriu  Mas algum 
precisa procurar pelo Alexis. Isso ... Se ele no j tiver 
morrido. 
 No!  gritei instintivamente  Ele no 
morreu! 
 Beatriz?  Nicardo me olhou estranho. 
 Eu no lembro exatamente quem  Alexis, 
mas eu sei que ele est vivo!  tentei me acalmar da 
sbita crise de pnico  E eu preciso encontrar-lo. 
 O que?  agora Nicardo parecia nervoso.  
Desculpe, eu no entendi. 


 Eu sinto que ele  a chave para que eu 
recobre a minha memria.  respondi.  Eu preciso 
encontrar-lo! 
 No!  Nicardo gritou  Eu no vou deixar 
voc ir atrs dele! 
 Nicardo...  segurei em seus ombros  Acho 
que j est na hora de voc deixar eu me lembrar dele. 
Quando estvamos na Terra voc sempre dava um jeito 
de me fazer no pensar nesta pessoa que esqueci, mas 
agora  intil. Eu no posso ajudar-los se no lembrar. 
E eu no posso me lembrar se no achar-lo. O Alexis 
ter que voltar a fazer parte da minha vida, para o bem 
de todos. 
 No Beatriz!  Nicardo continuava nervoso  
Isso eu no aceito! 
 Mas Nicardo...  Thalassa tentou falar alguma 
coisa. 
 No!  ele fechou as mos em punho  Eu 
no deixarei a Beatriz lembrar dele. Voc pode sim 
ajudar Ofir sem ter que se lembrar do Alexis. 
 Nicardo, pare com isso!  gritei.  No seja 
to egosta! 
 Eu no sou eu quem est sendo egosta!  ele 
rebateu.  Deixe de ser infantil seu prncipe metido e 
arrogante! 
 O que voc disse?  Nicardo parecia 
assustado. 
 Metido e arrogante!  repeti. 

 No, no.  ele baixou os ombros  Antes 
disso. Voc me chamou de prncipe? 
 Eu te chamei de prncipe?  me assustei. 
 Nunca mais fale isso outra vez!  Nicardo 
estava serio  Voc no vai se lembrar dele! 
Nicardo saiu furioso de dentro do quarto de 
Tales. Um clima estranho e desconfortvel ficou 
pairando no ar, junto com um silncio igualmente 
estranho e desconfortvel que foi quebrado por mim. 

 Eu realmente disse algo que no devia? 
 Acho que sim!  Tales colocou a mo no meu 
ombro  E digo mais, acho que de agora em diante 
voc s ir falar coisas que no deve. 
Corri atrs de Nicardo. Seja l o que tenha 
magoado, eu queria reparar o quanto antes possvel. 
Nicardo era a nica pessoa com quem eu me sentia 
realmente  vontade naquele lugar e no queria 
perder-lo. 

Ele estava do lado de fora do galpo, sentado 
em uma das varias runas que estavam a nossa volta. 
Cheguei devagar e o abracei pelas costas. Ele se 
esquivou e eu quase cai no cho. Teria sido uma queda 
feia. 

 Nicardo, no faz assim!  fui atrs dele  
Vamos conversar. 

 Agora no!  ele estava serio. 

 Seja l o que eu tenha dito, vamos esquecer. 
 tentei abraar-lo novamente, mas novamente ele se 
esquivou e novamente eu quase cai. 
 Agora no!  ele continuava serio. 
 Vamos tentar nos entender, voltar como 
ramos antes. 
 Esse  exatamente o problema!  ele se virou 
para mim  Ns nunca iremos voltar a ser como ramos 
antes. O que voc disse  a mais pura verdade, agora 
que voc est aqui  intil tentar no te deixar lembrar 
dele. 
 Mas por que eu no posso me lembrar do 
Alexis?  perguntei. 
 Por que quando voc se lembrar dele, eu irei 
te perder para sempre.  ele segurou em minhas mos 
 Eu no quero te perder. Eu no posso te perder. 
 Calma! Voc no vai me perder.  tentei 
animar-lo. 
 Vou sim!  ele tentou esconder, mas estava 
chorando. 
 Como sabe?  passei a mo na cabea dele. 
 Por que  ao Alexis que o seu corao 
pertence!  ele olhou diretamente para mim   o 
Alexis que voc ama de verdade! 
 No!  o afastei de mim instintivamente  Eu 
no o amo. Eu amo voc! 
 No Beatriz.  ele continuava chorando  
Voc ama o Alexis. 

 Ento por que no sinto nada por ele.  sorri 
 Por que o que eu conheo de amor  exatamente o 
que eu estou sentindo por voc? 
 Agora voc diz isso.  ele apertou minha mo 
 Mas  depois que voc se lembrar? Para onde ir 
todo esse amor? 
 Ele continuar aqui!  encostei a mo dele 
em meu corao  Meu amor por voc no vai a lugar 
nenhum! 
 Voc promete?  ele se ajoelhou  Prometa 
que mesmo que voc se lembre, voc ir continuar 
comigo. Que esse amor que voc sente por mim agora 
continuar sendo o mesmo depois que voc lembrar 
dele. 
 Claro que continuar!  o abracei  Eu 
prometo que ele continuar! Agora se levante e vamos 
voltar para dentro do galpo. O pessoal est 
preocupado. 
Nicardo se levantou e voltamos de mos dadas. 
Estava me sentindo horrvel. Algo dentro de mim dizia 
que eu no conseguiria cumprir a promessa que havia 
feito para Nicardo e ele parecia pensar o mesmo. Mas 
por qu? Ser que eu realmente amei esse Alexis? Se o 
meu amor por ele  maior do que o meu amor pelo 
Nicardo, por que eu esqueci? Isso no fazia sentido. 

Continuei tentando parecer que estava 
confiante na promessa que fiz. Mesmo que Nicardo 
tambm soubesse que eu no conseguiria cumprir a 


promessa, no queria ver-lo novamente como eu o vi. 
Era triste demais ver-lo daquele jeito. 

Tales, Thalassa e Cosmo estavam a nossa 
espera, na porta do galpo. Esperava que eles no 
tivessem assistido a cena e que, se tivessem assistido, 
que pelo menos fingissem que no haviam visto nada. 

 Como ser?  Tales perguntou. 
 Como ser o que?  Nicardo rebateu. 
 Vocs iro ficar aqui essa noite ou querem 
seguir para Capital ainda hoje? O coleguinha de vocs 
disse que tem um submarino muito potente, gostaria 
de viajar nele. 
 Acho mais prudente ns ficarmos essa noite e 
descansarmos!  Thalassa fitou a todos conferindo se 
algum iria se opor. 
 Sair agora realmente no seria uma boa idia. 
 Nicardo ainda segurava minha mo  Estamos todos 
muito esgotados de tanto andar no sol sem destino. 
 Ento vamos entrar logo!  Tales olhou ao 
redor  Daqui a pouco ir escurecer e no  muito bom 
ficar andando por ai  noite. 
 Por qu?  perguntei. 
 Vamos entrar?  novamente fui ignorada. 
Tales ficou alguns segundos fitando o grande 
corredor de casas e eu tive certeza absoluta, ali tinha 
alguma coisa. E pela aflio de Tales, no deveria ser 
uma coisa muito boa. 


A 


CAPTULO 6 / GRITOS, GEMIDOS E ESTRANHOS 
CONHECIDOS 


noite foi inexplicavelmente assustadora. Minto, dava 
sim para explicar o motiva de ela ser assustadora. 

Um clima sombrio havia sido criado enquanto 
gritos de horror e gemidos de dor eram 
incansavelmente emitidos do lado de fora do galpo. 

O galpo era todo fechado e no podamos ver 
absolutamente nada do que acontecia l fora. Os 
demais moradores pareciam j estar acostumados, mas 
eu, Nicardo, Thalassa e Cosmo estvamos um pouco 
confusos. 

 O que  isso?  perguntei para Tales. 
 Temos que falar disso?  ele rebateu. 
 Seria bom!  respondi. 
 Ser mesmo?  ele continuava se esquivando. 
 Tem haver com aquelas casas no tem?  fiz 
uma nova pergunta  Tem haver com aquele corredor 
de casas. 
 Por que est querendo entrar neste assunto 
agora?  ele parecia nervoso. 
 Talvez por que tem varias pessoas gritam e 
gemendo desesperadamente do lado de fora do 
galpo.  coloquei as mos na cintura. 
 Que gritos?  ele mentia muito mal. 
 No me faa de boba!  quase gritei  J no 
 de agora que voc est se esquivando das minhas 

perguntas. Pelo menos das minhas perguntas sobre 
aquele maldito corredor de casas. 

 Disse muito bem!  Tales ficou serio  
Maldito! 
 O que h naquele lugar?  perguntei, mas fui 
ignorada. 
Aproximei-me de Nicardo, Cosmo e Thalassa. 
Eles estavam to confusos e amedrontados quanto eu. 
Os gritos na cessavam e estavam comeando a bater 
nas paredes do galpo. Golpes furiosos, como os gritos. 

 Tem idia do que est acontecendo?  
Nicardo perguntou. 

 Achei que um de vocs teriam a resposta.  
respondi decepcionada. 

 O Tales no te disse nada?  Thalassa quem 
perguntava agora. 
 No!  respondi  Ele s enrolava e enrolava, 
mas nunca dizia nada. 
 E voc pensou em fazer alguma coisa?  
Nicardo perguntou. 
 Voc est pensando em alguma coisa?  
rebati. 
 No exatamente.  Nicardo coava a cabea  
Estava pensando em algo, mas no sei se daria certo ou 
se adiantaria de alguma coisa. 

 O que voc pensou?  Thalassa se interessou 
no plano. 

 No  nada de elaborado.  Nicardo fazia cara 
de quem no era para esperar nada espetacular  
Pensei em ir l fora e conferir o que est acontecendo. 
 Voc est maluco?  Cosmo falou um pouco 
alto  Olha como eles esto gritando. Nem parecem 
humanos. 
 Mas por que esto gritando?  Nicardo 
parecia intrigado. 
 Se fosse por algum motivo justo, Tales j teria 
ajudado!  Cosmo tentava tirar a idia da cabea de 
Nicardo. 
  verdade Nicardo!  Thalassa entrou na sua 
frente  No sei se seria uma boa idia. 
 Mas ento por que o Tales no conta nada?  
Nicardo estava aflito. 
 Quanto a isso eu concordo com o Nicardo!  
entrei no meio dos dois  O Tales tinha que nos contar 

o que so eles ou o que est havendo com eles e por 
que ele no os ajuda. 
 Tudo bem, isso realmente  verdade.  
Thalassa ajeitava o cabelo  Mas se ele no quer contar 
e por que deve ser algo grave. 

 E por ser algo grave ele deveria contar para 
ns!  Cosmo entrava para o nosso lado. 
 E o que vocs vo fazer?  Thalassa colocava 
as mos na cintura  Fugir escondidos? 
 Tudo bem!  Nicardo levantava as mos em 
rendio  Eu no irei fazer nada. 

  o melhor a se fazer!  Thalassa sorria 
aliviada. 
 Mas o Tales vai ter que explicar o que est 
acontecendo!  Nicardo estava decidido. 
 Concordo!  Cosmo cruzou os baos. 
Talvez fosse melhor conversar com uma porta. 
Nunca vi algum to intransigente quanto o Tales. No 
sei se na poca em que o conheci da primeira vez ele 
era assim, mas sem dvida se no era o tempo o 
tornou um cara difcil de se lidar. 

No preciso dizer que a noite foi horrvel. Tente 
dormir com gritos que voc s ouve em noites de 
terror e saber o que passei. Apenas quando o sol 
comeou a nascer que os gritos cessaram. Mas no tive 
muito tempo para descansar tranquilamente. Pouco 
depois de amanhecer, Nicardo me acordou. 

 Beatriz!  ele me sacudiu  Vamos sair logo 
daqui! 
 O que?  ainda estava sonolenta  Por qu? 
 Os guardas de Bianor esto vindo fazer a 
vista grossa deles.  agora Tales quem me apressava 
a acordar  Mas se nos encontrarem, provavelmente 
no iro fazer vista grossa. 
 Mas eles j esto aqui?  me levantei 
rapidamente. 
 J!  Cosmo apareceu  Por sorte entraram 
pelo porto e no pela ala isolada que deixamos o 
submarino. 

 E ns vamos para o submarino?  balancei a 
cabea tentando despertar completamente. 
 Isso  uma pergunta?  Tales terminava de 
colocar algumas coisas em uma mala. 
 Mas eu nem dormi direito!  reclamei. 
 No submarino voc dorme, agora vamos!  
Nicardo me apressava. 

 Cada a Thalassa e o Cosmo?  Tales olhava 
em volta. 
 Estamos aqui!  Thalassa apareceu ao lado de 
Cosmo, que estava do lado de Tales. 
 Muito bem, no podemos perder tempo 
aqui!  Tales colocou a mala nas costas  Cosmo, ao 
submarino! 
 Mas e as outras pessoas?  perguntei. 
 J deixei outro em meu lugar tomando conta 
deles!  Tales respondeu  Eles j esto prontos para se 
cuidarem sozinhos faz tempo. Estava s esperando 
vocs voltarem para partir. 
 Agora vamos apressar o passo!  Cosmo j 
estava na porta. 
 Vamos ter que passar por aquele corredor de 
casas de novo?  perguntei. 
 No!  Tales gritou  No, ali  muito 
perigoso. Conheo um atalho. 
 Atalhos so coisas bem convenientes em 
momentos como esse!  Cosmo sorriu e fez um gesto 
com a cabea nos apressando. 
 Com certeza!  Nicardo sorriu. 

 Ento vamos parar de enrolar e vamos sair 
daqui logo?  encerrei o assunto. 
Passamos por um caminho que seguia por trs 
do corredor de casas. Era um caminho difcil, cheio de 
runas e pedras enormes. Mas em compensao, seria 
difcil nos ver passando por ali. 

Realmente no demorou muito quando 
chegamos ao local onde estava o submarino. Ele estava 
invisvel, mas vamos sua antena sinalizando sua 
localizao. A antena no chamava a ateno, parecia 
apenas um graveto flutuando na gua. Apenas quem 
sabia da existncia do submarino poderia saber que 
aquele graveto deitado na gua era um sinalizador. 

Antes de chegarmos ao submarino, uma moa 
correu em nossa direo. Ela parecia desesperada e se 
jogou as meus ps. 

 Por favor, me ajudem!  a moa estava 
realmente desesperada.  Se vocs esto fugindo de 
Leander, me ajudem a fugir tambm! 
 Calma, espere!  eu disse enquanto Nicardo 
voltava pra ver o que estava acontecendo. 
 Eu te conheo!  a moa parecia aliviada com 
olhou meu rosto  Sim,  voc! Voc estava aqui com 
Nicardo h um ano atrs. Por favor, me ajude? 
 Calma!  a moa segurava em minhas pernas. 
 O que est acontecendo aqui?  Nicardo se 
assustou quando viu o rosto da moa  Levinda? 

Levamos a Levinda para o submarino. Ela 
conseguiu se acalmar. Nicardo me contou que Levinda 
foi uma moa que conheci quando viemos da primeira 
vez em Leander. Ela que havia nos avisado que a dona 
do hotel em que havamos ficado estava espionando os 
hspedes. Tales contou que mais tarde foi descoberto 
que Elma, a dona do hotel, havia feito um acordo com 
Bianor e que ele havia dado o hotel de presente, em 
troca de informaes sobre quem agisse de forma 
suspeita. Thalassa contou que foi assim que Bianor 
descobriu que estvamos atrs dos cristais e conseguiu 
armar a armadilha em Calidora que nos fez ficar presos. 

Contamos tambm a Levinda sobre a minha 
perda de memria e que estvamos atrs de um jeito 
de recuperar minha memria. Levinda pareceu 
surpresa com tudo o que contamos e ouviu cada 
detalhe com ateno, mas sempre que olhava para 
Nicardo ficava triste. 

 Por que voc estava fugindo?  perguntei. 
 Dos guardas de Bianor.  ela fitou o cho  
Fugi do castelo de Bianor e os guardas me seguiram at 
aqui. 
 Qual castelo? O de Neide ou o de Calidora?  
Tales perguntou. 

 De Calidora!  Levinda continuava fitando o 
cho  L  a base dele. Eles foram os primeiros a 
apoiar-lo. 

 Mas voc estava sendo mantida prisioneira? 
 Nicardo quem perguntava. 
 De certa forma.  ela ficou ainda mais triste  
Eu ainda no era prisioneira, mas iria virar. 

 Estava sendo condenada?  Thalassa chegou 
mais perto de Levinda. 
 Sim!  ela fitou Nicardo  Estava sendo 
condenada a ser a terceira esposa de Bianor. 
 Terceira esposa?  Tales se surpreendeu  
No sabia que ele tinha se casado. 

 Ele ainda no se casou, mas continua 
escolhendo as esposas. Ele pretende ter 7 esposas, o 
numero da perfeio.  Levinda ficou seria  Ele s vai 
casar depois que encontrar as 7 esposas. Sero 7 dias 
de casamentos. Ele pretende fazer uma semana de 
festa para todos que se aliaram a ele. 
 Mas Bianor quer esposas para o que se ele vai 
destruir o mundo de Ofir?  perguntei. 
 Quem disse que o plano dele  destruir Ofir? 
 um tom sombrio cobriu as palavras de Levinda  
Bianor  a ltima pessoa a querer ver Ofir destruda. Os 
planos dele vo muito alm disso. 
 Mas voc disse que ele s vai se casar depois 
que encontrar todas as esposas.  Nicardo parecia 
preocupado  E se voc seria a terceira, isso quer dizer 
que ele j tem a primeira e a segunda esposa. Certo? 
 Sim!  Levinda voltou a fitar o cho  Antes 
de fugir ele j tinha elegido a quarta esposa. 

 E voc sabe quem eram as outras esposas?  
Nicardo realmente parecia preocupado. 

 Bem, a quarta eu no lembro o nome.  
Levinda parecia estar tentando lembrar  Mas era bem 
novinha. 19 anos provavelmente. A outra era a Layla. 
Elma vendeu a prpria filha para Bianor. Ela tambm 
tentou fugir, mas no teve muita sorte. 

 E a primeira?  Nicardo estava muito aflito. 
 Era a Nnive, sua Irm!  Levinda respondeu 
triste. 
 Irm?  me assustei  Que histria  essa? 
Quem  essa irm de quem voc nunca me contou? 
 Espere!  Nicardo me ignorou  Ela est em 
Calidora? 
 Sim, no castelo!  Levinda respondeu. 
 Quanto tempo demoraria at chegarmos a 
Calidora?  Nicardo virou-se para Cosmo. 
 Voc est... 
 Quanto tempo?  Nicardo interrompeu 
Cosmo. 
 1 dia e meio se usarmos a velocidade 
mxima, mas ... 
 timo, vamos para Calidora!  Nicardo 
novamente interrompeu Cosmo. 
 Espere!  Tales entrou na conversa  Temos 
que seguir para Capital. Neandro est contando com o 
nosso apoio. Ele pediu para que quando vocs 
voltassem seguissem direto para l. No podemos 
mudar o curso assim. 

 E  perigoso!  Cosmo deixou o painel de 
controle  Se usarmos a velocidade mxima ficaremos 
lentos por 3 dias. Fora que o submarino no vai ter 
energia para ficar invisvel. 
 No tem problema!  Nicardo estava 
decidido. 
 Como assim no tem problema?  Thalassa 
estava brigando com Nicardo  E se precisarmos fazer 
uma fuga emergencial? Alm de ficarmos visvel para 
todos, estaremos seguindo na mesma velocidade que 
eles! Eu sei que  a sua irm e entendo a sua 
preocupao, mas nada ir acontecer com ela 
enquanto no achar as outras esposas. Vamos nos 
organizar na Capital e de l armamos um plano, 
pegamos reforos e resgatamos sua irm. 
  Nicardo  Tales tentava tirar a idia da 
cabea de Nicardo  assim  mais seguro e eficaz. Se 
formos s ns fica mais fcil de sermos presos, mas se 
formos com reforos... Temos uma chance. 
 No!  Nicardo estava realmente decidido  
Temos que resgatar-la agora! 
 Nicardo... 
 No!  Nicardo interrompeu Thalassa  Ns 
vamos resgatar-la. 
 Eu sei que eu vou me arrepender, mas por 
mim tudo bem. Voc me convenceu.  Thalassa ergueu 
as mos em rendio. 

 Eu j deixei avisado os riscos, se mesmo assim 
ainda que ir... Por mim tudo bem tambm!  Cosmo 
voltava para o painel de controle. 
 J que a maioria decidiu...  Tales eu de 
ombro. 
O dia passou e os assuntos foram poucos. Na 
verdade eu, Thalassa e Cosmo ficamos dormindo a 
maior parte do tempo. Depois da noite cheia de gritos, 
uma noite em silncio era mais que merecido. 

No dia seguinte levantei cedo. Ou 
aparentemente cedo. De baixo dgua fica um pouco 
difcil saber quando realmente  cedo. Cosmo estava 
no painel de controle observando vrios pontos e 
imagens que  para minha surpresa  eram 
transmitidas pelo tronco que ficava invisvel quando 

o submarino estava em movimento. 
 J estamos chegando?  perguntei. 
 Ainda no.  ele olhava um tipo de radar  
Mas no vai demorar muito para chegarmos. 
Tales estava do lado de Cosmo. Aparentemente 
estava ajudando-o a manejar o submarino. Ele parecia 
preocupado. 

 Tales?  sentei ao lado dele  Agora que o 
Nicardo est dormindo, acha mesmo que tem alguma 
chance deste plano dar certo? Por que o castelo deve 
ser vigiado, como entraremos? 
  exatamente nisto que estava pensando!  
Tales tambm olhava o radar  Da primeira vez 


conseguimos invadir o castelo de Neide, mas tivemos 
ajuda da Thalassa que conhecia todas as entradas 
secretas. Fora que no estvamos em guerra. A 
segurana deve estar dobrada. 

 Como faremos?  perguntei. 
 No sei.  Tales se levantou  Mas na maioria 
das vezes ns nunca sabamos o que iramos fazer ao 
certo, mas sempre conseguamos. Espero que desta vez 
seja igual. 
Chegamos a Calidora sem nenhum plano de 
invaso. No sei o que o Nicardo estava pretendendo, 
mas esperava que ele no resolvesse ir entrando e 
esperando que todos abrissem passagem para ele levar 
a garota que foi eleita  primeira esposa de Bianor sem 
nenhum problema. Era um plano presunoso. Isso , se 
esse fosse o plano de Nicardo. 

Assim como Neide, Calidora estava intacta. 
Pelo menos acredito que estava. No sei dizer, mas 
sentia que ela no havia mudado. Talvez fosse a minha 
memria dando sinais de vida. 

 Eu vou ficar no submarino!  Levinda dava 
alguns passos para trs  No quero correr o risco de 
ser pega e no ter outra oportunidade de fugir. 
 Tudo bem.  Nicardo estava serio  
Entendemos! 
 Eu fico com ela!  Cosmo tambm deu alguns 
passos para trs  No  seguro deixar-la s, ainda mais 
agora que o submarino no ficar mais invisvel. Sero 
3 dias repondo energia. 

 E como ele repe essa energia?  fiquei 
curiosa. 
 Atravs do sol!  ele sorriu  A energia solar  
o combustvel que move o submarino. Vocs no 
sabem a dificuldade que foi para abrir o teto na poca 
em que ele ficava escondido. 
 Ento voc fica!  Tales tambm estava serio 
 Vamos? 
 Espere um minuto!  Cosmo pareceu se 
lembrar de algo na ltima hora. Foi para o submarino  
Eu criei, antes de vocs voltarem, isso aqui.  um 
aparelho para nos comunicarmos uns com os outros. 
Leve e avise caso algo d errado. 
 Obrigado.  Nicardo sorriu  Faa o mesmo! 
 Pode deixar!  Cosmo sorriu. 
Andamos at chegar a um castelo. Tentamos 
andar o mais discretamente possvel. Se ali era  base 
de Bianor, ns estvamos em um grande perigo. 

Ficamos escondidos atrs de vrios arbustos. 
Tales e Nicardo ficaram fitando o castelo por alguns 
minutos e depois fizeram expresses pensativas. 

 Eu sinto como se j conhecesse esse castelo. 
 pensei alto. 
 E conheceu!  Tales respondeu.  Todos ns 
conhecemos, exceto o Cosmo! 
 E agora?  Thalassa perguntou  O que 
faremos? 

 Temos que pensar em um jeito de entrar sem 
ser percebido.  Nicardo analisava o castelo  Mas 
como? 
Comecei a tentar pensar em algo. No 
acreditava que poderia dar alguma sugesto til, mas 
queria pelo menos tentar. Se eu era a pessoa escolhida 
para salvar um mundo inteiro, deveria ter uma idia 
sobre como invadir um simples castelo. Foi ento o que 
aconteceu. 

No reparei no primeiro momento, mas depois 
comecei a sentir o meu corpo leve at ter uma 
sensao de estar desaparecendo. No era a sensao 
que tive quando fui sugada para dentro da caixa. No 
era apavorante. Foi apenas uma sensao de leveza. 

 Beatriz?  Nicardo olhava para os lados.  
Para onde ela foi? 

 Eu estou aqui!  disse assustada  No esto 
me vendo? 
 Honestamente? No!  Thalassa respondeu. 
 Minha nossa, voc est invisvel!  Nicardo se 
espantou. 
 Invisvel?  me assustei ainda mais. 
Olhei para mim mesma e no vi nada. Eu 
realmente estava invisvel. No comeo senti vontade de 
gritar, mas me segurei  no queria chamar ateno. 
Depois que comecei a me acostumar com a idia, Tales 
vem com outra que me apavora novamente. 

 Voc encontrou o nosso passaporte para o 
castelo!  Tales sorriu. 

 Como assim?  ainda tentava achar algo em 
mim visvel. 
 No v?  Tales perguntou. 
 Honestamente? No!  respondi usando as 
palavras de Thalassa. 
 Voc est invisvel!  Tales estava realmente 
feliz. 
 Eu s no entendi ainda no que isso pode ser 
til?  estava desistindo de achar algo visvel em mim. 
 Simples, voc vai l e distrai os guardas. Ns 
entramos e derrubamos e entramos.  Tales estava 
realmente feliz. 
 Na teoria realmente parece simples, mas e na 
prtica?  disse aborrecida. 
 Algum tem um plano melhor?  Tales olhou 
em volta. 
Ainda no sabia por que tinha aceitado isso.e 
se desse errado? O que faramos? Mas eu j estava l, 
junto com os guardas, e nada havia acontecido. O jeito 
era por o plano em prtica e esperar que desse certo. 

Haviam dois guardas na porta. Um virado de 
costas para o outro. Esperei os dois guardas que 
estavam perto da porta se distanciarem e botei o plano 
em ao. Comeando por algo simples e clich, mas 
que nunca falhou. 

 Por que voc fez isso?  o guarda da esquerda 
perguntou. 

 Isso o que?  o da direita estava sem 
entender nada. 
 Por que voc me chutou?  o guarda da 
esquerda se irritou. 
 Andou bebendo ontem  noite?  o guarda da 
direita debochou do da esquerda, que ignorou. 
No esperei muito. Apenas tempo o suficiente 
para os dois pararem de prestar ateno um no outro e 
desta vez fui atacar o da direita. 

 Ei, por que fez isso?  o guarda da direita 
estava bravo. 
 Isso o que?  o da esquerda ainda estava 
chateado. 
 Por que voc me chutou? Eu disse que no fui 
eu!  o guarda da direita ficou muito bravo. 
 Acho que foi voc quem bebeu ontem  
noite!  o da esquerda falou com desdm. 
Agora vinha a parte difcil. Tinha que ser rpida 
ou colocaria todo o nosso plano em risco. Os guardas 
que ficavam na porta j estavam voltando e quatro eu 
no daria conta. Respirei fundo e fui. 

 Ei, o que est acontecendo aqui?  o da 
esquerda. 
 Voc me chutou de novo?  o da direita. 
 No!  o da esquerda  Voc me chutou de 
novo! 
 Voc est maluco?  o da direita. 
 Voc que est doido!  o da esquerda. 

Nicardo e Tales aproveitaram o momento e 
deram uma pancada na cabea dos dois guardas que 
caram desmaiados no cho. Neste mesmo momento 
comecei a ficar visvel outra vez. S na tinha certeza se 
isso era bom ou ruim. 

 Vamos logo antes que os outros guardas 
apaream!  disse indo para a porta do castelo. 
Entramos e corremos pelos corredores 
tentando achar lugares que no estivessem sendo 
vigiados. Para nossa sorte no haviam muitos. E o 
pior, no fazamos a mnima idia de onde estava a 
irm de Nicardo. 

 Acho que estamos perdidos!  Thalassa 
estava aflita. 
 Acho que ouvi algum chegando!  Tales se 
assustou. 
 Rpido, por aqui!  Nicardo me puxou. 
Corremos por outro corredor e no olhamos 
para frente. Resultado? Esbarramos em uma pessoa. 
Ela estava toda encapuzada e to amedrontada quanto 
ns. No sabamos se era inimigo ou fugitivo, at eu e 
Nicardo olharmos o seu rosto e termos uma imensa 
surpresa. 

 Camila? 

CAPTULO 7 / BRIGAS DE IRMOS 


C 


amila me abraou e se ajoelhou aos meus ps como se 
sua vida dependesse disso. Ou de mim. Ou das duas 
coisas. Na estava entendendo nada e ela parecia estar 
to confusa quanto eu, o Nicardo e os outros. 

 Vocs j se conhecem?  Thalassa perguntou 
fitando a mim e ao Nicardo. 
 Sim.  Nicardo olhava para Camila  Da Terra. 
 Espere!  Tales parou na nossa frente  Ela 
veio do mesmo mundo que a Beatriz? 
 Ento eu estava certa?  Camila parecia grata 
e desesperada  No estamos na Terra! 
 Mas como?  perguntei. 
 Eu no sei  Camila se levantou  Estava 
andando com o Toni. Ai o Toni! Como ele est? Deve 
estar achando que eu o abandonei. Aquele boc 
inseguro. Mas eu amo muito ele, que isso fique bem 
claro! 
 Mas o que aconteceu?  Nicardo j conhecia 
a figura. 
 Ah sim, eu estava contando como cheguei 
aqui!  aos poucos ela voltava ao normal  Eu estava 
andando, indo para a escola como fao sempre, junto 
com o Toni. O Toni  o meu namorado. E ele estava me 
falando algumas coisas que eu no estava prestando 
ateno. Eram coisas muito chatas. Eu parei para 
ajeitar o meu sapato, quando um buraco negro se abriu 
debaixo dos meus ps. 

 Um buraco negro?  Tales se assustou. 
 Sim!  Camila arregalou os olhos  Um 
buraco bem grande. No, mdio. Um buraco mdio. 
E ele me sugou. E eu fui caindo e caindo e gritando e 
gritando e quando dei por mim eu estava em uma sala. 
Uma grande sala. Desta vez era grande de verdade. E 
um homem muito feio e sinistro disse com uma voz 
malvada e grossa Essa! e olhou para mim Essa ser a 
minha quarta esposa! 
 Ento era voc!  Nicardo socou a mo  
Levinda havia comentado de uma quarta esposa bem 
nova. 
 Sim, sim!  Camila balanava a cabea  Eu 
lembro uma garota com esse nome. Ela estava me 
ajudando a fugir, junto com outra... Lila? No. Leca? 
Como  que era o nome dela mesmo? 
 Layla?  perguntei surpresa por ter lembrado 
o nome. 
 Isso!  Camila abriu um largo sorriso  Era 
esse mesmo o nome dela! Layla! Mas depois ns nos 
perdemos. E eu fiquei desesperada perambulando por 
esse castelo. Quase fui pega. Vocs tambm esto 
fugindo deste castelo? 
 Na verdade acabamos de entrar!  respondi 
com um sorriso constrangido. 
 timo!  ela sorriu e depois balanou a 
cabea com se tivesse acabado de acordar  Vocs 
esto entrando? Ficaram loucos? 

 No sei. Talvez.  tentei no parecer nervosa 
 Vamos resgatar a irm de Nicardo. 
 E desde quando o Nicardo tem irm?  
Camila perguntou surpresa  Por falar nele... O que 
aconteceu com a sua pele Nicardo? 

  uma longa historia!  respondi. 
 Voc talvez deva conhecer-la.  Nicardo se 
aproximou  O nome dela  Nnive. Ela ser a primeira 
esposa. 
 Ela que  a sua irm?  Camila gritou. 
 Acho melhor irmos para um lugar mais 
seguro!  Tales fitava Camila, repreensivo. S ento 
notei que estvamos no meio de um corredor e que 
estvamos com muita sorte de ainda no termos sido 
descobertos. 
Seguimos por alguns corredores at chegar a 
uma sala vazia. Fechamos a porta e Nicardo 
imediatamente voltou ao assunto que Tales havia 
interrompido antes de sairmos do meio do corredor. 

 Voc a conhece?  Nicardo perguntou 
ansioso. 
 Quem?  Camila provavelmente j havia 
esquecido o que estvamos conversando. 
 A Nnive, minha irm.  Nicardo estava 
ficando impaciente  Voc a conhece? 
 Ah!  Camila sorria vermelha  Eu conheo 
sim. A noiva que no quis fugir. 

 Como assim no quis fugir?  Nicardo ficou 
assustado. 
 Ela havia dito Podem ir, eu ajudo, mas me 
deixem ser a nica esposa do Bianor  Camila tentava 
imitar a voz de Nnive. Como nunca havia ouvido, no 
posso dizer se ela foi bem na imitao  Depois ela 
ainda disse assim Eu amo o Bianor, vocs no. Eu fui 
escolhida primeiro. 
 Tem certeza que ela disse isso?  Nicardo 
perguntou ctico. 
 Absoluta!  Camila fazia bico  Eu estava 
perto. 
 Impossvel!  Nicardo continuava sem querer 
acreditar  No. Isso no  verdade. Eu contei a ela que 
era Bianor, contei o que ele havia feito com a nossa 
me quando descobriu o que ele estava armando.  
Nicardo respirou fundo  A Nnive nunca diria que ama 
uma pessoa como Bianor. 
 Mas foi o que ela disse! E ela parecia 
realmente apaixonada. Se ele fez algo de ruim para 
vocs, ela no est dano a mnima!  Camila nunca teve 
um senso de quando deve parar de falar. 
 Leve-me at ela!  Nicardo agora estava 
ordenando  Eu preciso ouvir isso da boca dela! 
 Por que, da minha no serve?  Camila fez 
biquinho de novo. 
 Camila, isso  srio!  Nicardo fitou Camila 
repreensivo. 

 Sem graa!  Camila bufou.  Tudo bem, se 
voc quer assim. 
 Obrigado.  Nicardo disse hspido. 
 Mas j vou logo avisando que ser intil!  ela 
ficou seria  Nossa, eu nem perguntei. 
 O que?  eu perguntei confusa. 
 Esses so mesmo seus amigos?  Camila 
chegou mais perto de mim  Podemos confiar neles? 
 Sem dvida!  respondi. 
 Mas e se formos pegos?  Camila deu dois 
passos para trs e colocou a mo na cintura. 
 Voc j viu um Leon?  perguntei. 
 Aqueles monstros gordinhos e horrendos?  
Camila fazia cara de nojo  Infelizmente sim. Foram 
eles que me tiraram da sala do tal homem que quer ser 
meu marido. Eu ainda sou uma criana! 

 Camila, voc vai fazer 19 anos.  lembrei  
No pode mais ser considerada uma criana. 

 Que seja.  ela bufou e algo nesse gesto fez 
minha cabea doer  De qualquer forma eu no penso 
em casar antes dos 30. 
 Por que estamos conversando sobre isso?  
Nicardo ficou nervoso  Ns vamos ou no resgatar 
minha irm? 

 Calma!  Camila falou alto  Muita calma. 
Vocs ainda no me deram garantia sobre a minha 
segurana. 

 Era sobre isso a pergunta dos Leons!  
lembrei do real motivo de ter comeado o assunto  O 
Nicardo e essa minha amiga aqui, a Thalassa... 

 Ol Thalassa!  Camila cumprimentou a 
Thalassa. 
 Continuando  disse em um tom de voz mais 
alto  Nicardo e Thalassa derrotaram dois Leons. E o 
Tales. 
 Oi Tales!  ela no aprendia. 
 O Tales tambm  muito forte e pode 
enfrentar os Leons, casos eles apaream.  presumi. 
 Mas  bem provvel que aparea guardas!  
Camila sorriu  O pouco que vivi com meu futuro atual 
ex-noivo j deu para observar que ele s envia Leons 
para os casos pesados. 

 timo!  Nicardo pareceu aliviado  Guardas 
todos ns damos conta. Agora vamos? 
 Para onde?  Camila perguntava 
inocentemente. 
 Resgatar minha irm!  Nicardo estava 
perdendo a pacincia. 
 Ah claro!  ela sorriu  Vamos? 
Camila nos levou para outro corredor e 
empurrou uma parede. Ela havia dito que foi a prpria 
Nnive quem mostrou algumas das passagens secretas 
do castelo. Ela havia aprendido as passagens sozinha, 
mas disse que nunca tentou fugir. Nicardo continuava 


ctico quanto ao assunto da irm dele estar 
apaixonada por Bianor. 

O corredor que levava uma passagem a outra 
era estreito e tinha cheiro de mofo. Havia tochas 
acesas e a passagem parecia um pouco mida. Era 
como se j houvesse passado uma grande quantidade 
de gua por ali e os corredores ainda sofressem com 
isso. No pude evitar me sentir mais forte. Qualquer 
contado com a gua ou fogo trazia isso para mim. Os 
dois juntos era quase como se uma energia nascesse 
em mim e fortalecesse meu corpo. Se fosse antes eu 
estranharia, mas desde que cheguei  ao melhor, voltei 

 a esse mundo que no acho mais nada estranho. 
 Muito bem, por onde eu deveria ir mesmo?  
Camila coava o cabelo. 

 No vai me dizer que voc se perdeu?  
Nicardo ficou nervoso. 

 No!  ela falou alto  Eu s no tenho 
certeza absoluta. Esses corredores s vezes me 
confundem! 
 Ah no Camila.  Nicardo encostou a palma 
da mo na testa  Estamos perdidos! 
 Espera e me d um tempo!  Camila olhava 
pelos possveis caminhos. 
Estvamos parados entre trs possveis 
corredores. O da direita parecia ir subindo  
provavelmente indo para o andar de cima. O do meio 
seguia reto, mas tinha a impresso que no levaria a 


lugar algum. O da esquerda descia e parecia mais 
escuro que os outros corredores. 

 Eu voto pelo da direita!  eu disse. 
 Ento vamos!  Nicardo seguiu pelo corredor 
da direita. 
 Espere, no vai ouvir os outros?  perguntei. 
 Eu j te ouvi e isso basta.  Nicardo parou na 
entrada do corredor  Ou esqueceu que voc  quase 
uma adivinha? 
Seguimos todos pelo corredor da direita. No 
discuti com Nicardo sobre o fato de eu possivelmente 
ser uma adivinha ou qualquer coisa parecida. Se ele 
disse esqueceu que voc  significa que eu sou. Ser 
que eu realmente tive uma amnsia parcial? A cada 
momento que passa eu me sinto mais e mais distante 
de mim mesma. Como se o que eu sou no fosse eu de 
verdade. 

Chegamos a uma sada. Um bloco de madeira 
que estava escondido por uma armadura. Samos em 
um corredor longo, porm com poucas portas  se 
eram os quartos, eram quartos realmente grandes. 

  aqui!  Camila gritou. 
 Sim, ser aqui que seremos executados se 
voc ficar gritando!  Nicardo estava nervoso de 
verdade. 
 Agora fica mais fcil achar o quarto!  Camila 
cochichou  Vamos. 

Passamos por algumas portas e chegamos a 
uma grande porta com detalhes dourados e pequenos 
diamantes com pequenas inscries que eu no 
conseguia ler. 

 Aqui diz O quarto da primeira  Nicardo j 
foi abrindo a maaneta. 
 Espere!  eu disse baixinho  E se Bianor 
estiver com ela? 
 No.  Camila fez um gesto de desdm com a 
mo  Ele no  um noivo muito atencioso. No mximo 
ela estar com alguns serviais. 
 O que tambm seria ruim.  Tales falou to 
baixo que quase no ouvi. 
 Quer saber, acho melhor eu entrar sozinho.  
Nicardo encerrou o assunto. 
Nicardo entrou, enquanto nos escondamos  
ou tentvamos. No poderamos ficar no corredor por 
muito tempo. Entramos em um dos quartos que Camila 
disse estar vazio. Por muita sorte eles realmente 
estavam. 

 Mas eu quero saber o que eles vo falar!  
Camila cochichou assim que Nicardo entrou. 

 Beatriz, estenda as mos.  Thalassa pediu. 
 Assim?  perguntei  Mas por... 
 Diga Ariequo!  no estava entendendo onde 
Thalassa queria chegar. 
 Ariequo!  repeti. 
De repente pareceu que pequenas ondas de ar 
entravam por minhas mos e palavras apareciam em 


minha mente e minha boca comeou a repetir-las, sem 
que eu quisesse. 

 O que voc fez?  estava conseguindo me 
controlar. 
 Magia da fofoca!  ela riu  Agora repita o 
que voc escutar por favor. 
 Voc no deveria estar aqui!  uma voz de 
mulher saia no lugar da minha. 
 Eu posso te ajudar a fugir!  agora era a voz 
de Nicardo. Isso era muito estranho. 
 Mas ser que no entendeu, eu no quero 
fugir!  a voz que deveria ser de Nnive. 
 Eu no acredito que voc... Depois que tudo o 
que aquele monstro fez para ns, com a nossa me.  
Nicardo estava arrasado. 
 No foi ele!  Nnive alterou a voz  Bianor 
no  esse monstro que vocs falam. 
 Ento por que ele est destruindo tudo?  
Nicardo estava nervoso  Voc viu o que ele fez com 
Leander. No acredito que voc aceitou o que ele fez 
com a terra onde ns nascemos. S falta me dizer que 
no foi culpa dele. 

 E no foi!  Nnive comeava a ficar nervosa. 
 Como voc pode ser to tola?  estava 
comeando a sentir a raiva de Nicardo  Deixou se 
levar por um homem como aquele. 
 Mas ele me ama. Ele vai me fazer rainha, 
assim que o mundo de Ofir for reconstrudo.  Nnive 
parecia no estar falando por si 

 Com certeza ele te ama. Ele te ama muito!  
Nicardo falava em um tom debochado. 

 Eu cansei de voc estar sempre querendo 
dizer o que eu devo fazer!  ela gritou  Eu no sou 
mais aquela menininha que voc e a mame 
controlavam. 
 E voc acha bonito o que voc est fazendo? 
 Nicardo estava ficando muito nervoso. 
 Melhor do que ser um fugitivo!  ela gritou 
mais alto. 
 Melhor ser um fugitivo que defende o que 
est certo, do que ser uma vendida que s quer saber 
de status.  Nicardo tambm gritava. 
 Eu no me vendi!  os gritos de Nnive j 
podiam ser ouvidos do quarto ao lado. 
 Ento o que  isso que voc est fazendo?  
Nicardo perguntou novamente debochado. 
 Ouviu isso?  uma terceira voz apareceu.  
Parece vir do quarto da primeira. 

 O que  isso?  Camila se assustou  Agora 
que a coisa estava pegando fogo. 
 Acho que esto subindo.  Tales falou aflito. 
 Quem?  Camila perguntou. 
 Os guardas!  Tales respondeu correndo para 
a porta. 
Thalassa chegou perto de mim e fez um gesto 
estranho com a mo, como se abrisse um zper. Depois 
disso voltei ao meu normal  o que me fez ficar muito 
aliviada. 


 Vamos!  Thalassa me puxou  Temos que 
avisar o Nicardo. 
Corremos at o quarto de Nnive. Nem 
batemos na porta. Abrimos e fomos entrando 
desesperadamente. No havia temo para formalidades. 

 Quem so vocs?  Nnive falava autoritria. 
 So meus amigos!  Nicardo ainda estava 
zangado. 
 E estaremos mortos se no sairmos daqui 
agora!  Tales disse aflito. 
 Esto vindo para c?  Nicardo j sabia do 
que estvamos falando.  Mas como conseguiram 
escapar? 
 Na verdade eles esto para chegar a qualquer 
momento!  Tales cochichou  Magia da fofoca. 
 Vocs estavam ouvindo a nossa conversa?  
Nnive estava furiosa. 

 Espere!  Nicardo se acalmou  Quem 
executou a magia? 
 Foi a Beatriz!  Thalassa respondeu. 
Nicardo me olhou confuso e ao mesmo tempo 
admirado. No estava entendendo o motivo de ele 
estar me olhando daquela maneira, mas estava 
preocupada demais com os guardas que estavam 
chegando ao quarto. 

 Ser que podemos tentar fugir agora?  Tales 
tirou as palavras da minha boca. 

 Acho melhor passarem por aqui!  Nnive, 
que estava sentada na cama, levantou-se e abriu a 
porta de um armrio. 
 Ela est achando que temos cara de amante? 
 Tales deixou escapar. 
Nnive olhou com fria para Tales e fez um 
gesto com a mo. O fundo do armrio se abriu, 
revelando uma passagem secreta. 

 Quem te ensinou magia deste nvel?  
Nicardo estava surpreso. 

 Eu tenho aprendido muitas coisas desde que 
fiquei noiva de Bianor.  Nnive respondeu hspida  
Vocs podem seguir reto, no h outros caminhos 
nessa passagem. Quando chegarem a uma porta, 
desejem o lugar onde querem sair e depois abram. 
 Como assim desejem?  perguntei. 
 Isso  uma passagem mgica, no reparou?  
Nnive levantou uma das sobrancelhas  Se por acaso 
eu tiver que lutar contra voc, saiba que eu no serei 
to boazinha assim. E no me leve a mal, no  nada 
pessoal. Estou apenas defendendo o que acho certo. 

 Se  essa a sua escolha  Nicardo estava serio 
 s lamento! 
A ameaa  se  que aquilo foi uma ameaa  
no me assustou tanto quanto a cara de dio que 
Nicardo fez quando disse a ltima frase da conversa 
com a irm. Ele realmente parecia estar odiando-a e se 
odiando tambm. Entramos dentro do armrio. 


O corredor era todo feito de pedras brancas e 
pareciam pedras de praia. O cho era de terra, mas se 
olhasse rpido poderamos notar que ele parecia 
mudar de forma. Era como se cada vez que nos 
distraiamos ele se transformava em outra coisa, e 
quando voltvamos a prestar ateno nele, ele voltava 
a ser o cho de terra de sempre. 

O corredor era longo e parecia no ter fim. No 
sei dizer quanto tempo ns andamos por aquele 
corredor, mas sabia que havia passado mais tempo do 
que devramos passar. S ento lembrei. 

 Cosmo e Levinda!  gritei do nada. 
 O que foi Beatriz?  Nicardo perguntou. 
 No sei. De repente eu me lembrei deles.  
disse pondo a mo no peito  Agora estou sentindo 
algo ruim. Como um pressentimento. 

 No estou gostando desta histria!  Tales 
reclamou.  Cad aquele troo comunicador que o 
Cosmo te deu Thalassa? 
 Ele entregou para o Nicardo, no para mim!  
Thalassa tambm parecia preocupada. 

 Espere, ele est aqui!  Nicardo disse se 
apalpando. 
Nicardo puxou um pequeno saco que estava 
amarrado na cintura. S ento reparei naquilo. Nicardo 
pegou o comunicador e ficou observando. 

 Como ser que funciona? 
 Talvez neste boto.  Tales pegou o 
comunicador da mo d Nicardo. 

 Poderia pelo menos ter pedido para ver!  
Nicardo se chateou. 

 Desculpe!  Tales no parecia arrependido. 
Ele apertou o boto, mas aparentemente nada 
aconteceu. Ele ficou esperando e esperando e nada 
acontecia. Ele nem sequer chiava. 

 Talvez voc deva falar alguma coisa?  
sugeriu Thalassa. 

 Al, al?  Tales tentou  Tem algum ai? 
O silncio continuou e isso j estava 
comeando a nos preocupar. Ser que algo de ruim 
havia acontecido com Cosmo e Levinda? 

 Voc deve ter quebrado o aparelho!  
Thalassa ficou nervosa. 

 Eu no fiz nada!  Tales tambm se estressou 
 Eu s apertei esse boto. 
 Que provavelmente no era para ser 
apertado!  Thalassa brigava com Tales. 
 Acho que precisamos correr.  Nicardo 
interrompeu a briga  Esse pressentimento da Beatriz 
me deixou preocupado. 
 Ento vamos logo!  Tales falou  No quero 
perder mais ningum. 
 Espere!  fiquei apavorada  Cad a Camila? 

CAPTULO 8 / PRESOS, DESAPARECIDOS E UM SONHO 
CONFUSO 


E
E
stava me sentindo muito culpada por ter esquecido 
Camila. Tentava lembrar em que momento nos 
perdemos ou como isso aconteceu. Ela estava to feliz 

em me ver e acabei deixando-a sozinha outra vez. Que 
tima melhor amiga que eu sou. 

 Vamos fazer o seguinte?  Nicardo sugeriu 
um plano  Eu e a Beatriz voltamos e procuramos a 
Camila e voc e o Tales vo atrs do Cosmo e da 
Levinda. Espero estar errado, mas acho que eles esto 
em apuros! 
 Voc tem certeza?  Thalassa perguntou. 
 Voltarmos todos juntos seria muito arriscado. 
 Nicardo parecia no gostar da idia  Podemos ser 
todos pegos. Se alguma coisa acontecer com Cosmo e 
Levinda enquanto estivermos procurando Camila? 
Acho que nenhum de ns iria se perdoar. E melhor nos 
dividirmos. 
 Mas e se tudo tiver bem com Cosmo e 
Levinda?  Tales pergunto. 
 Espero que seja essa a situao!  Nicardo 
estava preocupado  Se estiver tudo bem com os dois, 
ns espere no submarino. A menos que algo de maior 
urgncia acontea. 
 Como assim?  Tales ficou confuso. 

 Se precisarem fugir!  Nicardo parecia no 
estar gostando de dizer isso  Caso precisem fugir, no 
hesitem e nem ns espere! 
 Tem certeza mesmo?  Thalassa perguntou. 
 Sim.  Nicardo respondeu serio. 
 Ento boa sorte!  Thalassa sorriu. 
 Obrigado.  Nicardo tentou sorrir  Boa sorte 
para vocs tambm. 
Seguimos de volta pelo corredor. No sei se era 
impresso minha, mas ele parecia mais longo desta 
vez. Como se tivessem o esticado uns oito metros 
enquanto estvamos conversando. Aparentemente o 
corredor tambm mudou. As pedras no pareciam mais 
to brancas e o cho agora era de cimento. Isso estava 
me deixando assustado. 

 Tem certeza que estamos seguindo pelo 
corredor certo?  perguntei. 
  o nico corredor.  Nicardo tentou sorrir 
novamente  Eu realmente espero que seja o certo. 
Mas qual o motivo da pergunta? 
 No sei.  fui sincera  Parece que no  o 
mesmo corredor que passamos. 
 Talvez o fato de ser mgico esteja 
influenciando em sua aparncia?  Nicardo sugeriu. 
 De qualquer forma... 
 Vamos tentar no pensar nisso.  Nicardo 
tentou tranquilizar-me. 

Continuamos andando por outro longo tempo. 
A impresso de ser outro corredor, muito maior e mais 
sujo do que o primeiro, continuou em minha cabea. 
Talvez o que Nicardo havia dito pudesse ser verdade. 
Talvez fosse realmente isso. Mas estava pensando que 
no era apenas isso. Esse corredor estava prestes a nos 
meter em uma grande encrenca. 

 Aqui  o fim?  Nicardo se perguntou quando 
viu um pedao grande de madeira no meio do 
corredor. 
 Acho que sim.  respondi. 
 Mas onde que abre?  Nicardo perguntou 
levantando uma das sobrancelhas. 
 Talvez precise empurrar?  sugeri. 
Entrei na frente de Nicardo e deu um 
empurram leve no grande pedao de madeira. Ele caiu 
no cho, mas nada aconteceu. 

 timo!  virei os olhos  Acho que havia uma 
porta no meio do caminho. 
 Espere!  Nicardo passou na minha frente  
Olhe! 
No lugar do pedao de madeira que se parecia 
com uma porta, uma pequena bola comeou a se abrir. 
Ela foi crescendo e virou um buraco negro. 

 Ser um portal?  perguntei. 
 Voc quer se arriscar?  ele olhou para mim 
um pouco temeroso. 
 Ser que  perigoso?  tambm estava com 
um pouco de medo. 

Neste momento Nicardo se encheu de coragem 
e colocou a cabea para dentro do portal. Quase fechei 
os olhos temendo que metade do corpo dele tivesse 
sido levado ou que ele voltasse metade jacar ou 
metade macaco ou qualquer outro bicho. Mas no foi 
isso que aconteceu. 

  um portal para o castelo!  Nicardo gritou 
com a cabea ainda dentro do portal. 
 O que Camila est?  perguntei. 
 Sim!  Nicardo tirou a cabea do portal. 
Aparentemente estava tudo normal com ele   o 
castelo de Calidora! 
 Se no tem perigo... acho que  ai mesmo 
que queremos ir!  tentei sorrir. 
 Ento vamos?  Nicardo segurou minha mo. 
 Vamos!  respondi. 
Samos no corredor do castelo. Assim que o 
portal se fechou tratei de conferir se estava inteira. 
No parecia ter nada faltando. Mais minha felicidade 
de estar inteira foi destruda assim que viramos. 

 Intrusos! 
Fomos cercados por vrios guardas. A menos 
que outro portal se abrisse embaixo dos nossos ps, 
no havia para onde fugir. Esperei por algum sinal de 
Nicardo, mas ele parecia to sem ao quanto eu. 
Desta vez no tinha escapatria. 

Algemaram-nos e ainda amarraram nossos 
braos, de modo que ficava um pouco complicado de 


se locomover. Principalmente para Nicardo que estava 
andando de costas. 

 Para onde esto nos levando?  gritei  Falem 
alguma coisa! 
Sabia que era intil, mas achei que poderia ter 
alguma idia no meio do desespero. No falam que  
sobre presso que saem as grandes obras? 

Levaram-nos para as masmorras do castelo. 
Elas no tinham nada de especial. Era como toda boa 
masmorra deve ser: suja, mida e fedida. As paredes 
eram feitas de um tijolo marrom claro estranho e as 
grades eram barras pretas de algo bem resistente, mas 
que nem de longe lembrava o ferro. Ou metal. Ou 
chumbo. Ou qualquer outra coisa que as grades 
costumam serem feitas. 

As celas estavam todas lotadas. Havia tudo o 
que  tipo de gente l. Desde humanos normais at 
seres com aparncias duvidosas. No sabia por onde 
comear a tentar contar quantos presos havia em cada 
cela. Eram muitos e a maioria no pareciam ruins  
exceto pelos de aparncia duvidosa, afinal, se eles so 
duvidosos... 

 O que faremos agora?  perguntei. 
 No sei.  j esperava essa resposta. 
Para nossa sorte, fomos jogados em uma cela 
quase vazia. Havia um senhor de meia idade e uma 
jovem com orelhas, rabo e garras de gata. 
Provavelmente seria a prxima cela a ser lotada. 


Assim que os guardas saram, as pessoas na 
cela resolveram fazer contato e se aproximaram de ns 
dois. A principio no falaram nada, apenas ficaram 
olhando estranhamente. Depois de examinarem, eles 
resolveram se comunicar. 

 Esto aqui por qu?  o senhor de meia idade 
tinha uma voz calma e pacifica. 
 Bem, no sabemos exatamente.  respondi 
constrangida. 
 Ento sejam bem vindos ao clube!  a jovem 
parecia um pouco amargurada. 
 Como assim bem vindos ao clube?  
Nicardo perguntou. 

 Podemos dizer que todos ns aqui no 
sabemos ao certo o motivo de estarmos presos.  o 
senhor mantinha a voz calma  Todos ns, em algum 
momento, fizemos algo que no agradou aos caprichos 
do novo rei e acabamos presos, sem direito de tirarmos 
satisfao. 
 Serio?  me assustei. 
 Esse Bianor  um porco!  a jovem quase 
cuspiu  No, isso  uma ofensa aos porcos. Bianor  
pior que as piores coisas que existe. No tem como 
comprar qualquer coisa sem que ofenda a honra destes 
lixos e porcarias que existem. 
 Mas vocs foram presos sem mais nem 
menos?  estava intrigada. 
 Podemos dizer que sim!  o senhor estava 
triste. 

 Bianor nos pegou da pior forma que poderia. 
 a moa novamente falava com nojo  Estvamos 
todos quietos, vivendo nossas vidas e fazendo o bem. 
Ento apareceram os guardas dele e disse que o que 
estvamos fazendo era um crime e que deveramos 
pagar por isso. 
 E o que vocs estavam fazendo?  perguntei. 
 Apenas ajudando as pessoas que estavam 
sofrendo com as batalhas que estavam acontecendo.  
o senhor respondeu. 
 Este foi o motivo?  perguntei indignada. 
 Acreditamos que sim.  o senhor mantinha o 
tom calmo. 
 Bianor tem sido muito impiedoso.  uma 
terceira pessoa saia de um canto escuro da cela  E 
nenhum de ns podemos fazer nada. 
A terceira pessoa era um jovem de cabelos 
loiros e olhos verdes. Ele vestia uma armadura 
dourada, mas que parecia muito velha e usava um 
brinco de prata na orelha esquerda. 

Diferente dos outro, esse jovem no parecia 
to desgastado e sujo. Tinha portes que lembravam um 
prncipe, mas tinha um ar de aventureiro. Seu olhar era 
forte e parecia ter visto varias coisas, das melhores at 
as piores. Suas expresses eram srias e tristes, mas 
parecia querer disfarar em uma falsa fora. 

Passos fizeram as conversas cessarem. 


Dois guardas chegaram at nossa cela. No 
conseguamos ver mais que os olhos e esses olhos no 
pareciam ter emoes nenhuma. Era estranho olhar 
para algum com aquele olhar. Era como se estivessem 
em um tipo de transe ou ento fossem mquinas. 

 Vocs dois!  um dos guardas disse. 
 Eu e ele?  perguntei. 
 No!  o guarda respondeu grosseiro  O 
velho e a gata. 
 Para onde vocs sero levados?  perguntei 
assustada. 
 Sem perguntas!  o guarda gritou  E vocs 
dois, calados! 
Assim que os guardas saram, as conversas 
voltaram quase que no mesmo ponto onde parou. 
Fiquei preocupada com o destino dos dois. No sabia 
quem eram, mas no suportaria saber que poderiam 
ser castigados por ajudarem os outros. 

 O que vai acontecer com os dois?  
perguntei. 

 Ningum sabe.  o jovem loiro respondeu  
Podem ser condenados a coisas simples e 
relativamente boas como se tornar escravo de Bianor 
ou ser transformado em uma criatura errante. Mas 
pode ser que sejam mortos ou transformados em 
comida de drago, o que no seria muito bom. 

 Comida de drago?  quase no consegui 
repetir. 

 De qualquer forma, depois de capturado,  
melhor no sair daqui.  ele deu um sorriso cnico.  
Agora, se me do licena, eu irei dormir. 
 Mas dormir aonde?  perguntei. O jovem 
apenas olhou para o cho. 
 No cho?  me assustei  Ns tambm? 
 A menos que tenha aprendido a dormir de 
p... 
A arrogncia deste jovem me lembrava algum, 
mas no me lembro quem. Esse jeito cheio de 
autoridade e com piadas sem graa era muito parecido 
com algum. Ser que era a pessoa que eu estava 
proibida de lembrar? O tal Alexis? 

 O que faremos agora Nicardo?  estava 
desesperada. 
 Ainda estou pensando. Tenha calma!  ele 
respondeu. 
 Calma, calma, calma.  comecei a andar de 
um lado para o outro  Tudo o que eu ouo so 
pessoas me pedindo para ter calma. 
 Ser mesmo?  ele perguntou. 
 Al?  uma voz surgiu do nada  Algum est 
me ouvindo? 
 O que  isso?  Nicardo perguntou. 
 Nicardo? Voc est bem?  a voz perguntava. 
 Parece que est saindo da sua bolsa!  eu 
disse chegando mais perto do saco de pano que ele 
tinha amarrado na cintura. 

 O comunicador!  Nicardo lembrou-se na 
mesma hora. 
 Ol? Est me ouvindo?  a voz parecia da 
Thalassa. 
 O que eu fao?  Nicardo perguntou. 
 Sei l.  fui sincera  Responda! 
 Ol?  ele respondeu com uma pergunta. 
 Nicardo?  era a voz de Thalassa  Est me 
ouvindo? 
 Estou!  Nicardo respondeu. 
 No encontramos nenhum sinal de Cosmo ou 
Levinda.  sua voz parecia preocupada.  E vocs? 
 Tambm no tivemos nenhum sinal de 
Camila, mas fomos presos!  Nicardo respondeu. 
 O que?  Thalassa se assusto  Mas como? 
 Bem, digamos que voltamos em uma hora 
errada e dois guardas estavam bem na nossa frente 
quando samos da passagem.  Nicardo tentava ser 
sarcstico. No estava conseguindo. 
 Tudo bem, ns vamos resgatar vocs!  
Thalassa estava mais preocupada. 

 No!  Nicardo quase gritou   muito 
arriscado. Vocs precisam encontrar Cosmo e Levinda. 
 Tem certeza?  Thalassa perguntou. 
 Absoluta!  Nicardo tentava parecer seguro. 
 Tales conhece um lugar seguro aqui em 
Calidora.  Thalassa tambm tentou parecer segura  
Vamos at l ver se conseguimos algumas informaes. 
 Tomem cuidado!  Nicardo sorriu. 

 Tomaremos!  Thalassa pareceu no estar to 
certa disso. 
 Agora  melhor voc desligar, acho que ouvi 
algum!  me intrometi na conversa. 
No estava errada. 

Dois guardas entraram com tochas e foram 
apagando todas as lamparinas acesas. No demorou 
muito at apagarem as da frente da nossa cela. A 
escurido s no foi total por causa das tochas que os 
dois guardas carregavam, mas assim que se foram tudo 
ficou um breu. 

A escurido no me assustava tanto a um bom 
tempo. Foi algo estranho sentir medo novamente do 
escuro. Mas acredito que ningum me culparia, 
principalmente se estivesse em meu lugar. Aquele 
mundo estranho, com seres estranhos e aonde desde 
que cheguei vivo com uma corda amarrada a garganta, 
apenas esperando algum chutar o banco. Estranho 
seria no estar com medo de tudo. 

Deitei nas pernas de Nicardo. Apesar da 
aparncia dele estar um pouco mais rude, sua pele 
continua macia e quente como sempre. Sentia-me at 
mal de dormir na perna dele enquanto ele dormia no 
cho duro. 

O sonho que tive foi um tanto... confuso. Talvez 
confuso no seja a melhor palavra, mas  a melhor 
que encontrei. 


Estava em um bosque. A sensao de j ter 
andado por aquele lugar me deixou um pouco enjoada. 
Minha cabea parecia estar rodando e rodando e eu 
no sabia o motivo. Quanto mais eu andava, mas eu 
ficava tonta at que algo me fez parar. 

 Ol?  uma voz vinda do nada. 
 Oi?  tentava achar a voz. 
 Aqui em cima!  a voz tentava se sinalizar  
Na rvore. 
Busquei em todas as rvores, at que achei um 
rapaz sentado no alto de uma das rvores  direita. Ele 
vestia uma cala marrom e usava uma camisa branca 
coberta por um tipo de manto verde, fazendo lembrar 
uma tnica. No conseguia ver o seu rosto, mas senti 
algo muito forte quando o vi. Algo que jamais havia 
sentido antes. 

 No acredita a saudades que estou de voc!  
ele parecia estar rindo. 

 Ns nos conhecemos?  perguntei. 
 Muito!  novamente ele pareceu rir  Talvez 
muito mais do que possa lembrar. 
 Ento mostre o seu rosto!  sugeri. 
 No adiantaria.  um tom de tristeza tomou 
sua voz  Eu estou muito diferente de quando nos 
conhecemos. 
 Mas faa a experincia!  tentei convencer-lo. 
 Melhor no!  ele ainda estava triste. 
 timo.  bufei  Mas Pode me dizer o nome? 

 No!  ele respondeu rpido. 
 Mas por qu?  meu pescoo comeava a 
doer. 
 No me lembro do meu nome.  ele voltou a 
ficar triste  Engraado. Lembro muito pouco de mim, 
mas lembro de tudo o que vivi com voc. Apesar de 
no lembrar minhas motivaes para eu fazer tudo o 
que me lembro que fiz com voc. 
 Acho que estamos passando por problemas 
parecidos.  sorri. 
 Onde voc est?  ele perguntou. 
 Bem, acho que isso  um bosque?  respondi. 
 No!  ele gargalhou  Aqui  onde eu estou. 
Quero saber onde voc est! 
 No estou entendendo.  fui sincera. 
 Voc est em uma dimenso paralela.  ele 
se deitou um tronco acima do que estava  Est  a 
dimenso dos sonhos. Desde que senti sua presena 
chegando a Ofir que venho tentando entrar nos seus 
sonhos. 
 Sonhos?  estranhei. 
 Cada pessoa tem uma dimenso paralela 
nica.  ele explicou  Por isso nossos sonhos nunca 
so os mesmos que o dos outros. Mas quando uma 
pessoa tem uma ligao muito forte com outra, essas 
dimenses podem se cruzar. Isso acontece muito com 
gmeos. No meu caso, voc  a nica ligao forte que 
tenho com o meu passado. Por isso consegui invadir 

seus sonhos. Agora se concentre e veja onde o seu 
corpo est. 

Tentei fazer o que ele pediu. A principio 
pareceu intil, mas depois algo comeou a acontecer. 
Era como se eu conseguisse ver atravs do cho. 
Abaixo de mim estava eu mesma, deitava nas pernas 
de Nicardo. 

 Pareo estar em uma masmorra.  comecei a 
lembrar  Sim! Eu estou em uma masmorra. Eu fui 
presa. Eu e o Nicardo fomos... 
 Nicardo?  ele quase caiu da rvore.  Voc 
diz Nicardo de Leander? 
 Parece que sim.  sorri  Voc deve conhecerlo. 
Ele  uma pessoa adorvel. 
 No sei no.  a voz dele tomou um tom 
familiar  Sinto que no posso cofiar nesse Nicardo. 
No gosto dele. 
 Mas voc pelo menos se lembra dele?  
perguntei. 

 At voc dizer o nome no.  ele estava um 
pouco zangado  Mas agora j comeo a ligar o nome  
pessoa. 
 Mas qual o motivo desta implicncia com ele? 
 me aborreci.  Honestamente, no sei por que tentei 
conversar com voc. No adiantou de nada. Continuo 
sem lembrar quem sou e ainda estou com tempo livre 
para odiar esse Nicardo. 
 Voc  estranho!  soltei. 
 Por qu?  ele gritou. 

 Algo em voc mexe muito comigo. Isso  
muito estranho!  respondi. 
 Quer saber, eu... Vem vindo algum! 
Aos poucos o minha conscincia voltava para o 
meu corpo. No sabia se ela realmente havia sado de 
l, mas era essa a sensao que tinha. Comecei a ouvir 
respiraes, conversas e roncos. Estava de volta. De 
repente um barulho veio de nossa cela. Fiquei quieta. 
Alguns passos se aproximavam de mim e ento senti 
um sacolejo. 

 Acordem!  a voz quase sussurrava. 
A escurido no me deixava ver nada, mas 
assim que meus olhos se acostumaram com o escuro 
comecei a identificar formas. 

 Nnive?  Nicardo tambm sussurrava. 
 Sim, sou eu!  apenas a voz dela estava na 
cela. 
 Voc est invisvel?  Nicardo perguntou. 
 Sim, estou invisvel.  ela respondeu 
sussurrando. 
 O que est fazendo aqui?  Nicardo 
perguntou. 
 Ajudando vocs a fugirem!  o rosto dela 
apareceu  Agora quer parar de fazer perguntas? 

CAPTULO 9 / PASSANDO O RESTO DA NOITE EM UM 
SUBMARINO 


V 
V
er o rosto de Nnive surgir do nada no meio da 
escurido foi realmente assustador. No que ela fosse 

feia, pelo contrario, mas ver um rosto flutuante no  
algo muito acolhedor. 

 Ento? Vo querer minha ajuda?  ela 
perguntou. 
 O que est acontecendo aqui?  o jovem 
acordou. 
 Espere! De onde ele saiu?  Nnive se 
assustou  Achei que tinha ordenado para que os 
guardas deixassem apenas vocs dois? Quanta 
incompetncia! 
 Mas o que voc est fazendo aqui?  o rapaz 
cochichou quando viu que alguns olhares comearam a 
se voltar para nossa cela. 
 Quem voc pensa que  para falar comigo 
desta forma?  Nnive se zangou, mas continuou 
cochichando. 
 Algum muito mais digno que voc!  essa foi 
um soco no estmago. Ponto para o jovem loiro. 
 Mas voc  muito petulante!  Nnive quase 
gritou  Eu nem deveria ajudar voc a fugir! 
 E quem disse que eu quero sua ajuda?  o 
jovem loiro tambm quase gritou. 
Essa cena me trousse algumas lembranas. Era 
estranho, mas essa cena me parecia bastante familiar. 


Era como se eu estivesse revivendo uma fase da minha 
vida. Como se estivessem fazendo um remake, onde eu 
era interpretada pela Nnive, mas quem era o jovem 
loiro na minha vida? Seria o Alexis? A pessoa que no 
tenho nada alm do nome como lembrana? 

 Vamos parar de chamar ateno?  Nicardo 
sussurrou. 
 Nicardo?  disse enquanto acordava de 
minhas memrias perdidas  Eu preciso dizer algo para 
voc, mas no me lembro o que era. 
 Tudo bem Beatriz, depois que voc lembrar 
voc conta.  Nicardo sorriu  Agora faa logo o que 
voc veio fazer Nnive! 
 Realmente e melhor nos apressarmos!  ela 
fez o resto do corpo ficar visvel  Ainda tenho que 
fazer um buraco nesta cela. 
 Buraco?  estranhei. 
 Obvio!  ela sorriu  Ningum pode saber que 
os ajudei a fugir. Seria pssimo para mim como esposa 
de Bianor, ajudar os inimigos. 
 S mostraria que voc tem algum carter e 
um pouco de corao!  Nicardo continuava magoado 
com a irm. 
 Pode deixar que no irei contar nada a Bianor 
de que os prisioneiros fugitivos eram vocs!  ela sorriu 
 Aqueles inteis no notaram que vocs eram um dos 
primeiros na lista de procurados por Bianor. 

 Agora era s o que me faltava!  Nicardo 
falou um pouco alto, mas depois voltou a cochichar  
Era s o que faltava! Voc entregar o prprio irmo! 
 Nnive?  segurei nas mos dela  Eu no te 
conheo, no sei quais so suas intenes e nem 
pretendo julgar-la quanto a isso. No sei o que te fez 
ficar do lado de Bianor, mas eu gostaria de pedir para 
que cuida da Camila para mim. No deixe que ela se 
case! 
 Mas farei isso com muito prazer!  ela sorriu 
 No desejo mau a nenhuma das escolhidas de Bianor, 
apenas quero que elas sumam da vida dele. Eu quero 
ser a nica! 
 Obrigada!  sorri agradecida. 
Nnive encostou a no na parede e um grande 
buraco apareceu. Era parecido com um portal mgico 
ou um buraco negro. A principio temi entrar ali dentro, 
mas talvez fosse nossa nica sada. 

 No tem outra forma de fugirmos?  
perguntei. 

 Sem que sejam vistos no.  Nnive 
respondeu  As entradas e sadas das masmorras so 
monitoradas por vrios guardas a noite. Consegui 
entrar por que estava invisvel. Apenas Bianor tem 
permisso de entrar livremente nas masmorras a hora 
que quiser. 
 Ento ser isso?  Nicardo disse mais 
conformado  Voc ir ficar mesmo? 

 Eu j fiz minha escolha!  ela respondeu  
No h nada que possa fazer para mud-la. 

 E ele?  perguntei apontando para o jovem 
loiro. 
 Podem me deixar aqui!  ele respondeu 
hspido. 
 Deixe de ser tolo!  Nnive brigo com ele. 
 No me chame de tolo!  o jovem quase 
gritou. 
 Se no fugir com eles ser morto!  Nnive se 
alterou. 
 Est me ameaando?  o jovem se levantou. 
 No!  Nnive se acalmou  Estou te 
alertando. Se voc ficar vai acabar levando a culpa e 
sendo morto. No desperdice essa oportunidade. 
 Prefiro morrer a aceitar sua ajuda!  o jovem 
era corajoso. 
 Voc  quem sabe!  Nnive bufou e parou 
por alguns segundos. Parecia estar pensando  Quer 
saber, agora eu quero que fique. 
 O que?  o jovem se assustou. 
 Sim.  Nnive sorriu  Eu quero que voc fique 
exatamente onde est. Isso  uma ordem. 
 Agora eu vou!  j havia entendido tudo  At 
parece que receberei ordens de voc. 
 No, voc no vai!  Nnive segurava o riso  
Eu exijo que fique. Isso  uma ordem. Voc tem a 
obrigao de me obedecer. 

 Pois fique sabendo que eu irei!  o jovem 
bateu as mos nas pernas para tirar a poeira. 
 Tem certeza?  perguntei. 
 O que esto esperando?  ele entrou na 
frente do portal. 
 Sejam rpidos!  foi a ltima coisa que ouvi 
de Nnive. 
Estvamos novamente no corredor. E 
novamente o corredor tinha uma aparncia diferente. 
Desta vez as pedras que faziam a parede eram cinza e o 
cho era de cimento. Um cheiro peculiar invadia o 
corredor. Era um cheiro de flores mofadas e terra 
molhada. No sei exatamente explicar. Era como se 
estivesse visitando a casa da minha av. 

 Espere um minuto!  o jovem rapaz parou 
assim que o portal se fechou  Ela usou psicologia 
inversa comigo? 
 Por que vocs homens so to fceis de 
engabelar?  sorri com a piada. E tambm com a cara 
de dio do jovem loiro. 
No decorrer do caminho o corredor foi 
mudando mais uma vez. Parecia que apenas eu notava 
essas metamorfoses. Aos poucos o corredor foi 
deixando as pedras cinza para trs e mudando para 
paredes de terra, com pilastras em madeira. Fazia 
lembrar uma mina ou algo do tipo. O cho havia 
deixado de ser cimento para se transformar em trilhos 


e ficava imaginando o que poderia estar passando 
dentro da cabea de cada um deles. 

 Eu no acredito que fui tapeado!  o jovem 
loiro resmungava baixo. 
 Ei, oh... Ei, voc!  no sabia como chamar-lo. 
 Est falando comigo?  ele perguntou. 
 Sim!  virei os olhos  Qual o seu nome? 
 Isso interessa?  ele foi rude. 
 Credo! S estava fazendo uma pergunta. Sem 
educao!  resmunguei. 
 Deixa o cara quieto!  Nicardo sorriu  Ele 
tem os motivos dele para no falar nada. 
 Mas precisava ser sem educao?  olhei feio 
para o jovem.  Acredito que iremos tomar rumos 
diferentes  o jovem tentou ser educado  ento para 
que dizer sobre mim? 
 Tudo bem, eu  queria ter a chance de ligar o 
nome a pessoa.  debochei. 
 Deixe o rapaz!  Nicardo sorriu. 
 E que...  de repente algo me veio  mente  
Preciso falar com voc! 

 Comigo?  o jovem loiro se assustou. 
 Com voc no, com ele!  respondi 
apontando para Nicardo. 
 O que foi?  Nicardo ficou preocupado. 
 No lembro.  fiquei constrangida  Mas era 
algo muito importante. 
 No fique forando demais!  Nicardo 
segurou minhas mos  Pode no ser bom para sua 

cabea. Se for importante, voc vai acabar se 
lembrando. 

 Mas  importante!  resmunguei. 
Novamente andamos por muito tempo naquele 
corredor. Se eu fosse claustrofbica j teria tido um 
ataque h muito tempo. Gostaria de dizer que o 
corredor no mudou novamente, mas ele mudou. 
Vrias e vrias vezes. Chegou certo ponto em que eu 
simplesmente cansei e parei de reparar. Era intil 
tentar entender o que estava acontecendo com ele. 
Quando estvamos todos comeando a acreditar que 
no sairamos mais daquele corredor, apareceu uma 
luz no fim do tnel. Literalmente. 

A luz brilhava feito ouro novo, reluzindo um 
amarelo cintilante que, em certo momento, chegava a 
cegar os olhos por alguns segundos. Andamos em 
direo a luz e o que encontramos foi uma maaneta 
de porta. Sem uma porta. 

 Ela est flutuando?  perguntei. 
 Parece que sim.  Nicardo sorriu. 
 Ser que essa  a sada?  o jovem loiro olhou 
torto. 
 Vamos tentar?  Nicardo levantou a 
sobrancelha. 
 Vamos!  respondi. 
 Voc primeiro!  Nicardo disse para o jovem 
loiro. 

 Eu o que?  ele estranhou. 
 Essa passagem leva para onde quiser, basta 
ter o local em mente.  Nicardo respondeu. 
 Mas eu no tenho nenhum lugar em mente.  

o jovem ficou serio  Posso sair onde vocs iro sair. De 
l eu me viro depois. 
 Tudo bem.  dei de ombros. 
Nicardo baixou a maaneta e uma linha branca 
seguiu fazendo o formato de uma porta. A linha 
cortava o corredor e lentamente foi se abrindo e 
revelando o local onde havamos deixado o submarino 
escondido. Assim que samos, a porta se fechou e a 
linha branca fez o caminho de volta at sumir 
completamente. 

 Espere!  disse assim que vi o jovem loiro 
seguindo em outra direo  Tem certeza que quer 
seguir sozinho? 
 Sim!  ele respondeu  Ser o melhor a se 
fazer. 
 Tem certeza mesmo?  insisti. 
 Beatriz, voc no ouviu o que ele disse?  
Nicardo olhou torto para mim. 

 Ento, acho que isso  um adeus.  sorri. 
O jovem acenou e seguiu em frente. Aos 
poucos sua imagem ia sumindo at desaparecer por 
completo. 

 Voc o conhecia?  perguntei para Nicardo. 

 Vamos entrando no submarino.  Nicardo 
disfarou  Pode ser perigoso ficarmos aqui. 
O submarino j havia voltado a ficar invisvel. O 
galho identificador estava flutuando. Era incrvel como 
aquele submarino parecia se adaptar a qualquer lugar 
que fosse deixado. Entramos no submarino vazio. 

 Vou tentar falar com Thalassa.  Nicardo 
sorriu tirando o comunicador do bolso  Oi? Algum 
est ouvindo? Ser que isso no  meio arriscado? 
 Oi!  era a voz de Thalassa  Nicardo? 
 Sim, sou eu!  Nicardo respondeu  Est tudo 
bem? 
 At o momento sim.  barulhos de conversas 
apareciam ao fundo. 
 Algum sinal de Cosmo e Levinda?  Nicardo 
perguntou. 
 Nenhum ainda.  a voz dela estava triste  E 
vocs? Esto bem? 
 Nnive nos ajudou a fugir novamente. 
Estamos no submarino agora!  ele respondeu. 
 E a Camila?  Thalassa perguntou. 
 No tivemos nenhuma notcia dela.  Nicardo 
olhava o nada  Mas Nnive prometeu cuidar dela caso 
a encontre. 
 Nicardo... Sei que ela  sua irm.  Thalassa 
controlava as palavras  Mas ser que podemos 
realmente confiar nela? 

 Neste caso sim.  Nicardo no tinha tanta 
certeza  Ela quer apenas afastar-las de Bianor. No 
acredito que faa algum mau a nenhuma das possveis 
futuras esposas de Bianor. 
 Acho melhor ficarem por ai.  Thalassa 
pareceu tentar se afastar do barulho  Vamos passar o 
resto da noite aqui. Faam o mesmo. Amanh ns 
seguiremos para o submarino e vamos todos juntos 
procurar por Cosmo e Levinda. 
 Realmente  o melhor no momento.  
Nicardo tentava se tranquilizar de algo. S no sabia 
exatamente o que. 

 Descansem!  Thalassa pareceu sorriu  Boa 
noite! 
 Thalassa?  Nicardo fez bico  Desligou! Que 
estranho. 
 O que?  perguntei. 
 Por que o comunicador no funcionou 
quando estvamos no corredor?  Nicardo coou a 
cabea  Eu fiz exatamente a mesma coisa. 
 Talvez Cosmo e Levinda j tivessem sumido 
naquela hora.  era a nica opo lgica que imaginei. 
 Pode ser.  Nicardo no parecia muito 
convencido. 
 Nicardo?  cheguei mais perto dele. 
 O que? 
 Ainda est me incomodando.  fitei-o 
preocupada  O meu sonho. O que eu no consigo 

lembrar. Sinto que era algo importante, mas no sei o 
que era. 

 Voc acha que foi um aviso?  ele estava 
preocupado. 
 No sei.  estava confusa  Sei que no foi 
um simples sonho. 
 Mas voc no se lembra de nada?  ele 
segurava minha mo  Quem estava no sonho? Voc se 
lembra? 
 No!  respondi. 
 Um lugar? Um fato? Nada?  ele insistia. 
 Nada! 
 Isso  preocupante.  ele me abraou  
Sonhos podem ser reveladores. Tente descansar um 
pouco. Ele deve estar ai. 

 Ser que consigo?  estava intrigada por no 
lembrar do sonho. 
 Consegue sim!  ele sorriu  Eu estou aqui. 
 Obrigada pelo apoio, mas no sei se vai 
adiantar. 
Algo estranho aconteceu quando olhei para o 
rosto de Nicardo. Sempre senti que o rosto que 
buscava sempre que olhava para ele no era o dele, 
mas pela primeira vez eu encontrei o que procurava. 

O rosto de Nicardo deixou de ser avermelhado 
e se tornou mais plido. Seus cabelos cresceram, at a 
altura do queixo de modo que no conseguia enxergarla. 
Seus olhos eram esverdeados e seus lbios faziam 


um M perfeito. Seu rosto se tornou um pouco mais 
delicado, mas ao mesmo tempo frio. 

 O que foi?  Nicardo estava de volta. 
 Como era o Alexis?  perguntei. 
 Por qu?  ele no havia gostado da 
pergunta. J esperava por isso. 
 De repente me deu vontade de saber.  
tentei parecer que perguntei por perguntar. 

 O Alexis era grosseiro, s vezes canastro e 
sempre autoritrio.  ele no parecia animado  Vocs 
dois no se suportavam. Brigavam a todo o tempo. Ele 
sempre te chamava de plebia insolente. Era um 
horror. 
 Tem certeza do que est dizendo?  
perguntei. 

 Absoluta!  ele bufou  Quando chegarmos a 
Capital pode perguntar para o Neandro. O irmo dele. 
Alias, j me arrependi de ter pedido para vir a Calidora. 
Se tivssemos seguido direto para a Capital estaramos 
todos juntos e prontos para lutar. 
 No se culpe!  o abracei  Veja s, se no 
tivssemos vindo no teramos encontrado a Camila. 
 E do que adiantou?  ele fitou o teto  Ela 
sumiu. Antes tivesse a deixado fugir. 
 E se ela tivesse sido capturada?  tentei 
consolar-lo  Ningum sabe o que poderia acontecer 
com ela. 
 Nada!  ele bufou  Bianor nunca faria mal as 
suas noivas. 

 Vamos parar com esse assuntou?  resolvi 
encerrar a conversa. 
 Foi voc que comeou!  ele bufou. 
 No essa conversa!  corrigi  Estvamos 
falando de outro assunto. 
 Ento vamos encerrar esse outro assunto?  
ele rebateu. 

 Tudo bem.  desisti  Voc no gosta mesmo 
dele. 
 Se ele nunca tivesse aparecido em seu 
caminho, talvez eu no tivesse nada contra ele.  
Nicardo comeou a fitar o cho  Tenho muito medo de 
ele voltar e voc me deixar. Agora que consegui voc, 
no quero te perder nunca. Mas eu sei que uma hora 
isso vai acabar acontecendo. 
 L vem voc com esse assunto de novo!  
ergui sua cabea  Eu j disse que no irei te deixar. Eu 
te amo Nicardo! 

 Talvez fosse melhor voc se lembrar de tudo 
de uma vez e reencontrar-lo.  ele estava triste  Se 
depois de tudo isso voc ainda quiser ficar comigo... 
 No fale mais nada!  coloquei o dedo em sua 
boca. 
No demorou muito para pegarmos no sono 
novamente. E novamente tive um sonho estranho. Mas 
desta vez foi um sonho muito mais estranho. Mesmo 
no lembrando do sonho anterior, tive certeza de que 
esse sonho era ainda mais importante. 


Eu estava em uma floresta. A chuva era fraca, 
mas eu estava completamente molhada. Uma pessoa 
estava sumindo. A cada minuto sua imagem ficava mais 
fraca e eu no conseguia reconhecer quem era. 

 Lembrar voc dele?  um ser esquisito me 
perguntava isso. 
 Eu no sei.  estava assustada. 
 Precisar voc lembrar dele.  o ser estava me 
rodeando  Se no lembrar, rapaz desaparece nunca 
mais voltar. 
A chuva foi ficando mais forte e a imagem da 
pessoa cada vez menos ntida. Eu estava ficando 
desesperada. Sabia que aquela pessoa precisava de 
mim para poder no desaparecer, mas eu no 
conseguia saber quem era. 

 Nicardo?  chutei. Nada aconteceu  
Neandro? Tales? Selena ou Thalassa? Linfa? Rei Celeo? 

A chuva ficava mais forte ainda e quase no 
conseguia respirar. Minha roupa j estava mais que 
ensopada e a pessoa que estava na minha frente estava 
sumindo cada vez mais. 

 Eu ao consigo!  gritei enquanto a chuva 
aumentava ainda mais. 
 Voc precisar, garoto sumir para sempre!  o 
ser baixinho continuava me pressionando. 
 Por favor, me deixe ir?  estava chorando de 
desespero  Eu no consigo mais lembrar. Eu no 
posso! Eu no posso! 
 Tente!  o ser falou. 

 Tente, tente, tente, tente, tente!  varias 
vozes surgiram das rvores. 
 Eu no consigo. No consigo!  a chuva ao 
dava trgua. 
 Faa um esforo.  a voz da pessoa a minha 
frente quase no saiu  Por mim. 
 Voc se chama... Voc se chama... Voc se 
chama... 
 Voc consegue!  uma voz feminina veio de 
trs de mim. Era Thalassa. 
 Voc consegue!  Tales apareceu do meu 
lado. 
 No poderia evitar para sempre!  Nicardo 
estava muito triste. 
 Voc se chama... Voc se chama... 
 No desista!  outra voz feminina surgiu, 
desta vez apenas dentro da minha cabea. 
 Alexis!  gritei  Voc se chama Alexis! 
Prncipe e herdeiro do trono da Capital! 

CAPTULO 10 / AO RESGATE! 


D 


iferente do que acontecia na maioria dos 
sonhos, no acordem no pice da emoo. O sonho 
simplesmente mudou de cenrio. De repente tudo 
ficou branco e eu estava flutuando no nada. No inicio 
foi estranho, mas logo me acostumei. Uma belssima e 
calma cano era tocada em um piano invisvel, pois 
por mais que tentasse no conseguia ver nada alm de 
branco. 

Minha mente estava um verdadeiro caos nos 
ltimos dias. Esses sonhos ajudaram muito neste 
colapso. Perde todas as informaes era um modo de 
minha mente dizer que estava cansada. No sonho tudo 

o que me vinha na cabea era: Como essa msica  
calma e bonita. Continuei descansando a mente 
flutuando no nada por um bom tempo. Ou me pareceu 
um bom tempo enquanto sonhava. Mas um sacolejo 
me fez voltar para realidade e me desligar daquela 
belssima cano que era a nica informao que 
continuava em minha mente. 
 O que vocs andaram aprontando?  era a 
voz do Tales  Seus safadinhos. No vai me dizer que 
vocs dois... 
 No!  levantei assustada. 
 No o que?  Tales tinha um sorriso malicioso 
no rosto. 
 No o que... O que?  estava meio confusa. 

 No liga no Beatriz.  Thalassa estava do 
meu lado  Ele viu muitas mulheres ontem  noite. 
Hoje ele acordou meio afetado. 
 Cad o Nicardo?  me assustei. 
 Estou aqui!  ele respondeu sentado na 
cadeira da mesa de controle  Voc estava to aflita e 
nervosa enquanto dormia, que quando voc se 
acalmou achei melhor no te acordar. 
 Vocs chegaram h muito tempo?  
perguntei. 

 No.  Thalassa respondeu  Chegamos agora 
e j temos que sair. O quanto antes melhor. 
 O que aconteceu?  levantei na mesma hora 
 Acharam o Cosmo e a Levinda? 
 Achar, achar ns no achamos.  Tales 
enrolava  Mas sabemos onde esto. 
 E onde eles esto?  perguntei aflita. A 
cano j havia se dissipado da minha mente. 
 Levinda foi levada para o castelo novamente! 
 Thalassa parecia preocupada  J o Cosmo foi preso 
por crime de sequestro. 
 Preso?  estranhei  Mas no o vi em 
nenhuma das celas. 
 E que ele no foi levado para as masmorras.  
sem dvida Thalassa estava preocupada  Ele foi levado 
para uma cela especial. Com um pouco mais de 
conforto. 

 Mais conforto?  no entendi. 

 Bianor no gosta que a ltima noite de seus 
condenados seja desconfortvel.  Thalassa parecia ri 
da ironia  A ltima noite tem que ser bem confortvel. 
 ltima noite? Espere! ltima noite?!  fiquei 
apavorada  Que dizer que vo matar o Cosmo? 
 Se no fizermos nada at as 10:00...  Tales 
ficou serio. 
 So que horas?  perguntei desesperada. 
 08:40.  Thalassa respondeu  Temos 1 hora 
e 20 minutos para chegar  praa do reino.  l que ele 
ser executado. 
 E o que estamos esperando?  gritei  Vamos, 
vamos! 
 Mas como vocs descobriram isso?  Nicardo 
perguntou. 
 Pouco depois de nos falarmos ontem, chegou 
um homem ao local e disse que havia resgatado uma 
das esposas de Bianor.  Thalassa respondeu  Como 
todas as noivas estavam tentando fugir, presumimos 
que a noiva era a Levinda e o sequestrador o Cosmo. 
 Provavelmente inventaram isso para Bianor 
no sair com m fama.  Nicardo estava indignado. 
 Ento vocs no tem certeza absoluta?  
perguntei. 

 Absoluta no.  Thalassa chegou perto da 
porta  Mas as chances de ser o Cosmo o sequestrador 
so muito grandes. Muito grandes mesmo. 
 Ento vamos logo ao resgate!  gritei. 

Seguimos do submarino direto para a praa. 
Thalassa havia feito uma roupa ilusria para podermos 
chegar sem sermos notados. A praa estaria cheia, mas 
no o suficiente para nos arriscarmos a mostrar o rosto 
antes do tempo. 

Quando chegamos  praa, o local estava cheio 
de curiosos, mas ainda no havia executado ningum. 
Estavam preparando as coisas ainda e no havia 
ningum com cara de carrasco no local da execuo. 

Misturamo-nos com o povo e tentamos ficar o 
mais escondido que foi possvel. Muitas das pessoas 
que estavam ali pareciam no saber da execuo e 
muitas iam embora quando descobriam o motivo da 
aglomerao. Isso seria maravilhoso, se no nos 
prejudicasse. 

 No vamos fazer nada agora!  Thalassa 
sussurrou  Vamos esperar at o ltimo minuto. 
 Mas isso no  arriscado?  perguntei. 
 Mas  a nica forma.  Nicardo havia 
entendido o plano  Se fizermos algo antes de termos o 
Cosmo em nossas mos, podem pedir reforos. 
 Agora eles sabero oficialmente que 
voltamos!  disse preocupada. 
 Eu sei disso.  Thalassa respondeu aflita. 
 E sabero que temos um submarino!  Tales 
complementou meu pensamento. 

Thalassa fechou os olhos e fez uma cara de 
Vou me arrepender muito, mas  a nica sada e 
respondeu: 

 Eu sei disso tambm! 
 Horas?  perguntei. 
 Parece j ser quase 10 horas.  Tales 
respondeu olhando o sol  Devem ser umas 10 para as 
10. 
 No sei se a roupa vai aguentar muito mais 
tempo.  Thalassa disse preocupada. 
 Essas roupas vo sumir?  me assustei. 
 A qualquer momento.  Thalassa respondeu. 
 Ento ns temos outro problema!  disse um 
pouco alto, mas ningum ouviu. Acho. 
 Olhem!  Tales disse apontando com a 
cabea para o centro da praa. 
Dois homens entravam no meio da multido e 
seguiam para o centro da praa. Junto com eles, um 
jovem sem camisa e com as mos amarradas s costas. 
Era Cosmo. Em seguida entrou outro homem, desta vez 
muito musculoso. Ele fazia lembrar um fisiculturista e 
tambm estava sem camisa. Na cabea, um grande 
saco preto onde s era possvel ver os olhos e o nariz. 
Ele levava um machado apoiado no ombro direito. 

 No disseram que seria enforcamento?  
algum disse no meio da multido. 

 Acho que mudaram de planos.  outro 
respondeu. 

 Tudo bem!  Thalassa cochichou  Ao meu 
sinal! 
 Certo!  dissemos todos juntos. 
Um homem magrelo entrou na frente de 
Cosmo e do fisiculturista com machado e comeou a 
tagarelar sobre alta traio, sequestro, punio 
severa e mais varias outras baboseiras que nos 
fizeram ganhar tempo. Ou perder tempo. 

... Por isso, esse homem que vos mostro hoje, 
foi condenado a mais severa e justa das punies 
criadas pelo dignssimo e futuro rei de Ofir Bianor 
Flabela do Corpeu de Ofir.  o magrelo saiu da frente. 

 Quando eu disse trs!  Thalassa cochichou.  
Um, dois, trs! 

Antes que o musculoso fisiculturista pudesse 
por as mos em Cosmo, Thalassa, Tales e Nicardo 
pularam para o centro da praa. 

 Acho que ningum ser executado aqui hoje! 
 Tales disse roubando uma das espadas que haviam 
sido cravadas onde Cosmo seria executado. 
 Sabe que eu tambm tenho essa impresso! 
 rapidamente Nicardo roubou a outra. 
 O que esto esperando?  o magrelo gritou  
Peguem-nos! 

Dois guardas partiram para cima de Nicardo e 
Tales. Thalassa soltava as mos de Cosmo enquanto o 
grando de machado partia para cima dos dois. Fiquei 


desesperada, mas Thalassa foi rpida e jogou uma bola 
de energia no peito do grandalho. 

Tales e Nicardo estavam indo bem com os 
guardas. Tales chegava como um trovo para cima do 
guarda e investia varias espadadas no adversrio, que 
defendia todas com muita habilidade. Nicardo estava 
tendo menos sorte e a todo o momento recebia 
investidas do outro guardas, mas sempre desviava. 

Thalassa continuava investindo em golpes de 
energia e Cosmo dava suporte criando um tipo de 
escudo protetor. O fisiculturista do machado era bem 
forte e grande, mas muito lento e pesado. Thalassa 
conseguia sempre desviar de seus golpes e acertar-lo 
com bolas de energia. 

 O que vocs esto fazendo?  o magrelo 
estava furioso  Incompetentes! 
 Beatriz!  Tales gritou  Um reforo, por 
favor! 
Fiquei paralisada com o pedido. Eu ainda 
estava no meio da multido. O que eu poderia fazer 
para ajudar-los? Se eu ao menos me lembrasse de algo. 
Qualquer coisa que pudesse ajudar-los. No sei. 

Thalassa comeava a ficar cansada e o escudo 
de Cosmo estava enfraquecendo. Tales e Nicardo 
continuavam firmes na luta, mas no sabia at quando 
eles iriam conseguir se manter fortes. Nicardo 
principalmente, ele parecia estar muito cansado. 


 Caramba!  Tales gritou quando o machado 
do fisiculturista voou para perto dele  Mas cuidado 
desse lado da luta! Espere, isso pode ser til! 
Tales pegou o machado e comeou a investir 
no guarda. O guarda conseguia se desviar. Tales jogou a 
espada, que veio rodando para perto de mim. S ento 
percebi que havia entrado no centro da praa. 

Impulsivamente pegue a espada e fiquei a 
segurando por um tempo. No sabia ainda o que iria 
fazer, mas sabia que deveria fazer alguma coisa. E 
precisava fazer alguma coisa bem depressa. 

Thalassa estava se recuperado, enquanto o 
musculoso que agora estava sem o machado s 
provava que tinha tamanho. Ele estava mais cansado 
que todos os outros que estavam brigando. 

 V e faa alguma coisa!  uma voz masculina 
ordenava em minha cabea  Voc consegue! 
Em um impulso de coragem, ergui a espada e 
fui para cima do grandalho. No sei como, mas de 
repente eu sabia o que fazer. Era como se j tivesse 
feito isso varias vezes. 

Pulei em suas costas e o golpeei na cabea. O 
monstro grandalho j estava tonto, depois do golpe 
ele cambaleou e caiu por alguns segundos. Das costas 
dele, pulei para cima do guarda que estava com 
Nicardo. Ele quase havia golpeado Nicardo na perna, 
mas acabou se distraindo comigo, que o golpeei no 
queixo com o punho. Tales havia conseguido perder o 
machado para o adversrio, instintivamente fui ajudar



lo e golpeei com a espada e em seguida fiz um corte na 
barriga do soldado que caiu gemendo de dor. O 
magrelo, que assistiu a tudo, saiu correndo quando me 
viu o fitando. 

 So eles!  o magrelo estava surpreso. 
 Acho que conseguimos!  Tales disse 
limpando o suor da testa. 
 Vamos tentar sair daqui o mais rpido 
possvel!  eu disse. 
 Acho que no vai dar tempo.  Cosmo falou 
olhando ao redor. 
Novamente estvamos cercados. Desta vez 
eram trs Leons que tinham chegado para se juntar  
festinha. 

 Vamos fugir?  perguntei. 
 Vamos tentar!  Nicardo falou. 
Corremos para fora do centro da praa 
empurrando a multido que parecia estar pensando 
que aquilo era uma pea de teatro. Os Leons foram 
mais grosseiros e passaram por cima de quem estava 
na frente deles. 

 Isso  pssimo!  Thalassa gritou.  Eles no 
vo parar! 
 No diga!  Tales disse debochado. 
 Acho melhor lutarmos.  Nicardo sugeriu  
Eles no iro parar de ns seguir. 

 Beatriz, voc sabe o que fazer?!  a voz 
novamente em minha cabea. 

Novamente senti que sabia. Entrei na frente de 
Cosmo, Thalassa, Thales e Nicardo e juntei as mos. 
Novamente era como se eu sempre soubesse como se 
fazia. Pensei em gua. Muita gua. Depois em pensei 
em fogo e uma energia estranha comeou a sair do 
meu peito e algo comeou a brilhar. Era o pingente de 
chave. Desde quando eu estava com ele? 

Tales, Thalassa, Cosmo e Nicardo pareceram 
entender o que eu estava prestes a fazer e deram 
alguns passos para trs. No mesmo instante uma luz 
comeou a surgir de minhas mos. Era uma energia 
muito forte. Eu no estava conseguindo segurar. Era 
como se estivesse com 1 tonelada em minhas mos. 
Quando no consegui mais aguentar, joguei a bola de 
luz no cho e tive uma grande surpresa. 

A bola de luz rolou at perto dos Leons. 
Aparentemente nada aconteceu. Os Leons olharam 
para a bola, esperando que algo acontecesse. Quando 
viram que nada estava acontecendo, voltaram s 
atenes para ns. Foi quando a bola comeou a 
flutuar. Ela ficou bem encima dos Leons e comeou a 
rachar. De dentro da bola, uma grande onde de gua e 
fogo comeou a cair. 

 Acho melhor sairmos logo!  Tales j estava 
correndo. 
A onda de gua e fogo comeou a inunda tudo. 
Nicardo me segurou e pulamos para sacadas de 
varandas das casas, tentando fugir das ondas que 


tomaram as ruas. Estava surpresa com o que tinha feito 
e comecei a me perguntar o que era aquilo. 

 O que iremos fazer agora?  Cosmo se 
perguntou. 
 Estamos cercados por gua e fogo!  Tales 
olhava para mim. 
 Esperem!  gritei enquanto o fogo comeava 
a queimar as casas. 
Concentrei-me e tentei pensar na bola de luz. 
Imaginei-a se enchendo com toda aquela gua e fogo. 
Eu sabia que podia, s no sabia como havia aprendido 
aquilo. Mas estava funcionando. Toda a gua e fogo 
que havia se alastrado pelas ruas comearam a formar 
uma grande parede, que ia crescendo e crescendo at 
alcanar a bola de luz, que estava no topo de tudo. 
Como em um passe de mgica, toda a gua e fogo 
voltaram rapidamente para dentro da bola, que voltou 
para as minhas mos e desapareceu. 

 Uau!  Tales soletrou as letras  Isso foi muito 
legal! 
No mesmo instante em que a bola sumiu, um 
imenso cansao bateu em meu corpo e no me pude 
aguentar de p. Desmaiei ali mesmo, na sacada de uma 
varanda qualquer. 

Eu estava novamente no lugar completamente 
branco do meu sonho. Novamente a nica coisa que 
passava em minha cabea era o quo bonita aquela 
cano era. Mas desta vez era uma cano diferente. A 


principio no havia notado, mas no decorrer da msica 
comecei a sentir a melodia diferente. 

 O que eu fiz hoje?  me perguntei. 
O que foi aquilo? Ser que eu sempre fiz algo 
do tipo? Eu realmente j havia aprendido aquilo? Ou 
ser que foi um momento de sorte? 

Minha cabea estava comeou a doer e resolvi 
parar de pensar nisso. A cano do meu sonho voltou a 
ser tocada. Lentamente meu corpo foi descendo e 
parou em algo solido que parecia ser o cho. Caminhei 
em direo a msica e acabei encontrando uma 
mancha preta, no muito longe. Aproximei um pouco 
mais e a mancha comeou a tomar forma de um piano. 
Um jovem de cabelos castanhos que estava tocando. 
Sempre que ouvia aquela msica a sensao que tinha 
era de que nada mais importava. Eu s queria estar ali, 
com aquela cano. 

Tentei chegar perto do pianista, mas parecia 
que quanto mais tentava me aproximar mais longe eu 
ficava dele. Eu tentei varias vezes, at que ele 
finalmente se virou e pude ver o rosto dele. Era o rosto 
mais belo que j havia visto. Ele se aproximou de mim, 
mas a msica no parou de tocar. 

 Estou esperando que me salve!  o rapaz 
falava  Apenas voc pode trazer de volta a pessoa que 
eu era. 
 Mas como?  perguntei. 
 Voc precisa se lembrar!  ele sorria. 

 Lembrar, lembrar, lembrar!  fiquei nervosa. 
 Tudo o que eu mais tento fazer  me lembrar! 
 No precisa se preocupar.  ele parecia calmo 
 Quando chegar  hora, voc se lembrar! 
 Mas onde eu irei encontrar voc?  
perguntei. 

 Voc j sabe.  ele segurou minhas mos e 
me corao disparou mais forte. 
 Quem  voc?  perguntei. 
 Voc vai ter que me dizer!  ele me abraou. 
 A nica coisa que sei e que te amo demais para te 
esquecer! 
Neste momento seus braos me seguraram 
mais fortes. Minhas pernas tremeram e meu corao 
estava perto de parar quando aconteceu. Eu no sei o 
que ocorreu em mim, mas senti que minha vida 
precisava daquele beijo. Naquele instante era como se 

o mundo fosse um completo nada e s restasse ns 
dois. 
 Eu no sei quem voc .  estava chorando  
No entendo o que est se passando comigo. Eu... At 
agora achava que tinha certeza do meu amor por 
Nicardo, mas de alguma forma era voc que eu estava 
procurando sempre que o via. 
 Beatriz?  ele sussurrava em meu ouvido  
No demore muito em me salvar, tudo bem? 
 Tudo bem!  respondi abraada nele. 
Aos poucos a sensao foi desaparecendo e me 
vi danando com o nada. Ainda no sabia como 


explicar o que havia acontecido ali, mas precisava  
mais que nunca  recobrar tudo o que havia vivido da 
primeira vez que estive em Ofir. 

 Beatriz?  uma voz me acordava. Era Nicardo. 
 Eu vou!  respondi ainda no sonho  Eu vou 
te salvar. S me diga onde te encontrar. 
 Salvar quem?  Tales perguntou  Acha que 
ela est delirando? 
 Acho que no.  era a voz de Thalassa  
Acredito que quando acordar Beatriz ter muitas coisas 
para contar. 

 Eu te salvo!  continuava repetindo. 
 O que ser que est acontecendo?  era a voz 
de Cosmo. Estava um pouco longe. 
 Beatriz?  Nicardo novamente tentava me 
acordar  Beatriz? Acorde! 
 No, eu preciso salvar!  no conseguia sair 
do meu sonho. 
 Ser que ela ficou... Sei l, traumatizada com 
o dia de hoje?  a voz de Tales se tornou um pouco 
mais distante. 
 Acredito que no.  Nicardo tambm se 
afastou  Desde ontem que ela vem me falando de um 
sonho muito importante. Acho que ela pode estar 
falando do Alexis. 
 Alexis?  Cosmo perguntou. 
 O que voc acha que foi?  Thalassa se 
aproximou de mim. 

 No sei. Talvez ele esteja preso em algum 
lugar.  Nicardo comeou a explicar  Ele deve ter 
sentido a nossa presena e tentou se comunicar com a 
Beatriz atravs dos sonhos. 
 Ser que ele est no sonho dela agora?  
Thalassa perguntou. 
 Beatriz?  Nicardo novamente me chamava  
Onde voc est? 

 No nada.  respondi. 
 Voc est acompanhada?  Nicardo 
perguntou. 
 No.  respondi  Ele j foi embora. 
 Ele quem?  a voz de Nicardo ficou tremula. 
 No sei.  respondi  O garoto que me ama. 
 Droga!  Nicardo pareceu chutar algo  E 
como  esse garoto? 
 Cabelos castanhos e grandes, com olhos 
verdes.  respondi  Ele  lindo e me beijou. 
 Beatriz acorde agora!  Nicardo gritou. 
 O que?  acordei assustada  Onde estamos? 
 Voltamos para o submarino.  Thalassa sorria 
 Voc nos salvou, mas usou uma energia mgica muito 
alm da que voc consegue produzir. Isso acabou 
esgotando completamente as suas energias e voc 
desmaiou. 
 Voc teve sorte!  Nicardo no estava com 
uma cara muito boa  Poderia ter morrido. 

 Eu...  tentei me levantar, mas ainda estava 
cansada  No sei como fiz aquilo. Uma voz surgiu na 
minha cabea e de repente eu sabia o que fazer. 
 Mas vamos evitar isso enquanto voc no 
recuperar completamente a sua memria.  Nicardo 
advertiu. 
 Desculpe.  disse pondo a mo na cabea. 
 Agora me conte uma coisa.  Nicardo estava 
serio  O que voc estava fazendo em seu sonho? 

CAPTULO 11 / UMA CARTA MUITO ESPECIAL 


C 
C
onfesso que quando Nicardo perguntou o que eu 
estava sonhando, meu rosto ficou quente e 

provavelmente vermelho. Eu lembrava exatamente 
tudo o que havia acontecido naquele sonho. A leveza e 
suavidade da cano, o pianista, o beijo  
principalmente o beijo  e tudo o que senti quando o 

vi. E eu no queria contar isso ao Nicardo. 
 Eu no me lembro direito.  menti. 
 Voc disse que estava sonhando com o rapaz 
que te ama.  o cime era mais que visvel em Nicardo 
 E pela descrio que voc fez o rapaz no era eu. 
 Descrio?  ainda no acreditava que havia 
falado dormindo  Ah, descrio! 
 Sim, sim!  Nicardo estava furioso  O rapaz 
de cabelos castanhos e olhos verdes. Voc sabe quem  
esse rapaz? 
 Quem?  tentei evitar os suspiros. A 
lembrana do beijo ainda estava muito forte. 
 Alexis!  ele respondeu. 
 E a primeira vez que voc sonha com ele?  
Thalassa perguntou, muito calma. 

 Acho que no.  respondi tentando me 
levantar novamente  Apesar de no ter visto o rosto 
nas outras vezes, acho que esse  o terceiro sonho que 
tenho com ele. 

 E voc se lembra dos outros sonhos?  
Thalassa estava evitando que Nicardo fizesse as 
perguntas. 

 Eu estou comeando a lembrar.  os sonhos 
comeavam a vir em minha mente  Sim, agora eu me 
lembro! 
 Ento nos conte!  Thalassa me fez sentar. 
 A primeira vez eu estava em um bosque.  
comecei a contar o que lembrava  Havia um rapaz no 
topo de uma rvore. Ele disse que estava esperando 
por mim, que no lembrava quem ele era, mas 
lembrava de mim. 

 Espere um minuto!  Tales me interrompeu  
Voc disse bosque? 

 Acho que sim.  forcei a mente  Pelo menos 
parecia um bosque. 
 Ser que...  Tales franziu a testa. 
 O Bosque Perdido!  Cosmo socou a mo. 
 Vocs conhecem este lugar?  perguntei. 
 Sim!  Tales respondeu  E um bosque 
encantado. Quem entra l e no sai em 24 horas acaba 
se transformando em um ser do bosque. Voc no se 
lembra? 
 Eu j estive l?  perguntei. 
 Com exceo do Cosmo, todos ns j 
estivemos.  Thalassa respondeu. 
 Vocs acham que... 
 O Alexis pode ter se tornado um ser do 
bosque?  Tales completou minha frase  Sim. Isso 

explicaria o fato dele ter se esquecido de quem ele era. 
Mas ele deveria esquecer voc tambm. Isso  
estranho. 

 Talvez ele ainda no tenha se transformado 
por completo!  sugeri  Isso pode acontecer? 
 No sei.  Tales respondeu  Nunca soube 
como funciona essa transformao. Mas parece uma 
hiptese plausvel. Algum motivo em especial para 
achar isso? 
 Sim!  respirei fundo  O meu segundo 
sonho. 
 O que aconteceu em seu segundo sonho?  
Thalassa perguntou. 

 Eu estava no mesmo bosque, com um ser 
esquisito.  tentava me lembrar com clareza  E tinha 
uma imagem de uma pessoa quase desaparecendo. 
No sei explicar, mas u sabia que apenas eu poderia 
salvar-lo. Talvez isso seja um sinal de que ele ainda 
possa voltar. 
 E o terceiro sonho?  Nicardo perguntou de 
propsito. 
 Esse no foi nada importante.  menti  S 
me lembro dele pedindo para que eu o resgate o mais 
depressa possvel. 
 S isso?  Nicardo me olhou feio. 
 Que eu me lembre...  fingi desinteresse. 
 Acho que devemos resolver isso junto com 
Neandro.  Thalassa se levantou  Ele  o irmo. Acho 
que precisa saber disso. 

 Ns j estamos indo para a Capital?  
perguntei. 

 J estamos chegando.  Cosmo disse da mesa 
de controle. 
 Eu fiquei dormindo por quando tempo?  
levantei assustada. 

 1 dia e meio.  Thalassa sorriu. 
 Tudo isso?  gritei. 
Estava surpresa com o tempo que havia ficado 
desacordada. Pareceram minutos. Ser que haviam 
acontecido mais coisas em meu sonho? Talvez eu tenha 
ficado apenas flutuando no nada e descansando. 

Minha mente parecia mais leve e meu corpo 
descansado  fazia tempo que no tinha essa sensao. 
Eu no estava apenas descansada, eu estava 
revitalizada. Estava cheia de energia e disposio. 

No demorou muito para chegarmos a to 
famosa Capital. 

 O lugar est cercado de guardas.  Cosmo 
disse, ainda dentro do submarino  Vamos esperar um 
pouco para sair. 
 Mas eles no so contra Bianor?  estranhei. 
 Mas  melhor prevenir.  ele continuava 
olhando. 
 E at quando ficaremos aqui?  perguntei. 

 At acharmos que  seguro sair!  Cosmo 
respondeu. 
  melhor assim.  Tales tambm olhou pelo 
binculos do submarino  No estamos em condies 
de arriscar. 
 Eu quero olhar tambm!  senti-me uma 
garota de 12 anos. 
Comecei olhando da esquerda para direita. 
Havia muitas pessoas e todas pareciam bem atentas. 
Talvez o momento seguro nunca chegasse. 

Para um reino que havia ficado contra Bianor, 
eles estavam muito bem. Pelo menos no porto. Acho 
que estavam conseguindo se virar muito bem sozinhos. 

 Espere!  disse ao avistar uma pessoa  Eu 
conheo esse homem! 
 Que homem?  Tales tomou o binculos (ou 
seja l o que  aquilo).  Mas  o Neandro! 
 Neandro?  gritei  O nosso Neandro? Digo, o 
que ns conhecemos? 
 Ele  o nico Neandro que existe.  Nicardo 
ainda estava bravo comigo. 
 Ento o que estamos esperando?  disse indo 
em direo a porta do submarino  Vamos logo falar 
com ele! 
Mesmo com um conhecido no local, Cosmo e 
Tales acharam melhor sair do submarino o mais 
discretamente possvel. No sabamos se poderamos 


confiar em todos que estavam ali e nem sabemos at 
onde estvamos seguros. 

 Neandro?  Thalassa se aproximou. 
 Sim?  ele se virou e arregalou os olhos  
Vocs! 

 Achou que nunca mais ns veria?  Tales 
perguntou. 
 Honestamente?  Neandro sorriu  Com os 
ltimos acontecimentos, eu achei. Mas que timo que 
estava errado! Eu estava morrendo de saudades de 
todos! 
 Ns tambm estvamos morrendo de 
saudades de voc!  Thalassa disse com um sorriso 
aliviado. 
 E quem  esse rapaz? Eu no o conheo.  
Neandro olhou para Cosmo. 
 Esse  Cosmo, ele agora faz parte do grupo.  
Thalassa respondeu. 

 E sabe lutar?  Neandro perguntou. 
 No muito, mas crio timos apetrechos e 
estou me especializando em magia  Cosmo respondeu 
constrangido. 
 Isso  bom!  Neandro botou a mo no 
ombro de Cosmo  Nunca sabemos quando iremos 
precisar de reforos mgicos. E voc Beatriz? 
Encontrou com o Alexis? 
 Na verdade era sobre isso que queramos 
conversar com voc.  Thalassa olhou para os lados  
Mas acho que esse no  o melhor lugar. 

 Claro.  Neandro notou de imediato que o 
assunto era serio e sigiloso  Vamos para minha casa. 
Tenho alguns cavalos sobrando presos aqui no porto. 
 Cavalos?  me assustei  Eu no sei. No sou 
muito boa em cavalos. 
 Deixe de bobagem Beatriz!  Neandro sorriu 
 Voc montava muito bem. Com um pouco mais de 
treino poderia ser uma perfeita amazona. 
 Do que ele est falando?  ri nervosa. 
 Ns teremos muita coisa para conversar.  
Nicardo fitou Neandro sugerindo que esperasse pela 
conversa. 

Subi em um cavalo no foi uma experincia 
traumtica. E com Nicardo conduzindo me senti um 
pouco mais segura. Talvez o fato de j ter andado antes 
tivesse ajudado. A sensao era de que eu nunca havia 
deixado de montar em minha vida, esmo eu no me 
lembrando de alguma vez j ter montado em um 
cavalo. 

No caminho Neandro relembrou varias 
aventuras que vivemos juntos. Contou sobre o dia que 
eu joguei um balde de gua na cabea do Alexis e em 
seguida escorreguei e bati com o nariz  coisa que, 
apesar de no lembrar,  a minha cara  e contou 
tambm sobre o dia em que eu derretei um monstro 
de duas faces. Contou sobre lutas com drages e um 
ser de fogo em um trem. Eram tantas coisas que eu no 


lembrava, tantas situaes que ningum conseguiria 
esquecer nunca na vida. Por que eu as esqueci? 

O tempo passou rpido com a conversa e logo 
chegamos  casa de Neandro. 

A casa era muito familiar. Como se j tivesse 
morado por ali. A cerca de madeira que rodeava a casa, 
as montanhas ao fundo, a grande rvore ao lado da 
casa. Aos poucos eu fui reconhecendo todas as coisas. 

 Voc...  andei alguns passos a frente deles  
Voc me deu aula de magia naquelas montanhas. Eu 
estou lembrando! Eu estou lembrando! 

 Espere!  Nicardo correu para o meu lado  O 
que mais voc lembra? 
 Eu me lembro de algum gritando comigo no 
dia em que cheguei.  fechei os olhos  Lembro de 
varias pessoas me olhando feio nas ruas e de um lobo 
imenso com olhos de fogo. 
 Lembra de mais coisas?  Thalassa 
perguntou. 
Neste momento uma bela moa de cabelos 
loiros saia da casa e vinha em nossa direo. Pela 
primeira vez eu sabia exatamente quem era. 

 Linfa!  gritei. 
 Beatriz!  ela correu e me abraou  Voc 
voltou! 
 Linfa voc est bem!  de repente eu sabia 
que ela havia sido envenenada. As coisas comearam a 

surgir em minha mente   voc est mais linda queda 
ltima vez que a vi. 

 Voc tambm est tima!  ela sorriu  E 
gostaria de agradecer a voc. 
 Sobre o que?  estranhei. 
 Soube que voc desistiu do seu pedido para 
poder me salvar e salvar a Rainha Alina.  ela me 
abraou novamente  Isso foi o maior ato de bondade 
que algum j fez por mim. 
 Desculpe...  fiquei constrangida  Eu no me 
lembro disso. 
 Vamos entrar?  Tales percebeu o clima 
estranho que ficou. 
Dentro da casa, mais lembranas. Lembrei de 
um livro que havia encontrado na estante de livros, de 
quando a Linfa desmaiou na cozinha, lembrei 
novamente do lobo. Foi a primeira grande recuperao 
que tive desde que cheguei. 

Nicardo e Thalassa contaram tudo o que havia 
acontecido comigo nos ltimos meses. Nicardo contou 
sobre as coisas na Terra e sobre me treinar para 
aprimorar minha magia e fortalecer o meu corpo. 
Contou sobre a minha perda de memria, sobre os 
portais que Bianor estava abrindo e sobre a Camila, a 
Levinda e a Layla. 

Thalassa contou  parte que Nicardo no quis 
contar. Ela falou sobre as anotaes de Alexis e a busca 
pela me, assim como o seu desaparecimento  coisa 


que Neandro j sabia. Ela contou sobre os meus sonhos 
e sobre a possibilidade de Alexis estar preso no tal 
bosque e estar se tornando um ser do bosque. 

 Isso  muito ruim!  Neandro respirou fundo 
 Mandar tropas para o bosque  muito arriscado. Se 
Alexis est se transformando em um ser do bosque 
corre o risco de nem encontramos. Por que ele sempre 
faz isso? 
 Mas de qualquer forma tnhamos que te 
avisar.  Thalassa tentava consolar-lo de alguma forma. 
 No, claro, vocs estavam certssimos!  
Neandro se entristeceu  Foi bom eu saber disso. 

 Espero que no seja tarde.  Linfa abraou 
Neandro. 
 Mas uma coisa me intriga.  Neandro fitou o 
nada e depois voltou a olhar para ns  Por que ele no 
esqueceu tudo? Por que ele esqueceu apenas de quem 
ele era? Isso no faz muito sentido. 
 Ns acreditamos que essa transformao 
posso ser gradual.  Cosmo falou. 
 Mas ainda assim no faz sentido para mim.  
Neandro estava mesmo intrigado  Vou ter que 
conversar com meu pai para tomarmos alguma 
providencia. Falarei com ele ainda hoje. 

 Mas como andam as coisas por aqui?  
Nicardo perguntou. 

 Nada boas!  o rosto de Neandro se abrumou 
 Estamos passando por mementos de muita 
dificuldade. Estamos fazendo o possvel e o impossvel 

para proteger as barreias da Capital. Recebemos alguns 
reforos de Menelau, mas eles tambm esto passando 
por dificuldades. No caso deles e ainda mais grave. O 
risco de acontecer em Menelau o que aconteceu em 
Leander  muito grande e acabamos recusando o 
reforo para o bem do reio deles. 

 Mas as coisas esto assim to ruins?  
perguntei. 

 Esto.  Neandro assentiu triste  Desde que 
os reinos de Neide e Calidora se juntaram a Bianor as 
coisas ficaram quase fora de controle. As tropas de 
Bianor so muito mais fortes que as nossas e as de 
Menelau. Se nem Leander, que tinha uma excelente 
tropa, conseguiu deter-los. E eles ainda tiveram a ajuda 
das tropas de Sotero! Acabaram os dois da mesma 
forma. Ser uma questo de tempo at que as nossas 
tropas no resistam mais. 
 Ento vocs esto em estado crtico!  Tales 
se preocupou  Vocs necessitam de um meio para se 
fortalecerem. 
 Mas como encontraramos esse meio?  
Neandro perguntou  No podemos nos distanciar da 
Capital, precisamos de toda a tropa aqui. Pensamos em 
varias formas, mas nenhuma funcional. Pelo menos no 
com total eficcia. Eu nunca imaginei que diria isso, 
mas o mundo de Ofir pode estar com os dias contados. 

 No pense assim!  Cosmo tentou animar-lo  
Beatriz voltou. Ns temos uma nova esperana. 

 Esperem!  eu disse  Ainda no posso ser 
chamada de esperana. Enquanto no me lembrar de 
tudo o que aconteceu eu serei intil para vocs. 
 No!  Nicardo quase gritou  No viu o que 
voc fez em Calidora? O jeito como voc desenvolveu a 
sua magia? 
 E olha como eu terminei?  gritei  Dormindo 
durante quase 2 dias. 
 Mas o Cosmo tem razo!  Neandro se 
animou  O fato de voc estar aqui j  um timo 
motivo para termos esperana.  sinal de que a nova 
profecia est se cumprindo. 
 Eu... Eu no sei.  fitei o cho. 
 Quer um copo dgua?  Linfa perguntou. 
 No, obrigada!  respondi. 
 No seja tmida. Tem certeza?  ela me olhou 
de forma estranha. 
 Acho que aceito sim.  fui ver o que ela 
queria. 
 Desculpe te tirar assim de repente, mas  que 
tinha que te entregar algo antes de voc ir embora.  
Linfa falou baixou  Tome a gua e venha comigo. 
Eu me lembrava de absolutamente tudo 
daquela casa. Cada mvel, cada cmodo, cada 
corredor. Estava tudo de volta a minha cabea, como 
se nunca tivesse sado de l. 

Linfa me levou at o quarto onde eu dormia 
quando fiquei morando com eles. Novamente todas as 


informaes apareceram em minha mente como se 
nunca tivessem sido perdidas. Estava tudo igual. 

A janela estava aberta e um vento fresco 
entrava no quarto. Lembrei das noites que passei ali, 
olhando pela janela a grande rvore e as trs belssimas 
luas que brilhavam cheias todas as noites. Os mveis 
estavam do mesmo jeito e at o cheiro parecia igual da 
poca em que dormia ali. A cama que parecia um 
tronco entalhado continuava a mesma. Deitei e 
relembrei os velhos tempos. 

Ter novamente minhas memrias  mesmo 
sendo apenas uma parte delas  estava e fazendo 
muito bem. Parte do peso que eu carregava havia sido 
tirado quando recobrei as lembranas deste lugar. Foi 
uma sensao inexplicvel e inigualvel. No conseguia 
nem imaginar como seria quando eu recobrasse toda a 
minha memria. 

Linfa abriu uma gaveta e pegou um pedao de 
papel, que estava dobrado ao meio. 

  uma carta!  ela sorriu e me entregou. 
Abri a carta e olhei os vrios smbolos 
estranhos. No consegui entender nada do que estava 
escrito e tentei demonstrar isso apenas com as minhas 
expresses de confuso. Surtiu efeito na mesma hora. 

 Desculpe!  Linfa tapou o rosto  Acho que 
voc ainda no se lembrou da nossa escrita. 
 Se no for incomodar, poderia ler para mim? 
 sorri. 

  uma carta do Alexis.  ela falou baixo  Ele 
pediu para te entregar caso voc voltasse e algo tivesse 
acontecido com ele. 
 Nossa! Leia!  estava curiosa. 
Linfa comeou a ler. 
Beatriz, 
Algo de ruim deve ter acontecido comigo, caso 


o contrario no estaria lendo essa carta. 
Eu fui atrs de minha me. Fiz algumas 
pesquisas e descobri vrias pistas de vrios possveis 
lugares onde ela pode ter sido aprisionada. Eu espero 
ter conseguido ao menos achar minha me no 
momento em que estiver lendo essa carta, mesmo que 
no possamos nos encontrar novamente. 

Eu queria que voc soubesse que toda a minha 
vida no significava nada at voc aparecer. Seu jeito 
arrogante e prepotente, a forma como me enfrentava e 
desafiava a prpria sorte s me fez te admirar ainda 
mais. Eu tenho muito orgulho de ter tido a 
oportunidade de conhecer e me apaixonar por voc. 

Eu peo desculpas por todas as coisas que eu fiz 
e disse. Eu fui um estpido em negar a mim mesmo que 
estava sentindo algo to puro e nobre por voc. Todas 
as lembranas, absolutamente todas (das boas as 
ruins), estaro eternamente guardadas em meu 
corao. 

Queria ao menos ter tido uma chance, apenas 
uma, para dizer tudo isso a voc pessoalmente. Uma 


chance de poder te pegar nos braos e dizer Beatriz, 
sua plebia insolente, eu te amo! 

Sei que nesse momento voc j deve ter se 
acertado com o Nicardo. No vou dizer que fiquei feliz 
por isso porque seria mentira, mas  bom que voc 
esteja sendo cuidada por ele. Apesar das nossas 
desavenas, ele  um bom rapaz e vai saber fazer-la 
feliz. Claro que no como eu poderia fazer. 

Desculpe se eu no consegui evitar que essa 
carta chegasse as suas mos. Mesmo ainda no tendo 
feito nada, eu juro que tentei fazer o meu melhor (pois 
 isso que pretendo fazer) para dizer tudo o que estou 
escrevendo para voc. 

Eu te amo mais que qualquer outra coisa e 
tentarei imaginar que voc sente o mesmo por mim 
quando quiser algo para me reconfortar. 

Voc estar para sempre em minha lembranas 
e no meu corao. 

Alexis 

No tinha notado ainda, mas meus olhos 
estavam cheios de lgrimas. Estava me sentido um 
monstro, a mais horrenda e insensvel das criaturas. 
Toda a leveza que havia ganhado quando recobrei 
parte de minha memria foi substituda pelo peso da 
culpa. Como eu pude esquecer-me de algum que me 
amou tanto? Agora eu entendia perfeitamente o medo 
de Nicardo em relao ao Alexis. 


 Posso olhar?  estava tremula  E-e-essa  a 
letra d-d-dele? 
 Sim!  Linfa tambm parecia emocionada  
Eu mesma o vi escrevendo. 

 E como ele estava?  perguntei. 
 Exatamente como voc est agora.  ela 
respondeu  Esconda isso, vem vindo algum! 
No mesmo momento bateram na porta. Linfa 
foi abri enquanto eu escondia a carta dentro do meu 
short. O que foi um pouco desconfortante, j que o 
papel pinicava o meu bumbum. Uma quebra total de 
clima. 

 Lembrou de mais alguma coisa?  Nicardo 
perguntou. 
 Apenas do que vivi aqui.  respondi olhando 
disfaradamente para o meu traseiro. Aparentemente 
a carta no estava visvel. 
 Ao poucos voc ir se lembrar.  ele sorriu. 
Fiquei em dvida se contava ou no sobre a 
carta para Nicardo. Ser que ele atrapalharia a minha 
recuperao por causa disso. Algo me dizia que eu no 
sentiria mais o mesmo que sinto pelo Nicardo quando 
recobrasse a memria. Ou melhor, o que eu sentia pelo 
Nicardo j estava mudando. Acho que no cumpriria a 
promessa que fiz a ele em Leander. Eu j estava 
comeando a deixar-lo. 


CAPTULO 12 / UMA CONVERSA COM O REI E OUTRAS 
SURPRESAS 


S 
S
amos do quarto como se eu no tivesse feito nada 
alm de pegar um copo dgua e rever meu antigo 

quarto. Aparentemente ningum desconfiou que 
pudesse ter acontecido algo mais. Desde que Nicardo 
no desconfiasse, o resto estava timo. 

 Eu estou a caminho do castelo.  Neandro 
falou  Gostaria que voc e o Nicardo viessem comigo. 
 Mas por que ns dois?  perguntei apenas 
para disfarar. 
 Ser bom que vocs contem a histria.  
Neandro sorriu  Fora que papai vai ficar muito feliz em 
rever-la. 

 Eu?  desta vez estava realmente surpresa. 
 Sim.  Neandro no parecia to surpreso  
No se lembra que papai, ou melhor, o Rei Cleo 
sempre gostou de voc? 
 O rei?  perguntei novamente surpresa. 
 Com calma voc ir se lembrar!  Nicardo 
sempre tentando me consolar. 
 E os outros?  perguntei. 
 Eles decidiram ficar e descansar.  Neandro 
respondeu  Pelo visto viajar em um submarino deve 
ser mais cansativo do que imagino. 
Na verdade no achava que pudesse ser, mas 
acreditava que estivessem cansados. Tudo o que nos 
aconteceu... foram coisas bem cansativas. Acho que 


no tiveram tempo para relaxar de verdade e recuperar 
todas as energias que foram perdidas. 

O caminho para o castelo me trousse algumas 
recordaes. Algo sobre como conheci Nicardo. Eu 
estava me lembrando. A feira no estava mais ali, 
porm o local continuava o mesmo. Eu no consegui 
me lembrar com clareza de tudo como me lembrei da 
poca que morei com Linfa, mas estava feliz. Desde 
que cheguei a Capital que grandes progressos 
aconteceram. 

A cidade comeou a voltar na minha memria. 
A cada novo passo que dvamos era como se novas 
lembranas reaparecessem. Estava me lembrando das 
casas e da praa. Lembrei do grande relgio e de como 
consegui o primeiro cristal. 

 Nicardo?  resolvi contar  Estou me 
lembrando de tudo! 
 Tudo o que?  Nicardo tentava esconder a 
preocupao. 
 Essa cidade.  sorri  Est tudo voltando a 
minha mente. Est vendo aquele relgio? Foi ali que 
achamos o primeiro cristal. 
 Achamos?  Nicardo tinha um tom 
enciumado e preocupado na voz  Voc estava com 
quem? 
 Eu e...  um branco surgiu em minha cabea  
Eu e... voc? 


Nicardo suspirou aliviado e balanou a cabea 
negativamente. Tentei lembrar quem estava comigo, 
mas Nicardo segurou minha mo e encostou minha 
cabea o ombro dele. J sabia o que significava: No 
fique pensando nisso. 

 Voc est fazendo progressos.  Nicardo ficou 
serio  No force tanto a mente. Deixe que as coisas 
voltem naturalmente. Acho que a aproximao sua 
com as lembranas que viveu com o Alexis esto te 
afetando de alguma forma. 
 Ser?  estranhei. 
O castelo me trousse mais lembranas. Em sua 
maioria, lembranas ruins. Lembrei de ter sido 
amarrada e amordaada. Lembrei tambm dos 
sentimentos de dio e medo que passei ali. Deveria ser 

o ltimo lugar que eu gostaria de estar, mas algo que 
no conseguia lembrar me deixou com a sensao de 
que tudo o que eu vivi ali valeu a pena. 
As lembranas vinham mais rpido do que 
antes. O castelo havia se tornado um velho conhecido. 
Seria realmente a aproximao com o Alexis que estava 
fazendo a minha memria voltar? Mas ento qual seria 

o motivo que impedia de eu me lembrar do Alexis? 
Neandro entrou na sala do rei. Eu e Nicardo 
ficamos esperando. Pouqussimos minutos depois 
Neandro nos chamou e entramos na sala. A lembrana 
foi imediata. 

 Rei Cleo!  disse sorrindo. 

 Beatriz, no sabe o quanto estou feliz em 
rever-la!  a voz do rei era um pouco triste e cansada. 
 Voc se lembrou!  Nicardo no parecia 
realmente surpreso. 
 Pai, temos noticias ruins!  Neandro apressou 
o assunto. 
Contamos tudo. Desde quando chegamos, a 
minha perca de memria, o reencontro com Thalassa, a 
fuga de Neide com a ajuda de Cosmo, o estado como as 
pessoas de Leander viviam e reencontro com Tales e 
nossa intil ida a Calidora. 

Contamos sobre Camila, Levinda e a Layla  que 
ainda no havia conhecido  e contamos tambm sobre 
a quase execuo de Cosmo e como reencontramos 
Neandro e minhas sbitas recuperaes de memria. 
Deixamos o Alexis para o final. 

 Bem, eu estou aliviado e preocupado com 
tudo o que me contaram.  o Rei Cleo parecia bem 
abatido  Em partes  timo ter-la de volta Beatriz. 
Voc sempre traz mais esperanas para as nossas vidas, 
mas me preocupo demais com essa sua perda de 
memria. Com as tropas de Bianor avanando to 
rpido, temo que eles ataquem o nosso reino antes que 
recupere completamente a memria. Por maior que 
seja os seus avanos na magia, se no se lembrar de 
tudo voc ser intil nas batalhas. Fico surpreendido 
que tenha sobrevivido a fuga de Calidora. A magia que 

voc executou no  para qualquer um, exige muito 
treino e muita energia. 

 Eu avisei a ela.  Nicardo estava serio. 
 Alexis no bosque perdido tambm no me 
agrada.  Rei Cleo fitou o teto  Se ele realmente est 
l e ainda no se transformou, isso significa que h algo 
no passado dele que est segurando no mundo exterior 
e no o deixa se transformar em um ser do bosque. 
 O senhor est pensando o mesmo que eu?  
Neandro perguntou. 

 E bem provvel!  o rei assentiu  As 
lembranas de Alexis com Beatriz so to fortes e 
intensas que esto impedindo que ele se transforme 
completamente em um ser do bosque. O Alexis deveria 
ter me comunicado sobre essa busca ante. 
 Papai? J se esqueceu que estamos falando 
do Alexis?  Neandro brincou  Aquele ali sempre fez o 
que quis e nunca pensou nas consequncias. 
Por alguns segundos desprendi minha ateno 
da conversa e observei o quadro de famlia que estava 
pendurado no lado direito da sala. Do lado esquerdo 
estava Neandro, um pouco mais novo, ao lado da me. 
Do lado direito do quadro, ao lado da me, estava o Rei 
Cleo e ao lado do rei, no meio dos trs, estava um 
garoto de cabelos castanhos e olhos vedes que eu sabia 
conhecer bem. Neste momento senti meu corao 
disparar desesperadamente e no consegui evitar 
imaginar como aquele garoto estaria agora? 


De repente o quadro mudou. Estvamos eu e o 
rapaz do meu sonho, o Alexis. Eu estava no lugar da 
me de Neandro e Alexis estava no lugar do Rei Cleo. 
No haviam crianas no quadro e estvamos com 
roupas da Terra, no com aquelas vestes do sculo 
passado como eram usados em Ofir. Fechei os olhos e 
balancei a cabea. Quando abri novamente os olhos o 
quadro havia voltado ao normal. 

 Beatriz?  o Rei Cleo me chamava enquanto 
todos me fitavam  Algum problema? 
 Desculpe.  respondi constrangida  Nenhum. 
 Como expliquei, terei que pensar com calma 
no resgate de Camila, Levinda e Layla.  o Rei Cleo 
deixou de me fitar  Tentar algo agora seria muito 
arriscado. Irei conversar com meus lideres de tropa e 
pensaremos em algo mais seguro. 
 Mas  se Bianor conseguir as outras noivas?  
perguntei. 

 Caso isso acontea, ns iremos apressar os 
planos.  Rei Cleo parecia estar fazendo o mximo 
para parecer bem  No se preocupe, ns no iremos 
deixar que nada de ruim acontea com suas amigas. 
 E o Alexis?  Neandro perguntou. 
 Neste momento acho que o melhor a se fazer 
e ficar na Capital mais alguns dias. Pelo menos at as 
coisas se acalmarem.  Rei Cleo ficou preocupado  
Seria arriscado demais vocs seguirem para Menelau 
agora. Deve haver muitos soldados de Bianor atrs de 
vocs. Assim que as coisas se acalmarem um pouco 

mandarei alguns homens na frente, para dar cobertura, 
e depois vocs seguem. Nos tempos de guerra, mesmo 
quando h trguas, todo o cuidado  muito pouco. 

Voltamos para a casa de Neandro. A conversa 
com o Rei Cleo havia definido novos caminhos para 
ns e agora iramos todos passar um temporada na 
casa de Neandro e Linfa. 

As lembranas que havia recuperado estavam 
me fazendo mais mal do que bem. Eu estava mais 
confusa do que quando no me lembrava de nada. Eu 
fazia todo o esforo que era possvel para me lembrar 
de Alexis, mas estava ficando difcil. Por qu? 

O resto do dia foi normal e sem muitas coisas 
interessantes. A noite chegou bem rpido. Iramos 
dormir eu e a Thalassa no quarto onde eu dormia. 
Nicardo, Tales e Cosmo iriam dormir na sala. 

Aproveitei que estaramos s eu e Thalassa 
sozinhas a noite toda para fazer uma perguntinha que 
no poderia fazer na frente de Nicardo. Apesar de j ter 
feito essa pergunta a ele diretamente. 

 Como era o Alexis?  perguntei. 
 Como?  ela pareceu se fazer de 
desentendida. 
 Eu e o Alexis?  refiz a pergunta  Como 
ramos? 
 Sem dvida era algo forte.  Thalassa sorriu  
Voc brigavam feito co e gato. Era sempre um 


implicando com o outro, sempre se xingando e quase 
se batendo. Mas qualquer um que olhasse de fora via 
que vocs se amavam. 

 Amavam feito amigos? 
 Feito amigos no.  ela se deitou em cima dos 
braos na cama improvisada no cho, fitando o teto  
Talvez no parecesse que vocs... pudessem ser mais 
que amigos, mas no era um sentimento de amizade 
que saia de vocs. Era algo do tipo pode acontecer. 
 Como assim algo do tipo pode acontecer?  
por um instante me senti conversando com Camila. 

 No sei explicar.  ela sorriu  Mas era algo 
nico, isso eu tenho certeza. 
 Algo to nico a ponto de me fazer deixar o 
Nicardo? 
Thalassa no respondeu. Ela continuou fitando 

o teto. Por alguns segundos o silncio tomou conta do 
lugar e j era uma resposta mais que suficientemente 
completa, mas eu precisava ouvir. 
 Thalassa?  voltei a perguntar  Era algo to 
nico a ponto de me fazer deixar o Nicardo. 
 Isso  algo complicado.  ela se virou  Vocs 
dois sim, parecem amigos. Mas voc e o Alexis... 
Beatriz, no d para responder isso. Eu no sei o que se 
passa em voc. 
 Mas o que voc acha? Pelo que voc viu?  
eu estava sendo chata. Admito. 

 Olha...  Thalassa comeou  Vou ser 
totalmente sincera com voc. 

 Eu no espero algo diferente!  apesar de j 
saber a resposta, eu estava ansiosa. Ouvir diretamente 
sempre  mais forte e definitivo do que entender por 
indiretas. 
 Eu acho que voc e o Alexis so almas 
gmeas.  ela parecia no ter coragem de olhar para 
minha reao  Eu acho que sim. Era algo nico o 
suficiente para fazer voc deixar o Nicardo. Satisfeita? 
Agora me deixe dormir! 
 Desculpe se te fiz falar o que no queria.  me 
senti culpada  Mas eu precisava ouvir isso. Eu tinha 
que ter certeza. 
 Ento voc j sabia a resposta?  ela se 
levantou. 
 Acho que eu sempre soube que o que tinha 
com o Nicardo iria acabar mais cedo ou mais tarde. A 
diferena  que agora eu sei o porqu. 
 Ento voc ir deixar o Nicardo?  ela 
perguntou. 
 Mas ainda no sei como.  me sentia muito 
culpada  Eu gosto demais do Nicardo, no queria 
magoar-lo.  Mas voc sabe que, quando voltar toda a 
sua memria, no ter como fugir disso. A menos que 
decida esquecer o que passou co Alexis. Mas uma vez 
de volta a sua cabea, acho difcil que consiga se 
esquecer novamente. 
Dormir com as palavras de Thalassa foi uma 
tarefa difcil. Ela tinha razo. Quando tudo isso 


acabasse eu teria que tomar uma deciso. Eu iria ter 
que magoar Nicardo. No momento parece mais fcil 
dizer adeus ao Alexis, mas algo em mim dizia que no 
haveria outro caminho. Eu iria deixar Nicardo. Se j 
estava com essa certeza sem me lembrar de nada do 
Alexis, provavelmente quando estivesse com ele de 
volta a minhas lembranas... 

Sonhei novamente com o nada. Mas desta vez 
eu estava com todas as minhas dvidas e tormentos. 
Nem mesmo a msica conseguiu apagar-los de minha 
mente. Eu estava morrendo de pena do Nicardo e me 
sentindo horrvel por isso. Maldita hora que abri aquela 
caixa. Deveria ter jogado fora quando tive 
oportunidade. Ela no abria. 

Aos poucos o cenrio do sonho foi mudando. 
Pequenas projees comearam a pintar o branco, 
como varias televises congeladas em varias cenas da 
minha vida. Eu via cenas da minha infncia, dos meus 
amigos e cenas em Ofir. Algumas eu j me lembrava, 
outras pareciam completamente inditas para mim. 
Flutuei at o chegar ao topo. Eu estava cercada por 
lembranas. De repente uma das telas ligou. 

Estava deitada, com um cavalo branco na 
minha frente. Montado nele estava o rapaz de cabelos 
castanhos que acreditava ser o Alexis. 

 O que faz aqui?  o rapaz me perguntava 
autoritrio. 
Eu no respondia nada. 


 Eu te fiz uma pergunta!  ele voltou a falar  
Exijo uma resposta imediatamente. 

Eu continuei sem dizer uma palavra e isso s 
piorou minha situao. 

 Como ousa calar-se de maneira to indelicada 
e rude para mim, no sabe quem sou plebia?  ele 
comeava a ficar irritado  Levante-se e responda 
minha pergunta, eu estou ordenando! 
A tela escureceu. Ouvia apenas varias vozes 
dizendo Prncipe Alexis repetidas vezes, o que me 
deixou um pouco irritada. A imagem voltou a aparecer, 
mas desta vez era a sala do Rei Cleo. 

 No parece uma espi de Bianor!  era o Rei 
Cleo quem falava. 
 Mas deves admitir que nunca vimos tal moa 
antes.  o rapaz comeava a falar.  Ela apareceu 
dentro das propriedades do castelo, nunca antes 
algum conseguiu invadir com tanta facilidade os 
territrios reais. Ela s pode... 
 Espere um pouco!  interrompi. 
 Isto que disse sobre atrevimento exagerado? 
 um homem, com uma aparecia mais jovem que a do 
rei e uma voz um tanto afeminada falou. 
 Sim,  exatamente isto!  o rapaz sorria 
maliciosamente. 
 Vamos deixar a mocinha falar!  Rei Cleo 
parecia muito melhor do que quando havia o visto mais 
cedo. 

 Obrigada!  fiz uma reverencia automtica  
Eu estava indo para escola quando passei na padaria 
com a Camila... 

 Quem  Camila?  o rapaz parecia fazer de 
propsito. 
 Camila  a minha amiga!  respondi educada. 
  onde est essa Camila agora?  o homem 
de voz afeminada perguntava. 
Novamente a cena mudou. Estava dentro de 
um navio e estava vestindo uma roupa tpica de 
marinheira. Estvamos eu, o rapaz de cabelos 
castanhos, Nicardo e Neandro conversando. 

 Neandro!  o rapaz gritou  No tinha outra 
roupa melhor? 
 Mas essa  a roupa clssica!  Neandro 
respondeu sem entender. 
 Pode voltar e usar uma de suas roupas!  o 
rapaz continuava gritando  E escolha uma que... Que 
tape mais as suas pernas! 
 Mas est to curta assim?  perguntei. 
 Deixe-a usar a roupa Alexis, ela est muito 
bonita!  Nicardo disse enquanto carregava algumas 
cordas e respondeu a minha pergunta. O rapaz era 
realmente o Alexis. 
 No!  Alexis gritou  Isso no  uma roupa 
que a Beatriz usaria. Ela no gosta que esses lobos 
fiquem olhando tanto para ela. 

 Olha aqui, que decide o que eu gosto ou no 
de usar sou eu!  agora eu quem gritava. 
 Calma, calma!  Neandro tentava evitar uma 
briga. 
 Ento prefere ficar assim... Nua!  Alexis 
emburrou. 
 Eu no estou nua.  rebati. 
 Pois para mim est!  Alexis bateu o p  No 
gosto nada de ver voc assim. 
 Que  isso Alexis, est com cimes?  
Neandro debochou da cara de Alexis. 

 Cime?  Alexis ficou vermelho  Cimes 
desta ai? 
Desta vez a cena no mudou, ela simplesmente 
acelerou. Nos rpidos flashs que passavam, vrios 
momentos que vivi em Ofir pareciam voltar a minha 
cabea. A sensao era sempre a mesma: Como se 
nunca tivessem sado de l. 

 Voc est lembrando-se de mim agora?  era 
a voz dele. Alexis. 
 Eu acho que estou.  respondi  Onde voc 
est? 
 Bem aqui.  senti brao me segurarem pelas 
costas  E pretendo continuar sempre aqui. Ao seu 
lado. Eu s estou vivo por causa disso. 
 Alexis! 

 No diga nada ainda!  ele tapou minha boca 
 Eu vou esperar para ouvir o que voc tem a me dizer 
quando me achar. Eu quero sentir que  real. 
 Est bem.  eu sorri  Eu vou te achar. 
 Estou esperando por voc.  ele suspirou  
Meu amor. 
 Agora eu estou me lembrando de tudo.  
estava em extrema felicidade -Nada ir nos separar 
outra vez. 

 Eu realmente espero que seja assim.  ele 
passou a mo em meu rosto  No gostaria que, depois 
de tanto esforo para me manter vivo, eu perdesse 
voc outra vez. 
 Voc nunca mais ir me perder!  o abracei 
mais forte  Agora estaremos juntos para sempre. 
 Mas voc precisa me achar primeiro!  ele 
sorriu  Eu ainda no me lembro de tudo. Ainda no sei 
exatamente quem sou e nem como vim parar onde 
estou. Tudo o que eu me lembro e de voc e apenas 
voc  o que me faz querer continuar vivo. 
No esperei ele dizer mais uma palavra. Pulei 
no pescoo dele e o beijei. No queria saber se era um 
sonho ou se era real. Tudo o que eu precisava naquele 
momento era sentir aquilo. Eu precisava  agora que 
havia recuperado minha memria  sentir aquele beijo 
do jeito que deveria ser. 

 No demore muito.  ele comeava a sumir. 
 Eu no irei esperar mais um segundo!  disse. 
 Obrigado.  ainda pude ver seu sorriso. 

 Espere mais um pouco. Eu j estou chegando! 
 Eu vou esperar.  apenas a voz dele 
prevalecia  Eu vou esperar! 
As cenas do meu passado continuavam ali e 
agora eu entendia o motivo de sempre estar ali, 
naquele nada. Minha mente j no tinha mais nenhum 
espao em branco. Todas as minhas memrias estavam 
de volta. 

Acordei com meu corao palpitando 
enlouquecidamente. Eu havia me lembrado de tudo. 
Estava tudo de volta. E eu sabia exatamente o que eu 
deveria fazer e no queria perder mais um segundo. 

Fui at a sala com cuidado para no fazer 
nenhum barulho. O escuro me atrapalhou um pouco, 
mas consegui chegar at a sala sem despertar a 
ateno de ningum. Procurei pelo rosto de Cosmo. 

 Cosmo?  sussurrei  Cosmo? Acorde! 
 O que?  Cosmo falou um pouco alto. Tapei a 
boca dele. 
 Shhh!  coloquei o dedo indicador a frente da 
boca  Voc ir me levar agora at Menelau. Eu preciso 
resgatar Alexis e no posso perder mais tempo. E no 
reclame, isso  uma ordem! 

CAPTULO 13 / NOVAMENTE AO RESGATE 


C 
C
osmo me fitou com cara de assustado. Eu no o 
culpava. No lugar dele eu tambm estaria assustada. 

 O que est esperando?  perguntei  Os outros 
acordarem? 
 Voc est maluca?  ele falou um pouco mais alto. 
Tapei a sua boca. 
Puxei Cosmo at a cozinha espantada com o 
quanto ele era leve. Ele tentou destapar a boca, mas 
me mantive firme e no o soltei at chegarmos  
cozinha. 

 No!  foi a primeira coisa que ele disse 
depois que destapei sua boca. 
 Por qu?  fui firme. 
 Voc ouviu o que Neandro e Nicardo 
disseram!  ele estava bravo  No vamos a lugar 
algum por enquanto. 
 Mas eu preciso ir agora!  quase gritei. 
 No.  ele respirou fundo  Beatriz, no  
nada pessoal. Eu apenas no quero confuso. 
 Ento me leve para Menelau!  estava 
comeando a ficar irritada. 
 Eu j disse que no!  ele tambm  Est 
parecendo criana. Pare de ser teimosa! 
 No me diga o que fazer, eu digo o que fazer 
e voc vai me levar!  tentei no dizer isso muito alto. 
 Mas voc... O que voc quer fazer em 
Menelau?  ele parecia estar baixando a guarda. 

 Eu preciso resgatar o Alexis!  disse baixo. 
 No bosque encantado?  ele deu um meio 
sorriso  Nem pensar! 
 Vamos?  tentei outra estratgia  Por favor? 
Faz isso por mim? 
 No Beatriz!  Cosmo estava ficando chato. 
Por que todos adoram me irritar? 
 O que custa?  insisti  Eu digo que eu te 
obriguei a me levar. 
 Mas no  o que voc est tentando fazer?  
ele deu um sobressalto na voz no fazer. 

 Est ficando nervoso?  perguntei. 
 Ainda no.  ele falou baixo. 
 Ento est pensando em me levar?  sorri. 
 No Beatriz.  ele ficou srio. 
 Ento o que?  coloquei as mos na cintura. 
 Voc no entende nada no ?  ele estava 
zangado  Sair agora, alm de deixar todos 
preocupados, pode atrapalhar o grupo. Eu esperei 
muito tempo para lutar ao seu lado. Sempre te admirei 
e est sendo difcil recusar o seu pedido, mas eu 
preciso pensar na sua segurana. No posso 
simplesmente te jogar no bosque encantado e te deixar 
a merc da sorte que sei que no tem. Se algo 
acontecer a voc ser responsabilidade minha e eu no 
quero carregar esse peso. 
Por um instante pensei realmente em desistir. 
Eu havia me lembrado de tudo, saberia me proteger. 


Mas ouvir as palavras de Cosmo... Senti-me culpada de 
certa forma. Mas eu precisava ir a Menelau. Tinha que 
resgatar Alexis e no podia perder mais nenhum 
segundo, nem que para isso e tivesse que ir sozinha 
para o bosque encantado. 

 Tudo bem, fique!  disse  Eu vou sozinha e 
no submarino! 
 O que?  desta vez ele gritou. 
 Isso!  cochichei  Acorde todo mundo! 
 Voc no pode ir sozinha!  ele baixou a voz  
Voc no sabe como manejar aquilo. 

 Mas se quem sabe no quer me ajudar... 
 Voc no seria capaz.  ele levantou a 
sobrancelha esquerda. 
 Quer pagar para ver? 
Ele coou a cabea e fez uma careta engraada. 
Provavelmente concluiu que eu seria capaz e no 
gostou de imaginar a tragdia que seria eu dirigindo 
aquele submarino sozinha  levando em considerao 
que eu conseguiria tirar-lo do lugar. 

 Vamos!  ele fez cara de derrota. 
 Obrigada!  o abracei e dei um beijo em seu 
rosto  Vou apenas deixar um bilhete! 
Linfa, Neandro, Nicardo, Tales e Thalassa 

Eu estou bem. No se preocupem comigo, 
voltarei logo. 

Beijos e abraos 


Beatriz 

PS No briguem com o Cosmo. Tive que 
torturar-lo para ele me levar. 

Conseguimos sair sem acordar ningum. Cosmo 
estava muito nervoso e quase acordou Nicardo e Tales 
quando quase derrubou um vaso de flores, mas no fim 
deu tudo certo. Ver Nicardo dormindo me deixou mal. 
Estava ta lindo, descansando e pensando que ainda 
tinha meu corao. No sabia o que iria fazer quando 
tivesse que contar que havia me lembrado de Alexis. 

As ruas da cidade estavam sendo vigiada por 
alguns guardas, mas no foi muito difcil passar por 
eles. O local onde o submarino estava e que foi 
realmente difcil. O porto estava cheio de guardas. 

Passamos escondidos por grandes caixotes e 
por trs de pequenas casas que haviam por perto e 
quase fomos pegos diversas vezes. Isso at me animou 
um pouco, sinal de que minha sorte estava mudando. 

Entramos no submarino bem rpido. No 
queramos que dessem por nossa falta enquanto o dia 
no amanhecesse. Precisava estar bem longe dali 
quando eles acordassem e, pela luz fraca das luas, isso 
no estava muito longe de acontecer. 

O submarino estava mais rpido. J havia 
recuperado todas as energias que havia perdido na ida 
a Calidora. Isso ajudou muito. Em pouco tempo j 


havamos nos afastado de todas as fronteiras da 
Capital. 

 O que te fez querer ir para Menelau com 
tanta urgncia?  Cosmo perguntou da mesa de 
controle. 
 Eu me lembrei de tudo.  respondi. 
 Tudo?!  ele se espantou  Quer dizer... 
TUDO? 
 Sim.  sorri  Me lembrei de absolutamente 
tudo. Cada detalhe das coisas que vivi e senti em Ofir. 
Est tudo de volta a minha mente. 
 Mas que incrvel!  Cosmo parecia muito feliz 
 Isso  timo! Mas por que no quis esperar os 
outros? 
 Isso  uma coisa que preciso fazer sozinha!  
respondi sria. 

 Voc vai mesmo resgatar o Alexis?  Cosmo 
tambm ficou srio  Acha que consegue? 
 Acho que sei exatamente o que fazer. 
 E o Nicardo?  ele perguntou devagar. 
Provavelmente imaginando que essa era uma pergunta 
delicada. 
 Eu no sei ainda. respirei fundo  Sinto-me 
horrvel, no sei como irei dizer isso para ele. No sei 
nem se conseguirei encarar-lo de novo. No depois do 
que eu prometi a ele em Leander. 
 Voc tem realmente um grande problema nas 
mos.  ele estava serio. 

 Obrigado por lembrar.  fui 
desnecessariamente rude. 
 Acha que conseguiremos entrar em 
Menelau?  ele perguntou  As tropas de l devem 
estar conferindo cada gro de areia que entra no reino. 
Voc tinha pensado nisso? 
 Ainda no.  respondi preocupada. 
 Pois  melhor comear a pensar!  ele olhava 
pelo binculo  Chegaremos a Menelau no inicio da 
tarde. 
 Estou pensando!  respondi dentando-me no 
sof. 
Odiava mentir, mas no estava com cabea 
para pensar em um jeito de entrar em Menelau. Estava 
mais preocupada era com Nicardo. Ele realmente tinha 
todas as razes do mundo para no querer que eu 
recuperasse a memria. Pelo menos no toda a 
memria. 

Eu estava planejando como deveria falar com 
ele. Como agir. Imaginando suas reaes e sabendo 
que nenhuma ser boa, porque nenhuma evitaria que 
ele se machucasse. Eu preferia que a minha escolha 
machucasse apenas a mim. 

Fiquei imaginando se eles j teriam lido o 
bilhete. Nicardo com certeza vai saber para onde fui e o 
que aconteceu no mesmo momento. Por que as coisas 
tm que ser to difceis? Por que a vida tem que ser 
feita de escolhas? Por que no podemos seguir um 


caminho alternativo? Sempre tem que ser um caminho 
ou outro. Nunca existe uma terceira opo nessas 
situaes. E eu estava me sentindo to estranhamente 
mal, mas ao mesmo tempo to estranhamente bem. 
Minha memria voltou, mas agora eram outros 
problemas que lotavam minha mente. Outros 
sentimentos que inundavam meu peito e outras 
sensaes que encharcavam a minha alma. Talvez eu 
precisasse de um psiclogo. Ou um psiquiatra? Nunca 
sei a diferena de um para o outro. 

Como Cosmo havia dito, no inicio da tarde j 
estvamos em Menelau. Ele parou o submarino em um 
local afastado do porto e ficou fitando o meu rosto sem 
parar. Por alguns instantes eu estranhei, mas depois 
lembrei que fiquei de dar uma soluo para entrarmos 
em Menelau. 

 Tudo bem, vamos ver... podemos ir voando? 
 sugeri. 
 No sei se sou bom nisso.  ele levantou a 
sobrancelha direita. 
 Ento eu vou sozinha!  eu disse indo para a 
porta do submarino. 
 No mesmo!  ele gritou  Eu irei te 
acompanhar! 
 Pare com isso garoto!  sorri  No h 
necessidade! 
 Mas se precisar de ajuda?  ele estufou o 
peito  Estou pronto para defender. 

 No h necessidade.  continuei sorrindo  Eu 
j me lembro de tudo e j sei como me defender. Voc 
ser mais til aqui. 
 Tem certeza?  ele no parecia ofendido. 
 Claro que tenho!  tentei parecer 
descontrada. 
 No gosto desta idia!  ele fez bico. 
 No precisa se preocupar!  dei um tapa leve 
no ombro dele  Eu vou ficar bem! 
 Jura?  ele perguntou. 
 Juro!  selei o juramento beijando os dedos. 
 Ento leve o comunicador com voc!  ele 
pegou um dos comunicadores que estava em uma 
gaveta  Sentirei melhor se levar. 
 Se voc se sentir melhor... 
 Mas  para usar mesmo!  ele segurou um 
pouco o comunicador  Seja para dizer que est 
voltando. 
 Tudo bem!  achei graa  Est parecendo a 
minha me. 
 No momento eu sou o responsvel por voc! 
 ele sorriu. 
 Mmm Papi.  fiz biquinho. 
 Isso  serio!  ele sorriu e deu um leve 
empurrou no meu ombro direito. 
 Tudo bem!  abri a porta do submarino. 
 Cuide-se e tente no demorar!  ele gritou 
antes de eu sair. 
 Pode deixar!  gritei j do lado de fora. 

O som do vento era forte em meus ouvidos. As 
ondas do mar tambm mostravam presentes. Olhando 
l de cima, o oceano to azul e o cu to claro e quase 
impossvel pensar que uma grande guerra est 
acontecendo. Era tudo to lindo e tranquilo, a sensao 
de liberdade era to grande enquanto voava que quase 
me esqueci de que Bianor estava prestes a destruir 
tudo aquilo. 

Voei um pouco mais alto quando me aproximei 
de Menelau. No queria correr o risco de ser 
identificada. Havia pssaros voando ao meu lado. 
Grandes pssaros, livres e felizes. Eu no podia deixar 
que toda essa beleza e magia que existe em Ofir 
pudessem acabar. 

Fui descendo ao poucos quando avistei o 
bosque. No havia muitas pessoas naquela regio, o 
que eu j esperava. Resolvi descer e me apressar. 

A entrada do bosque era exatamente como eu 
me lembrava. 

A entrada do inicio do bosque continuava igual. 
A madeira pendurada por dois troncos, a escadaria. 
Estava tudo do mesmo jeito. 

Cheguei perto da entrada e passei a mo no 
lado das madeiras tentando encontrar as paredes 
invisveis. Mas elas no estavam l. O que ser que 
havia acontecido? 


Quando passei pelo portal tive uma 
desagradvel surpresa. Estava completamente 
diferente do que se via fora do portal. O local estava 
escuro e chovia muito. As folhas das rvores estavam 
todas pretas e os troncos eram um marrom 
acinzentado. A escadaria era um grande morro de 
barro e o cho estava coberto de lama e folhas secas. 

Corri o mais rpido que pude e fiquei 
desesperadamente gritando por Alexis. Eu podia sentirlo, 
mas no sabia onde encontrar-lo. Eu estava 
apavorada e sem saber o que fazer. 

De repente notei que no sabia mais por onde 
eu havia entrado e que no fazia idia de onde havia 
me metido. Era tudo igual a tudo e ao mesmo tempo. 
Eu andava, andava e andava e parecia nunca chegar a 
lugar nenhum. Gritei novamente desesperada por 
Alexis, at que olhos surgiram das rvores. Vrios olhos 
brilhantes. 

 Os seres do bosque!  me lembrei  Seres do 
bosque? Lembram-se de mim? Eu e meus amigos 
salvamos vocs uma vez do drago que perturbava 
vocs. Poderiam me ajudar? 
Como imaginei, eram eles. Vrios seres 
pequenos e de ps gordos caram da rvore e 
formaram um circulo ao meu redor. Ento o chefe saiu 
do meio deles e veio falar comigo. 

 O que querer voc?  ele perguntou  
Problemas demais. Embora queremos que v! 


 Eu queria uma ajuda!  disse tentando 
parecer amiga. 
 Lembrar de voc todos ns.  ele no parecia 
feliz  Voc e amigos de voc trazer a destruio para 
ns. No querer ajudar voc! Embora queremos que 
v! 
 Embora, embora, embora!  os outros 
repetiram. 
 No!  gritei  No foi culpa minha. No foi 
culpa nossa!  Desde que matar drago, tudo de ruim 
aconteceu com ns. Querer vocs destruir povo nosso. 
No poder deixar que faa de novo. 
 Vocs no entendem?  fiquei assustada  
No foi culpa minha. Eu ajudei vocs. Isso  culpa de 
Bianor! Conhecem Bianor? 

 No saber quem  Bianor.  ele respondeu 
hspido. 
 Por favor, apenas me digam, um daqueles 
amigos meus veio para c? 
 O rebelde?  o chefe perguntou com nojo  
Ele no querer virar ser do bosque. Magia que protegia 
o bosque est enfraquecida, mas ainda transforma os 
perdidos. Apenas ele no virar ser do bosque. 
 Por favor, poderiam me levar at ele?  tentei 
ser esperanosa. 
 No saber ns.  o chefe pensava  O que 
ganhar em ajudar? 

 Eu prometo que se me levarem at ele eu os 
ajudarei a fazer com que no bosque seja como era 
antes. 
 Prometer?  o chefe perguntou.  Sim, mas 
provar voc que ir cumprir fazendo ritual de 
promessa. 
 Ritual?  estranhei  Que tipo de ritual? 
 Beijar p meu!  o chefe levantou o p. 
Aquele era o p mais nojento e fedido que eu 
j havia visto. Ele tinha uma forma arredondada e era 
gordo por causa das varias bolhas que tinha. O p era 
cheio de cortes e cicatrizes e tinha restos de coisas que 
preferia nem imaginar. 

 Beijar ou no beijar?  o chefe perguntou. 
 Desde que eu no me esquea de socar o 
Alexis por isso.  estava tomando coragem  Vamos l. 
Abaixei-me e segurei o p do chefe. Apenas 
olhar para aquilo j me embrulhava o estomago. Mas 
precisava resgatar o Alexis e se esse era o preo... 
poderia ser coisa bem pior. Fui me preparando para 
beijar, quando uma mo me impede. 

 Brincadeira ser isso!  o chefe gargalhou e 
todos o acompanharam  No ser ritual nenhum. Teste 
apenas ser. Querer ver se coragem tinha. Disposta 
estava mesmo, ganhar voto de confiana. 
Confesso que no consegui esconder o quo 
aliviada eu estava quando o chefe disse isso. Seria uma 
experincia traumtica e que eu no conseguiria 


apagar nunca da minha memria, nem se eu fosse e 
voltasse de Ofir mil vezes. 

Os seres da floresta me levaram para dentro de 
um tronco e um lugar completamente diferente 
apareceu. 

 No fundo acreditar em voc eu sinto.  o 
chefe falou  Apenas querer ns algum para culpar. 
O esconderijo dos seres da floresta era como 
uma grande casa. Tudo era feito de troncos. Haviam 
vrios quartos, mas todos ficavam a mostra, como se 
fosse casa de boneca. Muitos corriam pelos corredores, 
entre os vrios andares, enquanto outros trabalhavam 
em um tipo de grande mquina. 

 Achar voc pode?  ele perguntou. 
 O que?  estranhei. 
 Ele aqui estar!  o chefe sorriu  Agora achar 
voc onde ele est. 
 Obrigada.  sorri sarcstica. 
 Mas amigo seu no ser mais igual como 
lembrar.  o chefe falou  Amigo seu ser um de ns 
agora. No inteiro, mas ser ainda um de ns. 

N 


CAPTULO 14 / LIBERTANDO ALEXIS 


o consegui parar de fitar o rosto do chefe. Apesar de 
no parecer nada alm de um amontoado de sombras 
e folhas, acredito ter visto um sorriso malfico no rosto 
dele. Obviamente perguntei o que qualquer pessoa em 
me lugar perguntaria: 

 Voc est de brincadeira? 
 Eu no brincar.  ele ficou serio  No da vez 
de agora. 
 Tudo bem, ento que dizer que voc me 
trousse aqui para nada?  olhei zangada para ele. 
 Se salvar amigo seu  nada para voc?  ele 
continuava serio. 
 No  isso... Esquece!  fiz um sinal de 
desdm com a mo. 
 Se preferir assim for?  ele pulou para o 
andar de baixo. 
 Ei! Espere por mim!  desci as escadas atrs 
dele. 
O lugar era mais confuso do que aparentava 
ser. As escadas tinham varias passagens e voc nunca 
sabia qual delas a levava para qual caminho. Tentei me 
localizar pelo salo principal, mas era tudo muito 
confuso. 

S para entender melhor, entramos pelo 
tronco e vimos um grande e fundo buraco. Voc 


conseguia ver vrios quartos, todos sem paredes e 
conseguia ver um grande salo no final do buraco. Da 
entrada voc conseguia ver absolutamente tudo do 
grande esconderijo, mas ento aparecem as escadas. 

Os dois lados da entrada so cercados por duas 
escadas. Elas so as nicas coisas com paredes naquele 
local. Voc entra e no enxerga mais nada alm das 
escadas. Mas se voc conseguir entrar em um dos 
quartos por essas escadas, voc consegue ter uma idia 
de onde voc est. Mas acredite isso  muito difcil. 

Continuei andando e tentando seguir na 
direo em que o chefe foi e fazendo do possvel ao 
impossvel para no me perder no meio de tanta 
escadaria. Se eu no estivesse to desesperada, estaria 
achando tudo isso extremamente divertido. 

 Ei! Pare!  gritei quando vi o chefe  Fique ai 
mesmo! 
 Querer voc que eu ficar?  ele perguntou. 
 Sim!  respondi tentando localizar qual 
caminho usaria para chegar at onde o chefe estava. 
Por incrvel que parea os outros seres do 
bosque no ficavam nem um pouco espantados ou com 
raiva quando invadia seus quartos. Eles simplesmente 
agiam como se eu no estivesse por ali ou como se j 
tivessem se acostumado com a falta de privacidade. 

Continuei descendo as escadas e novamente 
perdi o chefe de vista. Isso era um pouco irritante. 


Tentei manter a calma e no estourar e comear a 
fazer um escndalo. Esse chefe trapaceiro! 

 Chefe!  gritei quando o vi novamente  Pare 
de fugir de mim! 
 No fugir de voc eu estar!  ele parecia 
debochar da minha cara  Apenas querer ao salo 
grande chegar! 
 E onde fica esse salo grande?  confesso que 
foi uma pergunta ridcula. 
 O salo ser o salo. Centro de toda rvore. No 
meio ficar. 
 Mas no poderia esperar por mim?  segui 
pelas escadas. 
Desta vez consegui manter o chefe a vista. Ao 
estava aprendendo a me locomover naquela louca 
construo ou ela  que havia se simplificado. 

Olhei para todo o percurso que havia feito e me 
surpreendi com o caminho que havia feito. No parecia 
lgico eu ter andado por toda aquela rvore em menos 
de trs minutos. Aquilo era algo que demoraria pelo 
menos duas horas para percorrer. Mas se naquele 
mundo poucas coisas faziam sentido, naquela rvore 
absolutamente nada tinha alguma lgica. 

O chefe estava sempre a minha frente, pulando 
de andar em andar por entre os quartos. Por instantes 
esqueci de que era uma maga e poderia fazer o 
mesmo. Se tivesse me lembrado disso antes teria 
poupado tempo. 


Assim que entrei em um quarto e avistei o 
chefe pulei e fui voando para o quarto que o chefe 
estava. Ele no pareceu surpreso e novamente pulou 
para outro quarto. Eu, claro, o segui. Ficamos nesta 
perseguio at chegarmos ao fim do grande buraco. 

 Salo Grande finalmente chegar.  ele sorriu. 
 O Alexis est por aqui?  perguntei. 
 Sim, talvez.  ele olhou para um lado  Ou 
no, talvez.  ele j estava me irritando.  Isso ter 
voc descobrir sozinha. 
 Mas pode me dizer ao menos se ele mudou 
muito?  tentei ficar calma e me preparar para a 
resposta. 
 Se fsico  pergunta, resposta ser sim.  ele 
balanava a cabea lentamente  Um de ns ele 
comear a ser. Mas se pergunta for interior, resposta 
ser no. Existir algo dentro dele que deixar ele preso a 
vida que passou. Mas se quiser amigo seu salvar, 
apressar logo ou ele desaparece. 
 O que?  levei um susto  Do que voc est 
falando chefe? 
 Varias histrias sobre ns existir por ai. Mas 
verdadeira nenhuma ser. Nosso nascer, apenas ns 
sabemos e ningum mais. Voc ser primeira a saber o 
que de verdade aconteceu. 
 Agora vai contar histrias?  estava perdendo 
a pacincia. 
 Importante ser histria de nosso nascer. 
Gostar voc de ouvir.  ele se sentou e eu fiz o mesmo 

 Aps rei proibir entrada no santurio, bosque ser 
amaldioado para sempre. Magia irreversvel, ningum 
alm de rei poder quebrar. Ele dizer que todos aqueles 
que ordens suas desobedecer, amaldioados sero e 
eternamente preso em bosque ficaro. Esquecer de 
vida todos iro e viver feito selvagens para toda vida. 
Por isso nascer todos ns. 
 No se ofenda  eu disse  mas por que eu 
acharia essa histria importante? 
 Amigo seu no ser um de ns por completo.  
ele suspirou  Vida antiga ainda se lembrar. Ele preso 
ao outro mundo que viveu, maldio no se cumprir. 
Se no amigo seu encontrar e se no amigo seu ajudar 
a se lembrar amigo seu sumir. Maldio o far sumir 
para sempre. 

 E por que no me contou isso antes?  fiquei 
nervosa  Eu exijo que o traga para mim agora! 
 No poder eu trazer.  o chefe respondeu  
Contra regras ser. Voc achar amigo seu precisa. 

 Mas voc poderia ao menos... Pode ser 
qualquer um? 
 Qualquer um pode ser amigo seu.  ele ficou 
bem serio  Qualquer um pode no ser amigo seu. 
 Quer parar de me por nervosa por favor?!  
gritei alto demais. 

 Deixar sozinha voc eu irei. 
O chefe seguiu para uma sala e sumiu na 
escurido. Eu estava sozinha com vrios possveis 
Alexis. No sabia por onde comear e no sabia se 


tinha tempo o suficiente para perder. Resolvi comear 
a conversar com eles. 

 Desculpe...  no sabia como comear  Voc 
me conhece? 
 Ser moa que ajudar a matar drago e 
transformar bosque no que virou.  ignorei essa 
resposta. 
 Mas voc me conhece? Digo, tem outras 
lembranas minhas?  tentei. 
 Ser moa que ajudar a matar drago e 
transformar bosque no que virou.  ele repetiu a 
resposta  No ser lembranas suficientes? 
 Obrigada!  desisti. 
Todas as pessoas com quem conversei foram a 
mesma situao. Lembravam de mim, mas apenas 
como a que ajudar a matar drago e transformar 
bosque no que virou e nada mais. Isso era pssimo. 

Tentei e tentei vrias e vrias vezes. Estava 
sendo um pesadelo. Eu nunca iria achar-lo. Talvez ele j 
tivesse desaparecido e eu estava ali, sujeita a me 
transformar em um deles a qualquer momento. Tinha 
que tirar esse pensamentos da minha cabea. 

 Ol?  continuei tentando  Por acaso me 
conhece? 
 Ser a moa que ajudar a matar... 
 ...matar drago e transformar bosque no que 
virou.  completei  Obrigada. 

Estava realmente preocupada. No queria 
desperdiar mais nenhum segundo. Eu tinha que achar 

o Alexis. No poderia desistir jamais. No era apenas a 
minha vida que estava em jogo. Eu precisava salvar 
Alexis para poder salvar toda Ofir. Eu sentia que sem 
Alexis eu nunca derrotaria Bianor. 
 Chefe?  comecei a falar sozinha  Ser que 
poderia aparecer? Chefe? 
 Estar aqui!  ele apareceu do nada. 
 Que susto!  coloque a mo no corao. 
 Amigo seu achar?  ele perguntou. 
 Ainda no chefe!  estava chorando  Voc 
precisa me dizer onde o Alexis est! No sinto que ele 
esteja entre os que esto aqui. 
 Querer ajudar, mas no poder. So regras. 
 Mas que regras? Quem colocou essas regras? 
 estava nervosssima. 
 Regras sempre existir. Maldio impor regras. 
Regras serem... 
 No precisa explicar!  cortei logo o assunto  
No quero perder tempo. 
Corri, saltei e comecei a voar at o topo. Eu 
estava chorando, sentia as lgrimas molhando minhas 
roupas. Estava desesperada, meu corao estava 
prestes a sair do meu corpo e preferia nem imaginar 
como estava meu rosto. Por que essas coisas sempre 
acontecem comigo? 


Cheguei ao topo mais rpido do que quando 
desci ao Salo Grande. Isso era timo, estava 
precisando de todo o tempo que me fosse possvel ter. 
Sai da rvore/esconderijo e tive uma grande surpresa. 

 O que vocs esto fazendo aqui?  perguntei. 
Na minha frente estavam Cosmo, Thalassa, 
Tales e Nicardo. Sem dvida uma grande surpresa  
ainda estava me decidindo se era uma agradvel ou 
desagradvel surpresa. 

 Voc demorou tanto para voltar.  Cosmo 
comeou a se explicar  Eu tive que voltar e pedir 
ajuda. 
 Cosmo, seu apressado, eu no demorei nem 
20 minutos!  gritei tentando esconder o choro. 
 20 minutos?  Cosmo estranhou  Beatriz 
voc est sumida h quase 2 dias! 
 2 dias?  gritei  Impossvel! 
 Achamos que nem iramos te achar. Pelo 
menos no to rpido.  Cosmo coou a cabea. 
 Mas como?  tambm cocei a cabea. 
 Passar diferente tempo dentro do 
esconderijo.  uma voz surgiu do nada. 
 Que susto!  disse quando vi o chefe ao meu 
lado  Vai comear a aparecer de surpresa agora? 
 Desculpe.  ele baixou a cabea  Tentarei 
assustar voc no mais. 
 Eu ficaria agradecida!  sorri.  Esses so os 
meus outros amigos. 

 Conhecer todos, menos esse!  ele apontou 
para Cosmo. 
 Ele  novo.  respondi. 
 No parecer novo!  ele chegou perto de 
Cosmo  Parecer mais velho que voc! 
 No chefe!  sorri de verdade  Ele  novo no 
grupo. Entrou h pouco tempo. 
 Mas explique melhor essa histria do tempo. 
 Nicardo estava serio. 
 Tempo passar mais devagar em esconderijo. 
 o chefe comeou a explicar  Tempo ser relativo em 
cada lugar mgico. Lugar mgico esconderijo ser, 
tempo passar diferente. 
 Mas por que o tempo passa normalmente no 
bosque?  perguntei. 
 Bosque no ser lugar mgico, ser lugar 
amaldioado.  o chefe respondeu. 
 Nossa, faz muita diferena. 
 Diferena sim fazer!  o chefe se zangou  
Lugar mgico nasce mgico. Sempre ser mgico desde 

o inicio dos tempos. Lugar amaldioado no nascer 
mgico, ser transformado em mgico. No ser a mesma 
coisa. 
 Mas espere um minuto!  comecei a 
raciocinar  Se eu estou aqui h quase 2 dias por que 
no me transformei em um ser do bosque? 
 Pergunta boa ser!  o chefe balanou a 
cabea positivamente. 
 Ento no sabe a resposta?  estava surpresa. 

 No saber resposta para isso.  ele 
respondeu.  Fato talvez de no 24 horas passar no 
esconderijo ser resposta. 
 Acho que isso no importa muito.  disse um 
pouco apressada  Acho que voc j esto sabendo o 
motivo de eu ter vindo aqui. 
 Na verdade no.  Nicardo resmungou  
Cosmo no contou nada. 

 Cosmo!  no sabia se ficava feliz ou 
chateada. 
 Amigo seu estar atrs!  o chefe antecipou 
minha resposta. 
 Est atrs do Alexis.  Nicardo estava me 
assustando  Voc recuperou toda a memria e veio 
atrs do Alexis. Voc deveria ter me comunicado! 
 Calma, no  isso.  fiquei assustada. 
 Ento o que ?  Nicardo perguntou. 
  isso!  estava confusa  Mas no  assim 
como voc est falando. Nicardo, depois a gente 
conversa. 
 Mas voc ao menos conseguiu achar o Alexis? 
 Nicardo estava muito chateado. 
 No.  respondi de cabea baixa. 
 Veio inutilmente!  Nicardo falou um pouco 
grosso demais. 
 No!  levantei a voz  Ainda vou achar-lo. 
No d para voltar sem ele. 
 Eu imagino o motivo.  estava com muito 
medo das reaes do Nicardo. 

 No  isso que voc est pensando!  menti. 
Em partes. 
 Por que ele no te mostra onde o Alexis est? 
 Cosmo tentou no parecer ofensivo quando disse 
ele apontando para o chefe com os olhos. 
 Ele no pode!  respondi  Tem uma regra 
estpida que o probe de me ajudar. 
 Que timo!  Nicardo no estava bem. 
 Esto ajuda precisando vejo eu!  o chefe deu 
alguns passos  frente  Ajudar no poder diretamente, 
mas dar chance de escolher. 
O chefe estalou os dedos e quatro seres do 
bosque apareceram na nossa frente. Eram seres do 
bosque diferentes dos demais. Eles tinham uma altura 
maior e um corpo mais parecido com os de um 
humano, mas seu corpo era feito de sombras e folhas, 
nada era 100% ntido e estava comeando a entender 
qual seria a proposta do chefe. 

 Aqui ter quatro amigos seus possveis.  ele 
chegou perto dos quatro seres  Trs ser de mentira, 
iluso. Apenas um ser o verdadeiro. Se verdadeiro 
escolher, estar livre. Se errar, ficar preso amigo seu 
at sumir. 
 Sumir?  Thalassa perguntou  O que ele est 
dizendo? 
  uma longa histria!  olhei para o chefe. Ele 
entendeu e assentiu  Essa floresta foi amaldioada 
pelo rei pouco depois de ser proibida as visitas ao 

santurio. Todos que entram esquecem-se de quem 
eram e ganham nova forma. Mas Alexis no esqueceu 
completamente seu passado. Existe algo nele que o 
prende ao mundo de onde ele veio e isso no est 
deixando a maldio se cumprir. O fato , se a maldio 
no se cumprir Alexis vai desaparecer para sempre. 

 Serio?  senti um tom de deboche e prazer 
em Nicardo. 
 Perder tempo no poder voc!  o chefe disse 
 Ser rpida e logo escolher quem amigo seu ser. 
 Assim, to rpido?  pergunta idiota. 
 Ele disse que no pode perder tempo. Acho 
que  assim to rpido sim!  Nicardo estava muito 
estranho. Nunca tinha o visto ser to... Insuportvel. 
Reparei que ainda estava chovendo e notei que 
a situao comeava a ficar idntica a cena do meu 
sonho. Eu comecei a me apavorar. 

 E se eu errar?  disse alto. 
A chuva ficava mais forte ainda, como no meu 
sonho e quase no conseguia respirar. 

 Eu estou com medo!  as falas estavam 
mudadas, mas a chuva aumentou exatamente como no 
sonho. 
 Voc precisar, amigo seu sumir para sempre! 
 chefe continuava me pressionando. 
 Eu preciso? Tem que ser eu?  estava 
chorando de desespero  Eu no consigo! Eu no 
posso! Eu no posso! 
 Tente!  o chefe falou. 

 Tente, tente, tente, tente, tente!  varias 
vozes surgiram das rvores. 
 Eu no consigo. No consigo!  a chuva no 
dava trgua e o meu sonho continuava se 
concretizando. 
 Faa um esforo.  os quatro falam ao mesmo 
tempo  Por mim. 
 Voc ... No voc... Voc... Eu no consigo! 
 Voc consegue!  Era Thalassa. 
 Voc consegue!  Tales veio para o meu lado. 
 No poderia evitar para sempre!  Nicardo 
estava muito triste. 
 O Alexi ... 
 No desista!  a voz feminina surgiu dentro 
da minha cabea. Agora eu reconhecia a voz. Era a 
Rainha Alina. 
 Voc!  apontei para o terceiro  Voc  o 
verdadeiro Alexis! Prncipe e herdeiro do trono da 
Capital! 
Fechei os olhos. No queria ver o que havia 
feito. Tinha certeza absoluta de que havia errado e 
estava muito apavorada para encarar o meu erro. Eu 
havia posto tudo a perder. Maldita sorte! Ou melhor, 
maldita m sorte! 

Senti uma mo segurando meu ombro. 
Acreditei que fosse Nicardo, mas no pareciam as mos 
dele. Eram mais leves e suaves. Eram como umas mos 
que conheci algum tempo. Um suspiro forte bateu em 
meus ouvidos. Algum se aproximou. 


 Voc conseguiu Beatriz!  eu conhecia muito 
bem essa voz  Voc me libertou! 

CAPTULO 15 / BOTANDO O PAPO EM DIA 


E 
E
u ainda no estava acreditando no que vi. Era 
realmente o Alexis. Era realmente ele quem estava ali, 

na minha frente. Eu olhava para ele e no conseguia 
acreditar que era verdade. Eu no havia errado. Alexis 
estava de novo entre ns. 

Sentir o Alexis era muito mais emocionante que 
em meus sonhos. Saber que tudo aquilo era real foi 
mais do que eu podia aguentar. Era muito. Era 
realmente muito. Era muito mais do que eu podia 
suportar. 

Meu corao no parava por um nico segundo 
de acelerar. Sentia que havia cortado o freio e agora 
estava com o corao completamente desgovernado. 
Tinha medo que ele explodisse de tanta emoo. 

Minhas pernas tambm no ajudaram. 
Tremiam mais que qualquer outra coisa e eu sabia que 
no era frio. J havia esquecido que estava chovendo e 
que eu estava completamente ensopada, assim como 
todos os outros. Teria muita sorte se no pegasse um 
resfriado  e vendo o que aconteceu, comeo a 
acreditar que minha sorte est mudando. 

 O que foi?  sua voz parecia ainda mais bela  
No est me reconhecendo mais? 

 Estou seu bobo.  no sei como isso saiu  

Mas no estou acreditando que acertei. Tinha certeza 

de que iria acertar. 


 J eu no tinha dvidas!  ele abriu um largo 
sorriso. 
Alexis estava mexendo comigo de uma forma 
que eu no conseguia entender. Era mais forte que 
qualquer coisa que eu j havia sentido. No era mais 
apenas uma paixo passageira, era amor de verdade e 
esse reencontro s havia confirmado isso. 

Tive que segurar o impulso de beijar-lo. No 
queria fazer essa crueldade com Nicardo. Ainda ramos 
namorados e eu ainda devia respeito a ele. Se pudesse 
ao menos terminar com Nicardo sem magoas. 

 Voc no mudou nada!  Alexis continuava 
falando  Nem parece que se passaram... Quanto 
tempo j se passou? 
 1 ano e alguns dias.  Thalassa respondeu. 
 Que bom!  Alexis suspirou aliviado  Achei 
que poderia ter passado mais tempo. Como vocs 
lidam com o tempo?  Alexis perguntou ao chefe. 
 No saber.  ele deu de ombros  Tempo ser 
insignificante. Ns ter todo mundo de tempo. No 
prender a coisas essas. 
Olhei para o brao de Alexis. Uma grande 
cicatriz contornava o brao esquerdo, pouco abaixo do 
cotovelo. A triste lembrana do meu ltimo dia em Ofir 
no ano anterior me veio  cabea de imediato. Certas 
coisas eu preferia no ter me lembrado. Era doloroso 
demais para ser mantido em minhas lembranas. 


A chuva comeou a diminuir, mas no parou. 
Por alguns instantes o bosque ficou mais verde e pude 
sentir algo mgico no ar. 

 Magia de bosque querer bosque de volta 
como era.  o chefe falou quando viu meu rosto  Mas 
magia ser muito fraca para isso fazer. 
 Minha promessa ainda est de p!  disse me 
abaixando um pouco  Eu irei, ainda no sei como, 
fazer com que esse bosque seja exatamente como ele 
era antes! 
 Que promessa  essa Beatriz?  Cosmo 
perguntou. 
 De certa forma o que aconteceu aqui foi 
culpa minha.  levante-me  Se eu tivesse lutado contra 
Bianor na primeira vez que cheguei aqui e cumprido 
meu destino nada disso teria acontecido. Sinto-me 
responsvel pelo que aconteceu em toda Ofir. 
 Mas no foi culpa sua!  Alexis estava 
tranquilo  Voc fez o que qualquer outra pessoa faria. 
No era um problema seu, era nosso. 
 Que agora se tornou um problema meu.  
tentei no parecer nervosa. 

 Problema seu, mas que resolver no vai se 
aqui ficar.  o chefe olhou para o alto. A chuva 
comeava a ficar mais forte novamente  Do bosque 
sair rpido. Maldio cair em todos se continuarem a 
ficar. 
 Ele tem razo!  Thalassa ficou sria  J 
conseguimos o que queramos, agora vamos sair daqui. 

 Ento o que estamos esperando?  Tales 
falou alto  No quero virar uma dessas coisas! Sem 
ofensas.  Tales fitou o chefe. 
 No ofender.  o chefe balanou a cabea. 
 Obrigada!  fiz uma reverencia ao chefe  Foi 
um jeito meio estranho de ajudar, mas sei que fez o seu 
melhor. 
 Agradecido eu ficar depois que bosque ao 
que era antes voltar.  o chefe sorriu  Agora vo! 
Vrios olhos iluminaram nosso caminho para 
fora do bosque. No queria admitir, mas eu adorava 
aquele lugar. Apesar do jeito estranho dessa gente, eles 
so todos legais. Um dia j foram humanos e imagino 
que devem sofrer por no lembrar quem eles eram 
antes  sei exatamente como . 

Ficamos muito ocupados tentando chegar ao 
submarino para conversar, mas notei que Nicardo 
fitava Alexis a cada 5 minutos. Isso me preocupava 
demais. Como ele reagiria quando soubesse, ou 
melhor, tivesse a confirmao de que tudo o que eu 
sentia pelo Alexis voltou ainda mais forte do que antes? 

Alexis parecia nem notar que eu e Nicardo 
estvamos namorando. Era como se nem desconfiasse 
deste fato, o que me fez pensar at onde Alexis se 
recordava da poca em que estava se transformando 
em um ser do bosque. 


Quando entramos no submarino  aps o susto 
que Alexis levou  comeamos a relaxar e colocar o 
papo em dia. 

 Voc  realmente incrvel Cosmo!  Alexis 
admirava o submarino  Se tivssemos um desses na 
primeira vez teramos poupado muito tempo de 
viajem. Talvez Ofir no estivesse nesta situao. 
 Acredito que Ofir chegaria a este estado mais 
cedo ou mais tarde.  Thalassa estava sria  Essa  
uma profecia imutvel. Ele tem que acontecer! 
 Infelizmente eu sei disto.  Alexis ficou triste. 
 Mas nem tudo est perdido!  Cosmo injetou 
um pouco de esperana na conversa  Estamos aqui! 
Estamos tentando! Isso no ir durar para sempre. No 
 para isso que estamos lutando? 
 Boas palavras!  Tales parecia com sono. 
 Mas vamos falar de coisas alegres!  resolvi 
mudar de assunto  Alexis est de volta ao time! 
 Vocs no sabem a saudade que eu estava de 
todos!  Alexis sorriu. 
 Ns tambm estvamos!  Nicardo entrou na 
conversa com um tom debochado e snico. 
 Nicardo!  Tales falou alto  Voc est 
parecendo o Alexis! 
 Deixe-o.  um tom de superioridade muito 
familiar voltou  voz de Alexis  Eu j conheo a pessoa. 
 Mas conte tudo o que aconteceu!  Thalassa 
cortou o clima estranho. 

 Depois que consegui pistas do paradeiro da 
minha me com alguns guardas de Bianor que estavam 
do nosso lado, comecei a procurar por ela.  Alexis 
comeou a explicar  Eu tentava seguir as pistas, mas 
algo sempre me levava para outros lugares. Era como 
se existisse algo que me impedia de chegar perto da 
minha me. At que uma das pistas me levou para o 
bosque. 
 E por l ficou!  Tales pensou alto. 
 Eu no sei exatamente, mas eu havia 
conseguido sair do bosque.  Alexis lembrava  Eu sei 
que parece estranho, mas eu senti que se eu me 
transformasse em um ser do bosque eu encontraria 
minha me. 
 Realmente, parece uma lgica estranha.  
Cosmo falou da mesa de controle. 

 Eu resolvi voltar e quando dei por mim eu 
estava me transformando. Tentei memorizar algo 
imediatamente. Sabia que se tentasse memorizar algo 
da minha vida eu conseguiria driblar a transformao, 
ento eu pensei na coisa mais importante da minha 
vida. 
 Sua me?  Nicardo perguntou. 
 No. Beatriz!  Alexis disse meu nome 
pausadamente em uma clara demonstrao de 
implicncia com Nicardo  Quando eu me esqueci de 
tudo, apenas a Beatriz me manteve ligado a minha vida 
anterior e eu sabia que apenas ela poderia me trazer 
de volta. Por isso eu fiquei desesperado quando senti a 

presena dela em meu peito. Eu sabia que ela estava 
em Ofir e tentei loucamente me comunicar com ela, 
mas nunca conseguia. At que um dia consegui e agora 
aqui estou eu de volta. Por isso a Beatriz  minha 
salvadora. 

 Mas ela est comigo agora!  Nicardo 
levantou a sobrancelha esquerda. 
 Por quanto tempo?  Alexis provocou. 
 Vamos parar com a briga?  gritei  Vocs 
dois parecem crianas, que coisa mais feia! Querem 
que eu coloque os dois de castigo? 
Tanto Alexis quanto Nicardo abaixaram as 
cabeas. Eles realmente estavam agindo feito crianas. 
Eu estava nervosssima. Se em menos de 20 minutos os 
dois j estavam assim, como seria a nossa jornada 
daqui a 1 ms? 

 Mas o que aconteceu por aqui durante o 
tempo que fiquei preso no bosque?  Alexis mudou de 
assunto. 
 Coisas muito ruins!  Thalassa parecia no 
querer contar  Leander e Sotero foram destrudas por 
Bianor. Bianor comeou uma guerra particular contra 
os dois reinos que acabaram no suportando e sendo 
destrudos. 
 Que coisa horrvel!  Alexis estava realmente 
chocado. 
 Leander ainda tentou se reconstruir algumas 
vezes, mas no foi possvel. Bianor sempre dava um 
jeito de destruir tudo o que eles reconstruam. 

 Isso  realmente muito ruim!  Alexis 
lamentou. 
 Mas isso no  o pior.  Thalassa parecia ter 
medo de continuar contando. 
 Ainda tem mais?!  Alexis gritou. 
 Depois de Neide, o reino de Calidora tambm 
se juntou a Bianor. 
 Malditos!  Alexis ficou nervoso  Aqueles 
cretinos j estavam traindo Ofir desde antes de Beatriz 
chegar, no sei se fico realmente surpreso com isso. 
Ainda tem mais? 
 Sim!  Thalassa respondeu fechando os olhos. 
 No acredito!  Alexis tapou os ouvidos  
Fiquei tanto tempo assim longe? 

 As tropas da Capital esto fazendo o que 
podem para proteger suas fronteiras, mas elas esto 
enfraquecendo e se nada for feito a Capital ser o 
prximo reino a ser destrudo por Bianor. 
 No se pudermos impedir!  tentei soar 
animador. 
 A Beatriz tem razo!  Cosmo da mesa de 
controle  Ns podemos impedir. Temos muito que 
fazer, mas sei que conseguiremos! 
 Tambm pensei assim da primeira vez!  
Alexis estava triste. No gostava de ver-lo assim. 

Nem um pouco discretamente, Nicardo me 
puxa para um canto do submarino. Ele estava 
visivelmente desesperado. Eu sabia exatamente o que 


ele queria conversar e no estava nenhum pouco 
pronta para isso. 

Seus olhos tinham uma aflio que eu nunca 
havia visto antes e seus braos tremiam. Eu estava me 
sentindo horrvel, a pior das pessoas, a mais cruel das 
garotas por fazer Nicardo sofrer tanto. 

 Diga a verdade!  ele falou baixo. 
 Que verdade?  tentei escapar. 
 Voc sabe muito bem do que eu estou 
falando.  ele tentava no parecer nervoso. 
 Como eu vou saber se voc ainda no disse.  
tentava intil e ridiculamente fugir da conversa. 

 Beatriz, pare!  Nicardo me segurou pelo 
ombro. 
 Pare voc. Solte-me!  eu estava ficando 
nervosa tambm. 
 Eu preciso saber!  Nicardo respirou fundo  
Voc e eu... Ns dois... Tudo continua igual? 
 Como assim?  fiz de desentendida. 
 Beatriz!  ele se irritou  Estou falando serio! 
 Eu tambm!  estava muito nervosa. 
 No!  ele voltou a me segurar  Est 
tentando fugir! 
 Eu no estou tentando fugir porque eu no 
sei o que estamos conversando!  tentei parecer 
convincente. 
 Ser que no?  ele me soltou. 
 Ser que pode ser mais claro?  cometi a 
estupidez de dizer isso. 

 Voc e eu ainda estamos juntos?  ele ficou 
com raiva  Nada mudou? Continuamos sendo 
namorados? O fato de Alexis ter voltado ao significou 
nada para voc? 
 Calma!  engoli a seco. 
 Acho que no preciso de resposta. 
 Espere!  falei um pouco alto. 
 Esperar o que?  Nicardo estava chateado  
Voc oficializar o fim de ns dois? 
 No!  estava confusa. 
 Ento o que? 
 Nicardo, espere.  respirei fundo  As coisas 
no so assim. Elas no so assim. No so assim. 
 Que coisas que no so assim, no so assim, 
no so assim?  ele debochava do meu nervosismo. E 
o pior de tudo: com razo. 
Minha cabea estava comeando a doer e meu 
corao estava ficando apertado. Uma grande angustia 
surgia no meu peito e tomava conta de mim de uma 
forma avassaladora. Estava comeando a ter 
dificuldades para respirar e no sei se conseguiria 
terminar essa conversa bem de sade. 

Fiz o que no devia ter feito. 

 Nada mudou!  estava me sentindo pior 
ainda por ter dito isso. 
 Como assim nada mudou?  Nicardo 
estranho. 

 Ns dois. Nada mudou.  estava morrendo de 
medo de magoar-lo. 
Nicardo me abraou forte e aliviado, apesar de 
seu rosto continuar desconfiado do que eu disse. 

Do ombro de Nicardo, pude ver Alexis. No sei 

o que me cortava mais o corao: Enganar to 
descaradamente o Nicardo ou ferir os sentimentos de 
Alexis de forma to cruel. Eu estava sendo um monstro. 
A dor que sentia j no era mais apenas sentimental, 
era uma dor fsica. Meu peito parecia que estava se 
fechando dentro de mim e esmagando meu corao e 
os meus pulmes. Eu estava sendo medrosa e isso me 
envergonhava demais. 
Chegamos  capital j era de noite. O 
submarino havia sido usado em sua velocidade 
mxima, por isso chegamos no mesmo dia. Seguimos 
direto para casa de Neandro e Linfa. 

 Vocs dois parecem que no pensam!  
Neandro dava uma bronca em mim e no Alexis  Onde 
j se viu, ficar se enfiando dentro de bosques. No sei 
qual dos dois  pior, se  voc que conseguiu sair do 
bosque e teve a capacidade de voltar para quase ser 
transformado ou se foi voc que poderia ser capturada 
e morta. 

 O que vocs fizeram foi muito perigoso!  
Linfa estava mais tranquila. 


 Eu admito, fui impulsiva e no pensei nas 
consequncias!  se tem algo que aprendi com 
sermes e que sempre devemos admitir que erramos 
quando realmente erramos, mesmo que no seja 
necessrio. Pelo menos diminui o sermo. 
Depois que as coisas ficaram mais calmas, sai 
para a varanda. As trs luas estavam l, lindas e 
brilhantes e eu confusa e perdida. No sabia o que 
fazer. Queria muito correr para os braos do Alexis e 
viver minha felicidade, mas no queria que Nicardo se 
machucasse com isso. 

 O que est pensando?  Cosmo sentou ao 
meu lado  Sonhando com as luas? 
 Na verdade eu estava pensando.  respondi  
O que eu irei fazer com Nicardo? 

 Esse dilema ainda?  Cosmo achou graa. 
 Sim, esse maldito dilema!  no gostei do 
deboche  Eu no quero magoar ningum. Amo muito 
os dois e no queria que ningum sofresse. 
 E o que voc vai fazer?  Cosmo ajeitava os 
culos  Ficar com os dois? 
 No!  senti-me ofendida  So amores 
diferentes. Eu amo muito o Nicardo, mas no desejo 
passar o resto da minha vida com ele. Pelo menos no 
como homem. J o Alexis  muito mais que uma paixo 
passageira. O Alexis  amor de verdade! 

 Ento eu no vejo motivos para confuso! 
Termine com Nicardo e fique com Alexis!  Cosmo fazia 
tudo parecer to simples. 
 As coisas no funcionam desse jeito!  bufei  
Queria arranjar uma forma de no fazer o Nicardo 
sofrer. Sinto-me to mal de ficar enganando o Nicardo. 

 Pense bem?  Cosmo ajeitava novamente os 
culos  Enganar o Nicardo dando a ele falsas 
esperanas e muito pior do que voc ser franca e dizer 
que est apaixonada pelo Alexis novamente. Isso no  
s covardia.  crueldade! 
 Eu sei disso!  botei a mo na cabea  Mas 
eu tenho muito medo! 
 Medo do que?  Cosmo segurou minha mo  
De ser feliz? 
 No... 
 Beatriz voc est apenas adiando dias de 
felicidade!  Cosmo me interrompeu  Quanto mais 
tempo voc fingir que nada mudou pior vai ser. A 
mentira nunca  o caminho. Voc s estar afastando a 
felicidade de voc, do Alexis e do Nicardo. Todos iro 
se machucar muito mais se voc continuar assim. 
 Mas eu no sei se consigo. 
 Voc j enfrentou coisas bem piores!  
Cosmo sorriu. 

 Mas a situao  bem diferente!  consegui 
achar graa. 
 No se preocupe tanto em magoar os outros. 
 Cosmo ficou srio  s vezes devemos ser egostas. 

No podemos adiar nossa felicidade em prol da 
felicidade dos outros, sendo que no seu caso a 
felicidade seria justamente o que voc tanto foge. 

 No sei se consigo pensar assim. 
 Mas deve!  ele botou a mo em meu ombro 
 Nicardo ficaria magoado? Sim, por um tempo, mas e 
depois? O que voc acha que ele vai preferir? Ver voc 
infeliz ao lado dele ou ver-la cheia de alegria ao lado de 
Alexis? 
 Eu... 
 No diga nada!  Cosmo interrompeu 
novamente  Apenas pense nisso. Espero que consiga 
tomar a deciso certa e escolher o caminho que lhe 
trar a felicidade. 

CAPTULO 16 / TOMANDO CORAGEM E CAVALOS 
ESPIES 


O
O
bviamente eu no dormi bem naquela noite. Tentava 
entender o motivo de estar com tanto medo. 

Realmente era porque eu no queria magoar Nicardo? 
Era realmente s isso? Ou ser que havia algo mais que 
eu no estava sabendo? Melhor dizendo, no querendo 
assumir ou talvez eu ainda nem sequer houvesse 
descoberto. Eu amava o Alexis, no tinha dvidas. 
Ento por qu? 

Pensei bastante no que Cosmo havia 
conversado comigo. De repente ele havia se tornado 
meu guru, meu confidente e conselheiro de segurana. 
Algo bom no meio desta confuso toda. Nossa amizade 
acabou surgindo de forma natural e ele estava fazendo 
do possvel para me convencer a fazer o que era certo. 

Assim que acordamos Neandro chamou Alexis 
para ir ao castelo. Acabei automaticamente sendo 
convidada por Alexis para acompanhar-los e Nicardo se 
auto convidou para me acompanhar. Estava claro que 
Nicardo no confiava em mim sozinha com Alexis. No 
preciso dizer que Alexis no gostou nada, mas relevou. 

Tomamos o caf rapidamente. No sabia quais 
seriam os prximos passos do Rei Cleo agora que 
recuperei a memria e o Alexis. Talvez os planos agora 
fossem outros. Ou talvez apenas precisssemos 


acelerar o que j havamos combinado  e isso significa 
resgatar Camila, Levinda e Layla. 

Era estranho como sempre havia cavalos por 
perto quando precisamos deles. Neandro contou que 
vrios cavalos do castelo foram trazidos para l, caso 
fosse necessrio. Sem dvida eles eram necessrios. 
Pegamos os cavalos e seguimos direto para o castelo. 

As ruas estavam cheias de guardas  mais do 
que da outra vez em que estive no castelo. Estavam 
todos vigiando alguma coisa e pareciam bem atentos a 
seja l o que for. Pensei em perguntar o que estava 
acontecendo, mas acabei desistindo. No era algo que 
estava interessada naquele momento. 

Assim que entramos na sala do rei, uma grande 
expresso de surpresa e felicidade dominou o rosto do 
Rei Cleo. Provavelmente a surpresa era o Alexis. Rei 
Cleo se levantou e foi no mesmo instante abraar 
Alexis. 

 Mas... Vocs conseguiram!  Rei Cleo estava 
realmente surpreso  Eu nem sei o que dizer. 
 Foi tudo graas a Beatriz!  Alexis sorriu  Eu 
devo tudo a ela!  Alexis alfinetou Nicardo com um 
olhar. 
 O que tinhas na cabea seu irresponsvel?  
Rei Cleo mudou suas expresses  Sabes o risco que 
correu? Como pode... 


 Papai!  Alexis tambm ficou srio  Eu fiz 
isso pela mame. Eu poderia ter achado... 
 No!  Rei Cleo quem interrompeu  Voc 
foi muito irresponsvel! 
 Mas era a mame!  Alexis tentava se 
explicar. 
 Eu sei o quanto voc quer achar a Alina  Rei 
Cleo se acalmou  mas no  desta forma que voc vai 
conseguir. 
 Ento  de que forma?  Alexis ficou nervoso 
 Conte-me? 
O silncio chegou ao ponto do insuportvel 
antes que algum desse qualquer resposta. Alexis 
encarava o pai, que no sabia o que dizer. 

 Eu no quero que corra riscos.  Rei Cleo 
respirou fundo. 
 Mas do que adianta ficar a salvo?  Alexis 
tentava no se irritar  O que adianta me manter preso 
e deixar a mame a merc da sua prpria sorte? Eu no 
sou mais aquele garoto que sentava em seu colo e 
puxava sua barba, eu j sou um homem! 
 Ento pare de agir feito criana!  Rei Cleo 
se sentou  Voc no deve agir desta forma impulsiva. 
Compreendo que  frustrante saber que Alina est em 
algum lugar, esperando nossa ajuda, mas do que 
adiantar se algo acontecer a voc? Precisamos fazer 
as coisas com calma. Pensar antes de agir. No 
podemos arriscar perder ningum. 

 Eu entendo.  Alexis baixou a cabea  Mas 
no concordo. Eu no irei desistir de procurar a 
mame. Eu irei atrs dela com ou sem o seu 
consentimento! Se me do licena, eu j acabei. 
Alexis saiu da sala e eu tentei ir atrs dele, mas 
algum me segurou pelo brao. Nicardo. 

  melhor deixar-lo um pouco s.  Neandro 
colocou a mo em meu ombro. 
 Existe algo que ainda no me contaro?  Rei 
Cleo perguntou por perguntar. 
 Sim!  Neandro deu alguns passos a frente  
A Beatriz recuperou a memria! 
 Mas isso  maravilhoso!  Rei Cleo sorriu  
Como est se sentindo? 

 Bem melhor!  respondi. 
 Quando me contaram que voc havia fugido 
para resgatar Alexis eu desconfiei, mas ter a 
confirmao  sempre diferente.  definitivo! 
 No sei se  o melhor momento, mas gostaria 
de saber como ficaria o nosso plano de resgate agora.  
no queria falar sobre isso naquele momento, mas 
temia no ter outra oportunidade  Eu j sei me 
defender sozinha e sei que os demais tambm no 
iriam ter problemas. 
 Ainda acho arriscado.  Rei Cleo fez uma 
cara de desaprovao  Quanto menos voc se expor, 
melhor. Acho que devemos continuar com o plano 
original e esperar o melhor momento para resgatar-las. 

 No sei se realmente  melhor seguir o plano. 
 tentei no parecer desrespeitosa  Eu sei que posso 
conseguir entrar e sair do castelo de Calidora sem ser 
percebida. 
 O que existe na gerao de hoje que no 
sabem esperar?  Rei Cleo levantou as mos at a 
altura do queixo e olho para cima. 
 Tudo bem. Eu espero.  realmente meu 
timing foi terrvel. No era o momento para aquela 
conversa.  Acho que  tudo. Com licena. 
Sai da sala do rei e Nicardo veio atrs de mim. 
Ele parecia nervoso e desconfiado. Eu deveria estar 
torturando demais o Nicardo. Ele no  burro e j deve 
ter percebido que menti pra ele. 

Antes mesmo que pudesse dar um passa para 
fora da sala, Alexis entrou em minha frente. Nicardo o 
fitou e ele devolveu o olhar como se tivessem trocando 
bolas de canho. 

 Posso conversar com voc?  Alexis segurava 
minha mo, mas fitava Nicardo  Em particular. 
 C-c-claro!  estava sem jeito. 
Alexis no me tirou do campo de viso de 
Nicardo, apenas me levou para um pouco mais longe, 
perto da grande escadaria que fica em cima da porta da 
sala do rei. 

 Voc ainda no contou a ele por qu?  Alexis 
foi direto. 

 Eu ainda no tive coragem! -fui sincera. 
 Coragem?  ele sorriu debochadamente  
Voc precisa de coragem para terminar com ele? 

 Eu no quero magoar-lo.  fitei o cho. 
 tima troca, deixa o outro feliz e me crava 
uma faca no corao.  Alexis no quis olhar para mim 
 Quem voc acha que te ama mais? Eu ou o Nicardo? 
 Alexis...  tentei falar.  Eu reconheo tudo o 
que ele fez e, honestamente, fico agradecido por ter 
cuidado to bem de voc, mas ele no te ama igual eu 
te amo! 
 Como pode ter tanta certeza?  tentei no 
parecer grossa. 
 Porque amor igual ao meu voc nunca ir 
encontrar.  Alexis segurou meus ombros  Apenas eu 
posso te amar deste jeito! 
 Alexis, por favor...  tirei as mos dele dos 
meus ombros. 
 Eu devia ter desconfiado!  Alexis socou a 
parede de leve  Vai ser igual da outra vez. Eu 
sonhando sozinho. Nosso amor sempre foi mais meu 
do que seu. Quer dizer, acho que nunca ouve um nosso 
de verdade. 
 Mas voc nunca fez nada!  estava quase 
chorando  Voc demorou demais para tentar e 
quando tentou, eu j estava dividida. 
 Ento voc ainda est dividida?  novamente 
ele no quis olhar em meus olhos. 

 No!  falei um pouco alto demais  Eu sei 
que te amo e sei que  com voc que eu quero passar o 
resto da minha vida, mas... Alexis, me de um tempo 
para eu arrumar as coisas do meu jeito? 
 Uma semana!  ele ficou serio   tudo o que 
eu posso te dar. 
 Tudo bem, eu aceito.  baixei a cabea e 
fechei os olhos. 
 Mas se no fizer nada em at uma semana... 
Alexis subiu deixando o restante da ameaa o 
ar. Eu estava perdida. Talvez eu devesse simplesmente 
falar, da melhor forma possvel e esperar que Nicardo 
no me odeie pelo resto da vida. Ou talvez fosse 
melhor preparar o terreno antes de dizer, mesmo que 
ele j desconfie, como disse o Rei Cleo ter a 
confirmao  sempre diferente. 

 Nicardo... Eu preciso falar com voc!  tentei 
no olhar em seus olhos. 
 O que vocs dois conversaram?  ele estava 
nervoso  Voc no vai quebrar sua promessa vai? 
 Nicardo, ao fale assim!  fiquei sem jeito. 
 Beatriz, voc sabe, ningum vai te amar como 
eu te amo. Ningum!  Nicardo me abraou e toda a 
coragem que havia juntado se dissipou naquele abrao. 
Coragem  uma coisa muito difcil de se ter 
quando se trata dos sentimentos de outra pessoa. 
Ainda mais quando essa outra pessoa  algum que 


voc ama. E quando voc sabe que no existe outra 
forma alm de machucar aquele que voc ama, a 
coragem vira uma palavra desconhecida em seu 
dicionrio. 

No imaginei que um dia fosse sofrer tanto 
para tomar uma deciso da qual eu sei que no irei me 
arrepender. Tudo o que eu queria ouvir do Alexis eu 
estava ouvindo. Ele estava apaixonado por mim e eu 
loucamente apaixonada por ele. Nossas vidas seriam 
maravilhosas e cheias de felicidade, eu no tenho 
dvida, mas e o Nicardo? Eu no conseguiria ser 
plenamente feliz sabendo que o Nicardo no era 
plenamente feliz por minha culpa. Esse  um peso que 
nunca conseguiria carregar. 

Neandro continuou na sala do pai e no voltou 
com a gente. Seguimos vagarosamente pelas ruas 
lotadas de guardas de volta para a casa de Neandro e 
Linfa. 

Os guardas continuavam vigiando alguma coisa 
e desta vez fiquei um pouco mais interessada. Fitei o 
cu, mas no vi absolutamente nada. Tentei e tentei e 
tudo o que via era o cu azul e pssaros voando, livres 
e felizes. s vezes eu gostaria de ser um pssaro, acho 
que eles no tem problemas sentimentais. 

Vendo os pssaros voando, uma nova injeo 
de coragem fluiu em mim. Eu no podia prolongar por 
muito mais tempo, at porque eu no tinha muito 
tempo. Sentia-me pssima em enganar o Nicardo de 


forma to descarada e ainda continuar com isso 
mesmo vendo que ele est percebendo que alguma 
coisa mudou de verdade entre ns. 

 Nicardo, eu quero contar algo para voc!  
disse baixo  No queria que fosse aqui, no meio da 
rua, mas no disser agora talvez no consiga dizer 
depois. 

 Beatriz  o rosto de Nicardo ficou branco  O 
que voc quer falar? 
De repente, no cu por detrs de Nicardo, eu vi 
uma mancha negra se aproximando e tirando minha 
ateno. Mas aquilo era... 

 Um cavalo voador?  falei alto. 
 O que?  Nicardo se virou. 
 Cavalo espio!  um dos guardas gritou  
Todos preparados! Assim que ele se aproximar! 

 O que est acontecendo?  perguntei, mas 
no tive resposta. O cavalo se aproximava. 
De longe o cavalo parecia normal  apesar das 
asas  mas quando desceu ao cho tive uma grande 
surpresa. Uma grande e pssima surpresa. 

O cavalo tinha no mnimo uns 3 metros de 
altura. Ele andava pela rua lotada e passava por cima 
das casas, mas nada acontecia. Era como se o cavalo 
fosse feito de sombra. 

Os guardas comearam a atirar flechas no 
cavalo, mas todas passavam por ele ou se desfaziam 


quando tocavam nele. O cavalo relinchava e batia com 

o casco no cho. Grandes nuvens de fumaa saiam de 
suas narinas e seus olhos eram de um vermelho vivo 
que fazia contraste com a cor preta de seu pelo. 
Apesar de no haver nada alem de um brilho 
vermelho nos olhos, senti que o cavalo olhava para 
mim. Era como se estivesse me procurando e eu j 
sabia exatamente que havia enviado. 

Mais guardas apareceram inutilmente e 
continuaram tentando desesperados derrotar o cavalo, 
mas nada acontecia. Era uma perda de tempo. 

 Nicardo, eu sei o que fazer!  gritei. 
 Do que voc est falando?  Nicardo ficou 
assustado. 
 Eu acho que sei como derrotar esse cavalo!  
voei at a altura da cabea do bicho. 

 O que voc pretende fazer?  Nicardo gritou. 
 Voc ver!  gritei respondendo. 
Respirei fundo e me concentrei. Tentei juntar o 
mximo de ar que consegui e senti uma grande presso 
se juntando em minhas mos. Logo uma grande bola 
invisvel de ar comeou a se formar. S consegui 
identificar o que era porque vrios gravetos e folhas se 
juntaram a bola e rodopiavam em uma velocidade 
impressionante. O cavalo negro me fitou furioso. Ele 
parecia saber o que eu pretendia fazer e no estava 


gostando nada disso, mas por algum motivo no podia 
fugir. Era com se estivesse preso ou paralisado. 

A bola de ar continuou crescendo e pequenos 
raios comearam a nascer dela. Esses raios soltavam 
pequenas fascas de fogo, que queimavam as folhas e 
galhos. No demorou muito para eu ter uma grande 
bola de ar e fogo em minhas mos. Aquela era a hora. 

Olhei nos olhos do cavalo. O vermelho vivo 
parecia estar brilhando mais que deveria e as 
expresses do cavalo pareciam desesperadas. Juntei as 
mos e dei um forte assopro na bola de fogo e ar. 

Uma grande rajada de vento e fogo envolveram 

o cavalo que comeou a ser consumido e sumindo 
junto com o fogo. Seus olhos vermelhos saltaram para 
fora e rapidamente atirei duas pequenas bolas de fogo 
para destruir-las. Desci at o cho exausta. 
 O que era aquilo?  perguntei ofegante. 
 Era um cavalo espio!  um dos guardas 
respondeu  Bianor vem usado vrios para saber o que 
anda acontecendo por aqui, mas antes ele costumava 
esconder melhor. 
 E esse...  outro guarda comeou a falar 
apavorado  Sem dvida no era igual aos outros que 
apareceram. Esse parecia ser feito de sombras. 
 Beatriz!  Nicardo se assustou  Voc no 
pode ficar se expondo deste jeito! Se esse espio 
tivesse levado a informao de que voc est aqui? 
 Mas eu j recuperei a memria!  estava 
confusa  Por que estou to exausta? 

 Voc recuperou a memria, mas no se 
tornou invencvel!  Nicardo sorriu  A magia que voc 
usou  poderosa demais. Ainda no sei como conseguiu 
executar-la. Seu corpo ainda no est preparado para 
esse tipo de magia. 
 Mas desta vez eu no desmaiei!  sorri. 
 No, voc no desmaiou!  Nicardo tambm 
sorriu  Mas deixa que eu te levo no colo. Voc no 
pode ficar se cansado demais. 
 Nicardo!  falei alto  Estamos ainda muito 
longe. 
 E o qu que tem?  ele sorriu. 
 Voc vai acabar se cansando! 
 No muito.  ele me pegou no colo  Voc 
precisa descansar muito mais que eu neste momento. 
 Nicardo!  acabei desistindo. 
 O que voc ia dizer mesmo?  Nicardo 
perguntou. 
 Esquece!  respondi. 
O que Nicardo estava fazendo era golpe baixo. 
Joguinhos emocionais justo no momento em que estou 
mais vulnervel? Ele realmente estava jogando sujo! 
Mas por que, ainda assim, eu no conseguia falar com 
ele? 

No fim talvez tenha sido bom. Seria horrvel 
terminar com ele ali, no meio da rua. Isso seria cruel 
demais para o meu jeito de agir. Era melhor esperar 
que chegssemos  casa da Linfa para dizer a ele tudo o 


que estava acontecendo comigo e que tudo havia 
mudado e ns no poderamos mais ficar juntos. Aos 
poucos isso no parecia mais to difcil de se fazer. 


CAPTULO 17 / TROCANDO CONSELHOS E UMA 
DECISO DIFCIL 


J 
J
 haviam passado dois dias desde que fiz o acordo com 
Alexis. Eu deveria estar feliz por ele me dar uma 

semana ao invs de um dia, como poderia ter 
acontecido  visto o tempo que ele est me esperando. 

Seria cruel demais eu prolongar essa difcil 
deciso? Seria essa realmente uma difcil deciso? Por 
que essa confuso em minha mente? Eu gostaria de 
entender o que se passa comigo nessas horas. A 
indeciso e to grande, to forte que no sei at que 
ponto vai a minha coragem nesta situao. 

Se outra pessoa estivesse me contando esse 
caso ou mesmo se estivesse assistindo essa situao 
em um filme ou livro eu diria Essa garota  uma 
completa retardada! e ainda completaria com Se 
estivesse no lugar dela eu j teria dado um p nele! 
Mas no  assim to simples na prtica. Melhor 
dizendo, o que  simples na prtica? 

Eu sei o que quero e sei o que devo fazer, mas 
imaginar que algum ter o corao partido por minha 
culpa  muito ruim.  realmente muito, muito ruim. Por 
que as decises mais importantes so sempre as mais 
difceis? 

 Voc est bem?  Tales perguntou. 
Eu estava deitada debaixo da grande rvore da 
casa de Neandro naquele momento. Era fim de tarde e 

o cu estava ganhando aquele tom alaranjado de 

quando o sol est se pondo. Um vento fresco fazia 
algumas folhas carem e o dia emanava paz e 
tranquilidade. Era um dia perfeito e para Tales fazer 
esse tipo de pergunta era porque eu devia estar 
pssima. 

 Eu estou!  menti  Por que eu no estaria? 
 Sei l... Voc parece meio... Morta!  eu 
realmente devia estar horrenda. 
 Acho que  impresso sua!  dei um sorriso e 
me levantei  Voc s vezes tem cada uma. 
 Sei...  ele me fitou com um sorriso 
debochado no canto da boca. 
 Est desconfiando de mim?  tentei parecer 
descontrada. 
 Imagina!  ele parecia tentar no parecer 
debochado. 
Fiz lngua para ele e voltei para dentro de casa. 
Ouvi algumas risadas antes de entrar e esperava que 
ele me deixasse em paz. A ltima pessoa com quem eu 
gostaria de conversar sobre esse assunto  o Tales. Ele 
leva tudo na brincadeira. Ele s  serio quando tem que 
ser o comandante-capital-general-e-mais-qualqueroutro-
ttulo. 

A noite no demorou muito a chegar. Do meu 
quarto eu via as trs grandes luas mais uma vez. Existia 
algo mgico nelas que me acalmava. Estava esfriando, 
mas eu no estava me apegando a esse fato. A nica 
coisa que pedia era coragem para o eu estava prestes a 


fazer e que tudo acabasse da melhor forma possvel 
para mim e para o Nicardo. Principalmente para o 
Nicardo. 

Thalassa continuava dormindo comigo e os 
meninos continuavam na sala. Linfa e Neandro 
pareciam no se importar com a casa cheia, pelo 
contrario, eles pareciam estar mais que satisfeitos. 
Tales, Cosmo e Nicardo e que pareciam ao estar muito 
felizes em ter que revezar o sof, mas no fim todos se 
entendiam de alguma forma. 

 Nossa Beatriz, voc est pssima!  Thalassa 
se assustou quando entrou no quarto. 
 Est to visvel assim?  perguntei triste. 
 Est quase escrito em sua testa.  ela 
balanava os cabelos com as mos. 
 Ento  pior do que eu pensava.  constatei. 
 E sobre voc o Nicardo e o Alexis?  ela 
perguntou. 
 Vai me dizer que isso tambm est escrito na 
minha testa?  perguntei tapando minha testa com a 
mo. 
 Sim.  ela sorriu. 
 Acho que me testa  maior do que eu 
imaginava.  tentei encarar com humor  Vou comear 
a usar lenos! 
 Voc quer falar sobre isso?  ela perguntou. 
 Sobre eu usar lenos?  rebati. 
 No sua boba!  ela sorriu  Sobre voc, o 
Nicardo e o Alexis. 

 Tem certeza que quer me ouvir?  torci o 
nariz. 
 Se quiser falar... 
 Thalassa eu estou totalmente perdida!  sai 
da janela  Eu sinto como se estivesse cometendo um 
crime. Eu sei exatamente o que fazer, mas no consigo. 
 como se algo me prendesse e de repente e eu me 
visse atada e impotente. Isso  terrvel. 
 Terrvel e estranho!  Thalassa me fitou sria 
 Voc est apaixonada, ou melhor, sempre foi 
apaixonada pelo Alexis. Eu sei que o Nicardo  um anjo, 
mas ele tambm  grande o suficiente para aguentar o 
trmino de um namoro. Voc no devia estar assim, a 
menos que... 
 A menos que o que?  desconfiei do que ela 
iria falar. 
 A menos que seus sentimentos pelo Nicardo 
sejam maiores do que o que voc julga ser. 
 Confesso que fiquei mexida com o Nicardo, 
mas era por que ele me lembrava o Alexis!  respondi  
Sempre que u olhava para ele, era o Alexis que eu 
estava buscando inconscientemente. Eu amo o Alexis. 
 Ento por que hesita tanto?  Thalassa 
perguntou novamente sria. 
 Eu j disse, eu no sei exatamente!  respirei 
fundo   como se algo dentro de mim dissesse que eu 
irei me arrepender de terminar com ele. 
 Ento voc tem sentimentos maiores pelo 
Nicardo?  Thalassa perguntou. 

 No!  me entristeci com o que ia dizer  
Acho que  algo bem pior e bem mais nefasto do que 
eu possa aguentar assumir. Acho que eu tenho pena do 
Nicardo. Talvez seja isso que me faz hesitar tanto. 

 Pena?  desta vez ela sorriu.  Beatriz ele no 
vai tentar se suicidar e nem vai entrar em depresso 
profunda por causa disso. Aposto como ele se sentir 
bem melhor em ver voc feliz com o Alexis do que 
infeliz ao lado dele. 
 O Cosmo tambm me disse isso!  pensei 
alto. 
 Voc anda se aconselhando com o Cosmo?  
Thalassa perguntou levantado uma sobrancelha. 

 Tambm no sei como isso aconteceu, mas 
ele tem dado bons conselhos!  respondi. 
 Disso eu no tenho dvida.  ela me fitou de 
modo estranho  Mas vocs conversaram apenas sobre 
isso certo? 
 Sim!  respondi sem entender  Mas por que 
a pergunta?... Espera um segundo! 
 O que?  Thalassa perguntou assustada. 
 Voc est gostando dele!  falei alto. 
 Silncio!  ela tapou minha boca  Quer que a 
casa inteira escute? 
Fitei-a provavelmente com os olhos brilhando. 
Ela ainda estava com a mo na minha boca e olhando 
para a porta como se esperasse que algum a abrisse e 
dissesse algo sobre a minha declarao. Quando viu 


que aparentemente ningum havia ouvido, Thalassa 
tirou a mo da minha boca. 

 Ento  isso!  disse baixinho  Voc gosta do 
Cosmo! 
 Tudo bem. No vou negar!  Thalassa 
respirou fundo  Eu estou apaixonada pelo Cosmo! 
 Mas como foi isso?  perguntei. 
 Pouco depois de nos conhecermos.  ela 
sorriu  Eu estava o observando trabalhar em uma de 
suas invenes e de repente senti que poderia fazer 
aquilo pelo resto da vida. 
 Que lindo!  quase bati palmas.  Eu senti um 
aperto no corao e uma vontade louca de dizer a ele 
tudo o que estava sentindo e beijar-lo como se 
precisasse disso para respirar. 
 E por que no fez?  perguntei. 
 O Cosmo no me v dessa forma!  ele 
suspirou  Para ele eu sou apenas uma amiga. Uma 
irm postia e nada mais. Ele nunca me viu como 
mulher. 
 E voc tem tanta certeza assim por que 
mesmo?  brinquei. 
 Ele j teria dito alguma coisa se tivesse 
alguma inteno.  ele fitou a cama. 
 O Cosmo?  desta vez eu que achei graa  
Olha, eu o conheo h pouco tempo e no sei tanto 
dele quanto voc deve saber, mas o Cosmo no parece 
do tipo que fala esse tipo de coisa. 


 Como assim?  Thalassa perguntou 
interessada. 
 Ele  um eterno tmido!  respondi  Ele 
poderia ficar anos tentado juntar coragem para dizer 
que mesmo assim ele no conseguiria. 
 Voc acha?  ela perguntou ainda mais 
interessada. 
  claro!  fui segura na resposta  Eu conheo 
muitos garotos como o Cosmo. Voc precisar tomar 
essa atitude. 
 Mas e se ele no for assim to... tmido?  ela 
juntou um pouco mais o rosto dela com o meu  Se ele 
realmente s me v como uma amiga? 
 Voc ter que arriscar!  fui sincera  Mas se 
quiser se sentir mais segura, repare nas atitudes dele. 
Um olhar, um ato, um sorriso. Quando uma pessoa est 
interessada, tudo  feito de forma diferente. Talvez ele 
pense o mesmo de voc ou est dando vrias dicas, 
com certa sutileza, e voc nem repara. 
 Ser?  ela perguntou mais para si mesma. 
 Pode apostar!  sorri  Faa o que eu disse, 
comece a reparar mais nele e depois tome sua deciso. 
Sua felicidade s depende de voc! Nossa est ficando 
frio aqui dentro! 
 Sbias palavras!  Thalassa sorriu  Fao 
minhas as suas palavras quanto ao seu caso. 
 Que palavras?  perguntei  Nossa est 
ficando frio aqui dentro? 

 No!  ela sorriu  Sua felicidade s depende 
de voc! 
Rimos juntas e eu fui fechar a janela. No era 
por acaso que o quarto estava esfriando. Deitei em 
minha cama e fiquei esperando o sono chegar. Apesar 
do meu principal problema no me deixar em paz, o 
sono no demorou muito em me pegar e quando 
menos percebi j era de manh. 

O dia comeou chuvoso e isso era um pssimo 
sinal. Fui tomar caf com os outros. Eu havia sido a 
ltima a acordar. 

 Bom dia!  disse ainda sonolenta. 
 Bom dia!  todos responderam quase ao 
mesmo tempo. 
 Sente-se Beatriz!  Linfa estava sorridente  
Acabei de assar um po! Est quentinho! 

 Obrigada Linfa, mas eu vou beber apenas um 
suco!  bocejei. 
 Tem certeza?  Linfa colocou o po na mesa. 
 O cheiro est maravilhoso, mas tenho 
certeza!  sorri  Hoje eu no estou com muita fome. 
 Se prefere assim...  Linfa sempre sorridente. 
 Ento Thalassa, pensou sobre o que 
conversamos ontem?  perguntei pegando um copo. 
 O que vocs duas conversaram?  Tales 
perguntou debochado. 
 Coisas de menina!  respondi com certo tom 
de grosseria e implicncia. 

 J sim!  Thalassa respondeu um pouco 
constrangida  Vou fazer o que disse. Mas  voc? 
Pensou no que eu te falei? 
 Me deixa adivinha.  Tales sorriu  Coisas de 
menina! 
 Exato!  respondemos as duas ao mesmo 
tempo. 
 timo!  Tales bufou  No estava querendo 
saber mesmo. 
 Sei...  sorri  Mas ainda no. Estou quase. 
Acho que de hoje no passa. 
 De hoje no passa o que?  Nicardo entrou na 
cozinha. 
 Coisas de meninas!  Tales debochou. 
Cosmo me olhou intrigado. Bebi o suco e segui 
para varanda  lugar onde estava ficando acostumada a 
pensar. Cosmo me seguiu. 

 Voc estava falando do Nicardo certo?  ele 
perguntou. 
 Sim.  respondi sem expresses. 
 Mas o que ainda voc precisa pensar?  ele 
perguntou. 
 Honestamente, eu j no sei mais.  suspirei 
 No sei s u realmente no quero fazer isso ou se eu 
coloquei na cabea que no podia. Eu j no 
compreendo esse minha relutncia. 
 Mas voc disse que de hoje no passa.  
Cosmo se sentou ao meu lado  Isso quer dizer que 
voc est quase decidida. 


 Eu acho que j estou decidida!  disse fitando 
o cho  Apesar de no entender o que me faz ficar 
presa ao Nicardo, acho que vocs esto com a razo. 
Nicardo vai sofrer muito mais se eu continuar com isso. 
E ainda corro o risco de perder o Alexis. Ou seja, no 
adianta nada ficar adiando algo que deveria ter sido 
feito no mesmo momento. No h motivos para isso. 
 Que bom que est chegando a uma 
concluso!  ele sorriu  Era sobre isso que estava 
conversando com Thalassa? 
 Sim!  notei certo interesse que nunca havia 
percebido  Pensa que s voc  meu conselheiro? Eu 
preciso de uma segunda opinio. Confesso que s vezes 
at uma terceira. 
 E vocs conversaram s sobre isso?  ele 
perguntou. 
 S!  provoquei  Ela deveria falar sobre 
alguma outra coisa? 
 No.  ele ficou constrangido  S perguntei 
por perguntar. 
 Vamos falar srio!  fui direta. Esqueci que 
com o Cosmo essa era a pior estratgia  Voc est 
gostando da Thalassa? 
Neste momento seu rosto ficou vermelho 
sangue. Seus olhos se esbugalharam e ficaram ainda 
maiores atrs das lentes do culos. Ele comeou a suar 
e suas mos ficaram tremulas. 

 E-e-ela reparou e-e-em algo?  ele perguntou 
 Digo... E-e-ela achou alguma coisa e-e-estranha e-e

em mim? Olha, se-se-se ela di-di-di-disse alguma coisa 
foi um ma-mal... 

 Calma!  sorri  Ela no achou nada estranho 
e nem comentou nada sobre voc. 
 E-e-e-ento por que a pergunta?  ele estava 
nervosssimo. 
 A sua reao j responde.  continuei 
sorrindo. 
 Eu estou... Eu vou... Eu....  ele suspirou  Isso 
 um a-a-absurdo! Ela  s uma a-a-amiga! 
 Tem certeza?  perguntei. 
 Tenho!  ele tentava no gaguejar. 
 Tudo bem, acredito.  menti  Mas no 
conversamos s sobre isso. Ns tambm conversamos 
sobre homens tmidos. Sabia que ela est apaixonada 
por um carinha. 
 Q-q-que carinha?  ele se levantou 
 Um carinha.  sorri maliciosamente  Ela 
disse que est gostando dele. Mas acho que se algum 
outro carinha se declarar para ela... Esquece, voc no 
gosta dela mesmo. 
 Espere!  ele mordeu a isca  Agora eu quero 
saber! 
 Por qu?  perguntei. 
 Vai me contar ou no?  ele estava realmente 
nervoso e aflito. 
 Bem, eu acho que se algum se declarar para 
ela, Thalassa esquece rapidinho esse carinha e fica com 
aquele que j se declarou. Mas acho que esse carinha, 

se ele aparecer, tem que agir depressa. Eu no sei at 
quando o outro carinha vai ficar indeciso para pedir 
para namorar com ela. 

 Espero que o carinha faa alguma coisa!  ele 
disfarou. 
 Eu tambm espero!  disse fitando-o 
sugestivamente. 
Nicardo saiu e eu imediatamente e levantei. 
Cosmo viu o que eu estava prestes a fazer e entrou 
para casa de Linfa. Ficamos apenas eu e Nicardo. 
Respirei fundo e quebrei o silncio sbito que nasceu 
no momento: 

 Eu preciso conversar com voc! 
Fomos at a grande rvore e nos sentamos. A 
chuva  que havia dado uma trgua  voltou como se 
soubesse que estava prestes a acontecer. Respirei 
profundamente antes de continuar a conversa. 

 Eu acho que j sei o que voc quer falar 
comigo.  Nicardo me olhava triste. 
 Como?  perguntei. 
 De hoje no passa  ele deu um sorriso 
pequeno  No foi isso que disse quase agora? 
 Nicardo, eu no queria... 
 Eu sei que voc no queria.  ele ficou srio  
Eu sei que voc evitou e sei at que o Alexis te deu um 
intimado, alias, isso  tpico dele. 
 Mas como?  estava espantada. 

 Esqueceu que eu posso sentir o que os outros 
ao meu redor sente?  seus olhos estavam cheios de 
tristeza. 
 E por que no disse nada?  perguntei. 
 Essa  uma coisa que apenas voc poderia 
fazer.  ele tentou sorrir  Eu no podia fazer nada. 
 Nicardo... 
 Vamos tentar acabar isso em paz?  ele sorriu 
de verdade  Sem palavras, sem magoas. 
 Nicardo... 
 Beatriz, eu te amo demais.  ele estava quase 
chorando  Eu te amo tanto que no suportaria viver 
com voc infeliz. Seria um ato de extremo egosmo da 
minha parte. No fundo eu j sabia que no poderia te 
ter para sempre. 
 Nicardo... 
 No.  ele colocou o dedo indicador na frente 
da minha boca  No precisa dizer nada. Eu no queria 
ter uma chance com voc. No queria te ter por algum 
tempo e depois te perder. Eu sabia que se fizesse isso 
eu no iria suportar a abstinncia de te ter quando 
voc se fosse. Mas a minha vontade de ter voc por 
algum tempo, mesmo que pequeno, acabou falando 
mais rpido e eu esqueci que o que estava tentando 
fazer era me proteger deste sentimento que estou 
sentindo agora. 
 Nicardo... 
 Eu s quero dizer que eu no irei impedir 
voc de nada. Eu no tenho esse direito. Eu... 

 Nicardo!  desta vez eu que pedi o silncio 
dele  Eu no queria fazer isso por que sabia que o 
resultado seria esse. Eu no suporto a idia de te 
magoar e no suporto a idia de saber que voc est 
sofrendo por minha causa. 
 Mas no  por sua causa!  ele segurou 
minha mo  Eu sabia o que me esperava. Eu que no 
fui forte o suficiente para resistir a voc. Eu procurei 
por isso. 
 No Nicardo! 
 Sim!  ele fitou o cho  A culpa  minha. Mas 
eu prometi uma separao sem palavras e acabei 
dizendo mais do que devia. Desculpe. 
 Nicardo... 
 Eu s espero que no fique com raiva de 
mim. 
 Ficar com raiva?  eu estava chorando  
Nunca ficaria com raiva de voc. Apenas de mim. 
 Acho que j falamos demais!  Nicardo 
estendeu a mo direita  Amigos? 
 Amigos!  apertei a mo dele. 
Abraamo-nos e, como se realmente soubesse, 
a chuva parou novamente. 


CAPTULO 18 / UM SEQUESTRO ADORVEL 


P 


assamos o restante do dia muito bem. Estava feliz que 

 apesar de tudo  eu e o Nicardo terminamos bem. 
Estava to aliviada e me sentindo to leve que quase 
me esqueci do real motivo de estar ali. 
Fiquei imaginando o que Camila iria dizer 
quando soubesse que terminei com Nicardo. Lembrar 
dela me deixava preocupada. Que tipo de amiga eu era 
deixando-a para trs? Queria que o Rei Cleo desse 
logo a permisso para que fossemos resgatar a Camila 
e as outras noivas do Bianor. 

 Sente-se melhor agora?  Cosmo perguntou. 
 Bem melhor!  respondi sorrindo enquanto 
olhava a grande rvore pela porta da sala. 
 Foi algo to terrvel como imaginava?  ele 
estava srio, mas era possvel sentir o tom de deboche 
em sua voz. 
 Tudo bem. Admito. Voc estava com toda a 
razo! 
 Obrigado por reconhecer.  Cosmo sorriu  E 
agora? Voc vai falar com Alexis ainda hoje? 
 Hoje no.  sorri maliciosamente  Vamos 
deixar esperar mais um pouquinho. Amanh cedo eu 
vou falar com ele. Isso , se eu conseguir realmente 
esperar at amanh. E a Thalassa? 
 O que tem a Thalassa?  seu olho direito 
comeou a piscar estranhamente. 

 Falou alguma coisa sobre o carinha?  bati o 
ombro em suas costas. 
 P-p-por que acha q-q-que ela falaria alguma 
coisa comi-migo?  Cosmo comeou a ficar nervoso. 
 Voc  bem prximo a ela.  fiz de 
desentendida  Achei que ela poderia ter dito algo. 
 Ela n-n-no disse nada comi-migo.  o olho 
direito de Cosmo voltou a piscar. 
 Por que voc fica to nervoso quando falo 
neste assunto?  provoquei. 
 E-e-e-eu?  ele quase gritou  Q-q-quem 
disse que eu estou n-n-nervoso? 
 S-s-sei La-la-la?  o imitei. 
 Va-va-vamos falar de-de outra coisa?  ele 
tentava no parecer nervoso. 
 Tudo bem.  sorri  S no se esquea que, 
caso algum venha se declarar para ela, a Thalassa 
esquece esse carinha no mesmo instante. 
 E por que est falando isso para mim?  ele 
conseguiu perguntar sem gaguejar. 
 Por nada. Falei por falar  segurei o riso  
Acho que vou dar uma passeada pela montanha. Quer 
vir? 
 No. Pode ir.  Cosmo j estava comeando a 
fugir de mim. Talvez eu devesse comear a pegar mais 
leve com ele. 
 Como quiser.  fiz um sinal de desdm com a 
mo. 

Fui para as montanhas respirar um pouco de ar 
fresco. A chuva no havia aparecido novamente, mas a 
terra estava molhada e tinha aquele cheirinho de chuva 
que me fazia to bem. As rvores pingavam pequeninas 
gotas que se prendiam nas folhas e a montanha 
emanava um clima mido, porm aconchegante. No 
fui muito longe, apenas o suficiente para continuar 
sendo vista por quem me procurasse na casa. 

Desde que cheguei a Ofir pela primeira vez eu 
sempre me sinto mais forte quando estou em contato 
com a natureza.  como se tivssemos uma ligao. 
Talvez seja pelo fato de meus poderes estarem 
concentrados em elementos da natureza, no sei dizer. 
Percebi isso ainda na primeira vez, em Neide, quando 
revivi aquele jardim congelado. 

Enquanto caminhava pela montanha, tive um 
encontro inesperado. Um encontro completamente 
inesperado. 

Comeou com um vento forte, soprando as 
folhas e pequeninos gros de areia e aos poucos foi 
tomando forma de um lobo com 2 metros de altura e 
olhos de fogo. 

 Voc outra vez!  me assustei. 
 Menina Beatriz, grande guerreira.  o lobo fez 
o vento soprar mais forte quando falou  Tu me intrigas 
com seu destino confuso. Existem vrios caminhos e 
vrios destinos reservados para voc. Destinos 
vitoriosos, alegres e cheios de glrias. Mas existem 
destinos cheios de dor, lgrimas, derrotas e mortes. 

Tenha sabedoria nas suas escolhas e tome cuidado com 
tudo o que faz para no acabar entrando em um 
caminho de dores e derrotas. 

 Do que est falando?  perguntei. 
 J escolhestes o caminho mais difcil uma vez 
e veja no que Ofir se tornou.  a voz dele era dura e 
severa  No faa o caminho errado outra vez ou Ofir 
poder deixar de existir. 
 Espere!  gritei, mas j era tarde. O lobo 
havia desaparecido junto com o vento. 
Voltei para a casa assustada. O que aquele lobo 
quis dizer com escolhas erradas e vrios destinos? Eu 
estava um pouco atordoada para entender o que isso 
queria dizer e tinha medo de entender. 

 O que foi Beatriz?  Tales perguntou  Est 
plida. Parece que viu um fantasma. 
 No exatamente.  passei por ele e fui para 
meu quarto. 
Thalassa estava mexendo em alguns livros e fez 
uma cara muito estranha quando me viu. 

 Aconteceu alguma coisa? 
 No, eu estou bem.  respondi. 
 No  o que parece.  ela me fitou confusa. 
 Voc acha que eu realmente fiz certo em 
terminar com Nicardo? 
 Essa histria de novo?  ela sentou ao meu 
lado  Achei que voc j tinha resolvido essa questo. 

 Mas eu j resolvi.  disse sria  E mesmo se 
no tivesse resolvido, agora est feito. Mas ser que eu 
fiz certo? Voc acha que isso pode me prejudicar ou 
prejudicar Ofir de alguma forma? 
 Prejudicar Ofir?  ela franziu a testa  Do que 
voc est falando? 
 Esquece!  botei a mo na cabea  Nem eu 
no sei mais o que estou dizendo. 
 Acho que essa histria te deixou muito 
exausta. Talvez seja melhor descansar.  Thalassa 
colocou a mo em minha testa como se quisesse ver s 
eu estava com febre. 
No dia seguinte eu tive uma surpresa 
muitssimo agradvel. 

Logo de manh, bem cedo, Alexis apareceu na 
casa de Linfa. Parecia que ele havia adivinhado. Eu  
obviamente  estava louca para falar que no existia 
mais nada que nos impedisse de ficar juntos. Queria 
que fosse a primeira coisa que ele ouvisse, mas no foi 
bem assim que aconteceu. 

Quem atendeu a porta foi Linfa. Diferente da 
primeira vez em que a vi abrindo a porta de sua casa 
para Alexis, Linfa estava bem segura e j no tinha mais 
medo dele ou do que ele pudesse dizer e fazer. 

 O que te trousse aqui assim to cedo?  Linfa 
perguntou  Para vir to depressa deve ser algo 
importante. 

 Sim!  Alexis respondeu srio   algo muito 
importante. 
Alexis pediu para que nos reunssemos na sala, 
que ele tinha um comunicado importante a fazer. 
Fiquei imaginando o que seria, afinal, o dia havia 
acabado de comear e o sol ainda estava naquele 
laranja fraco, terminando de nascer. 

Alexis vestia uma roupa bem imponente. Era 
um terno azul marinho, com grandes ombreiras 
douradas que fazia lembrar o uniforme de um general, 
sargento ou qualquer outra autoridade superior do 
exercito. 

 Ento?  Tales perguntou  Qual o motivo 
dessa assemblia? 
 Eu vim comunicar a todos que meu pai, Rei 
Cleo, governante de toda a cidade... 
 Poupe-nos das apresentaes.  Neandro 
interrompeu Alexis  Ns j sabemos quem  voc e o 
seu pai. V direto ao assunto. Para voc nos acordar s 
05:40 da manh, eu realmente espero que seja algo 
muito importante. 
 Posso garantir que sim.  Alexis continuou 
srio  Indo direto ao assunto, nosso pai autorizou que 
eu e mais outra pessoa fossemos resgatar as garotas 
que foram capturadas e esto sendo obrigadas a serem 
noivas de Bianor. 
 O que?  Neandro gritou  Ele realmente flou 
isso? 

 Ele prometeu no foi?  Alexis estava 
estranhamente calmo  Papai sempre cumpri as 
promessas que faz. 
 Isso eu sei!  Neandro estava desconfiado  
Mas isso no parece uma ordem do papai. 
 Como assim no parece uma ordem?  Alexis 
levantou a sobrancelha. 
 Voc e mais outra pessoa apenas?  Neandro 
fitou Alexis desafiadoramente  Poupe-me Alexis! 
 Por qu? Ou melhor, do qu?  Alexis parecia 
estar bem seguro do que estava fazendo. Seja l o que 
estivesse fazendo. 
 Papai  quase a forma humana da precauo 
e ele nunca mandaria voc em um resgate. 
 Mas eu no vou sozinho.  Alexis sorriu  Eu 
vou com a Beatriz. 
 Eu?  gritei automaticamente. 
 Sim.  Alexis respondeu  Vamos ns dois. 
 Essa histria est muito mal contada.  
Nicardo quem fitava Alexis agora. 

 Ih... No se mete no o menino-pedra que eu 
no estou falando com voc!  Alexis comeava a 
perder a pacincia. 
 Calma Alexis!  Thalassa ainda estava 
sonolenta. 
 Mas o Nicardo tem razo!  Neandro se 
levantou  Essa histria est muito mal contada. 
 No est acreditando? Ento pergunte ao 
papai.  Alexis sorriu debochado. 

Neandro se sentou sem dizer nada. 
Aparentemente havia desistido de investigar a histria. 
Neandro ficou fitando Alexis intrigado. No sei se ele 
havia acreditado ou desistido, mas pela cara de 
desconfiana de Neandro, estava mais certo que ele 
havia desistido  temporariamente. 

 Mas no ser perigoso apenas vocs dois?  
Linfa perguntou. 

 E por que apenas vocs dois?  Nicardo 
acrescentou. 
 No ser perigoso por que vrios soldados 
iro nos acompanhar.  Alexis respondeu  E foram 
escolhidos apenas dois para preservar os demais. 
Todos ns precisaremos estar bem quando formos 
lutar com Bianor. 
 Mas se esse  o motivo, ento Beatriz deveria 
ficar.  Nicardo o fitou com dio  Ela  a chave mestra, 
a pea principal de toda a guerra. Se algo acontecer a 
ela, o que ser de Ofir? 
 Nada ir acontecer a ela por que eu estarei a 
protegendo  Alexis respondeu com um pequeno 
toque de arrogncia na voz. 
 Como achar melhor, alteza.  Nicardo 
respondeu debochado. 
 Vamos parar vocs dois!  eu disse  Que 
coisa mais feia! 
 Mas o que Nicardo disse faz sentido.  Cosmo 
estava prestes a se tornar mais um na lista negra de 

Alexis  O destino de Ofir depende de Beatriz. Seria 
mais prudente... 

 Seria mais prudente fazer as coisas do modo 
como foram ditas para fazer!  Alexis comeava a 
perder a pacincia  Irei eu e Beatriz para Calidora 
resgatar as meninas e no aconselho ningum a se 
opor. 
 Credo Alexis!  Tales falou  Para que tanta 
agressividade? Voc nem sabe se a Beatriz vai querer ir 
com voc. 
  verdade!  Linfa se virou para me olhar  O 
que voc acha disso Beatriz? 
Neste momento todos os olhos estava voltados 
para mim. Estava acostumada a ter esse tipo de 
ateno quando minha m sorte resolvia dar oi, mas 
j tinha um bom tempo que ns duas no ns 
encontrvamos. Ela estava me devendo umas visitinhas 
e tinha medo de que ela resolvesse pagar-las agora. 

 Bem... O que eu posso dizer?  olhei para 
Alexis  Acho que por mim tudo bem. Eu j sei como 
me defender sozinha outra vez. 
 Voc tem certeza?  Neandro perguntou. 
 Sim!  na verdade eu queria dizer acho que 
sim, mas aprendi que perguntas como Voc tem 
certeza? no devem ser respondidas com acho. 
 Se  assim...  Neandro bufou  Mas ainda 
estou achando essa histria muito estranha! Cad os 
soldados que iro acompanhar voc dois? 

 Iremos nos encontrar no castelo!  Alexis 
respondeu. 
 timo!  Neandro ainda estava desconfiado  
Podem ir, mas eu irei descobrir o que est errado nessa 
histria. Pode ter certeza! 
Seguimos a cavalo para o castelo. Alexis no 
disse mais uma palavra e eu fiquei sem jeito de dizer 
qualquer coisa. 

Quase me perdi de Alexis quando ele mudou o 
caminho. Pouco antes de pegarmos a rua que levava 
para o castelo, Alexis cortou caminho e foi em direo 
ao porto. 

 O que est fazendo?  perguntei  Ns no 
vamos para o castelo? 
 No  necessrio.  ele respondeu. 
 Mas e os guardas?  continuei perguntando. 
 No precisaremos de guardas.  ele sorriu. 
 Espere!  raciocinei  Voc mentiu? 
 Sim!  ele respondeu tranquilamente. 
 Voc est me sequestrando?  perguntei com 
um sorriso debochado. 
 Se quer entender assim?  ele achou graa. 
 Ento no vamos resgatar Camila, Levinda e 
Layla? 
 Claro que vamos!  Alexis abriu um longo 
sorriso  Mas vamos fazer isso sozinhos. Apenas eu e 
voc. 
 Mas... 

 Beatriz, eu passei muito tempo sem voc.  
Alexis parou o cavalo. Fiz o mesmo  Perdi muito 
tempo sozinho, lamentando no ter descoberto o que 
eu sentia por voc antes. No ter vivido o que 
deveramos ter vivido. Eu quero tudo o que tenho 
direito e quero aproveitar sozinho, sem mais ningum 
por perto. 

No sei como estava me rosto, mas Alexis 
parecia um deus de to lindo. Ele sorriu largamente 
para mim e o cavalo voltou a galopar em direo ao 
porto. Por alguns instantes me esqueci de que ainda 
estava parada no mesmo lugar e assim que acordei, 
segui atrs de Alexis. 

O porto estava cheio, mas acredito que no 
veriam problemas conosco. Ningum iria barrar o 
prncipe de Ofir de sair de barco. Isso se ele tivesse um 
barco. 

Alexis pediu para um soldado cuidar dos 
cavalos e mandar-los de volta a casa de Neandro. Ele 
olhou, olhou e olhou para os barcos, como se 
procurasse por um que no estivesse ai, at que algo 
lhe pareceu familiar. 

 Vamos!  ele me puxou pela mo   por ali. 
 Voc vai usar algum barco do Neandro?  
perguntei. 

 Sim.  ele respondeu  Iremos pegar 
emprestado. 

Alexis entrou feito um raio no navio, 
assustando a tripulao. 

 Vocs esto seguindo para onde?  Alexis 
perguntou. 
 Estamos seguindo para lugar nenhum.  um 
dos marinheiros respondeu  Ns cuidamos do barco e 
estamos apenas fazendo o nosso trabalho. 
 Pois agora vocs podem comear a preparar 
as coisas, iremos zarpar!  Alexis falou autoritrio  Eu 
sou Alexis Melequades Arrife Briseu do Corpeu 
Clstenes de Ofir, prncipe herdeiro do trono de Ofir e 
agora seu capito! 

CAPTULO 19 / UMA NOITE ESPECIAL 


A 


inda no estava acreditando no que estava vendo. 
Alexis estava mesmo louco. Mas eu estava amando 
tudo aquilo. Talvez uma das coisas que eu mais amei 
fazer desde que voltei a Ofir. 
A tripulao presente no navio ficou um pouco confusa 
no inicio, mas ningum quis contraria as ordens do 
prncipe herdeiro de Ofir e correr o risco de perder a 
cabea por causa disso  tenho mais lembranas 
quanto a esse assunto de perder a cabea. 

 Voc  louco mesmo!  disse para Alexis. 
 Sou muito louco!  ele sorriu enquanto 
observava o mar  Mas isso  ainda pouco se 
comprarmos ao tamanho da loucura que eu tenho por 
voc. Eu te amo enlouquecidamente. 
 Seria feio se eu copiasse sua frase?  
perguntei o abraando  Eu te amo 
enlouquecidamente tambm. 

 Sabe que eu no queria estar em nenhum 
outro lugar agora.  ele me abraou mais forte  Isso 
que estou vivendo agora  tudo o que eu sempre quis 
viver. Estar com voc faz todo o sofrimento que passei 
valer  pena. Chegar aonde cheguei com voc... Eu te 
amo. 
 Alexis!  virei para olhar seu rosto  Eu para 
de falar essas coisas. Eu fico sem saber como 
responder. O que eu estou sentindo agora... No 
existem palavras que descrevam o tamanho da minha 

felicidade, apesar de haver mais motivos para ficarmos 
tristes. 

 Est falando de Bianor?  ele ficou srio. 
  difcil no pensar que neste momento ele 
pode estar planejando o prximo passo.  sai do seu 
abrao  Essa trgua no ir durar para sempre. 
 Mas ns iremos fazer o possvel e o 
impossvel, se for possvel, para deter Bianor.  ele 
tentou encarar a situao com humor. 
 Alexis... 
Antes que eu completasse a frase, Alexis 
fechou minha boca com seus lbios. 
Os beijos de Alexis eram completamente 
diferentes dos beijos de Nicardo. No eram vagos e 
distantes. Os beijos de Alexis eram devoradores, 
sedentos, quentes. Eram beijos devastadores e 
sufocantes, mas ao mesmo tempo eram extasiantes e 
me levava aos extremos. Eram beijos impossveis de 
resistir. 

 Vamos combinar uma coisa?  ele perguntou 
enquanto retomava o flego. 
 O que?  disse um pouco ofegante. 
 No vamos falar de Bianor. Pelo menos 
enquanto estivermos aqui no navio.  ele voltou a me 
abraar, porm com menos fora  Eu preparei essa 
viagem para curtir um pouco voc. Para curtir um 
pouco ns dois. Se formos conversar, vamos conversar 
apenas sobre ns. 
 Tudo bem!  respondi sorrindo. 

A manh passou bem rpido e logo chegou  
tarde. Eu e Alexis quase no vimos a tarde chegar. 
Estvamos vivendo uma lua de mel antecipada, no 
tinha como reparar o tempo passando. 

 Sabe Beatriz.  Alexis estava atrs de mim, 
me abraando  Eu nunca achei que um dia pudesse 
fazer loucuras por amor. Eu via meu irmo agindo 
contra as leis de Ofir, se envolvendo com uma plebia, 
desafiando o nosso pai e renegando o trono em nome 
desse sentimento que eu julgava ridculo. 
 E hoje voc ainda pensa assim?  perguntei. 
 Hoje eu o entendo perfeitamente.  Ele sorriu 
 Se estivesse em seu lugar eu teria feito o mesmo. 
 Voc enfrentaria a todos por mim?  me virei 
sem sair do abrao. 
 E voc ainda pergunta?  ele abriu um largo 
sorriso  Eu faria tudo o que Neandro fez e muito mais. 
Hoje, voc  a coisa mais importante na minha vida. 
Ficar com voc e resgatar minha me so minhas 
nicas prioridades. 
Eu o beijei na mesma hora e ele retribuiu o 
beijo. Eu estava no cu. Flutuando entre as nuvens em 
um cu muito azul. 

 J eu sempre acreditei e entendi o amor.  
disse sria  At... 

 At?...  ele me fitou curioso. 
 Nada.  fiquei um pouco triste   s um 
assunto bobo. Nada de importante. 

 Se  sobre voc, ento  importante!  ele 
insistiu. 
 Mas  um assunto meio chato para se 
conversar com o namorado.  tentei fazer-lo desistir. 
 Tudo bem.  ele sorriu  No sendo sobre 
aquele namorado, eu no ligo. 
 Tem certeza?  fiz uma ltima tentativa. 
 Beatriz?  ele ficou srio. 
 Sim?  sorri. 
 Fala logo!  ele voltou a sorrir. 
 Eu vou te contar, mas no fique bravo. 
 Prometo!  ele levantou a mo direita. 
 Sabe que hoje eu acho at graa.  sorri  
No muita. Foi o meu primeiro namorado. 

 O que tem o seu primeiro namorado?  ele 
perguntou. 
 Foi h 4 anos, quando eu tinha 16.  
relembrei  Eu estava muito apaixonada. Acreditava 
que ele era o meu prncipe encantado e que viveria 
com ele para sempre. Ele parecia ser perfeito. Era 
bonito, educado, bem humorado, mas ningum pode 
ser perfeito certo? 

 Acho que no.  Alexis respondeu srio. 
 Eu estava vivendo uma grande felicidade e 
achava que nada poderia destruir aquela felicidade.  
continuei relembrando  At que um dia ele veio e 
conversou comigo. Uma conversa sria. Ele me pediu 
desculpas e disse que estava comigo apenas para fazer 
cimes na ex-namorada e que ela estava querendo 

voltar para ele. Eu achei que no sobreviveria com 
aquela dor. 

 Mas que cretino!  Alexis se irritou  Cretino 
e burro. Perder uma garota como voc. 
 Acho que isso foi um elogio!  sorri  Mas eu 
sobrevivi e continuei seguindo, porm, nunca mais quis 
dar oportunidade ao amor novamente, at voc 
aparecer. 
 No me leve a mal, mas eu achei timo esse 
babaca ter feito isso com voc! 
 Alexis!  dei um tapa em seu ombro. 
 Claro!  ele sorriu  Raciocine. Se ele no 
tivesse terminado com voc eu no teria chances. 
Talvez voc nem tivesse vindo para Ofir. Eu tenho 
muito a agradecer. 
 Seu bobo!  dei outro tapa em Alexis, mas 
desta vez seguido por um beijo  Eu amo demais voc 
sabia? 
 Eu estou sabendo!  ele sorriu. 
 Alexis...  um lampejo de realidade surgiu em 
mim  E depois? 
 Depois do que?  ele ficou srio. 
 Depois que tudo isso acabar. Depois que 
derrotamos Bianor e Ofir voltar a ser o que era antes, o 
que vai acontecer? 
 Como assim? 
 Eu no sou apenas uma plebia, eu sou uma 
terrquea. De certa forma eu sou uma aliengena 

neste mundo.  disse sria  Uma hora eu vou ter que 
voltar para casa. 

 Beatriz... Vamos deixar o futuro com o futuro, 
eu j disse. 
 Mas eu tenho tanto medo.  o abracei forte  
Eu no sei o que eu faria sem voc e essa incertezas me 
deixam aflitas. Agora que te consegui, no queria que 
nada nos separasse. 

 E nada ir nos separar!  ele tambm me 
abraou forte  Eu posso garantir que nada poder nos 
separar. Nada! 
 Eu sei, mas ainda tenho medo.  fiquei sria  
Na minha vida eu aprendi a ter minha felicidade 
arrancada de mim.  muito difcil no ter medo quando 
se est vivendo uma felicidade como a que estou 
vivendo agora, com tantos riscos ao meu redor. 

 Voc pena demais no que est para 
acontecer. No fique pensando tanto no e se... 
 Alexis!  encostei a cabea no ombro dele  
Eu te amo. 
Mais uma vez o beijo veio automaticamente. 
Eu no sabia o que esperar daquela viagem. No sabia 

o que estava para acontecer e nem imaginava que 
poderia ser de mim, mas quando Alexis me beijava 
todas essas incertezas sumiam e ficava apenas uma 
coisa em minha cabea: como eu amo esse prncipe 
metido! 

A noite tambm chegou rpido. As luas vistas 
do navio eram bem mais brilhantes e bonitas. Ver-las 
ao lado da pessoa que voc ama tambm ajuda muito. 
Eu no queria me afastar daquilo jamais. Estava tudo 
sendo especial demais para se imaginar um fim. 

 Voc est to pensativa.  Alexis perguntou  
O que aconteceu. 

 Desta vez nada.  estava aconchegada nos 
braos de Alexis  Eu s gosto de olhar as luas. Elas so 
to lindas e me trazem tanta paz. Agora elas parecem 
ainda mais lindas e brilhantes. 
 Realmente.  Alexis fitou as luas  Elas 
parecem estar contemplando a nossa felicidade e 
abenoando o nosso amor. 
 Que dure para sempre e seja to belo quanto 
essas luas.  apertei a minha mo com a de Alexis. 
 Essas palavras nem eu poderia ter dito 
melhor!  ele suspirou. 
 Acho que j ouvi essa frase antes! 
 Voc ficou com muito medo?  Alexis 
perguntou. 
 De que?  rebati. 
 De Ofir.  ele ficou srio  s vezes, quando 
estava preso no bosque, eu te sentia to aflita e com 
tanto medo. Parecia que voc queria estar em qualquer 
lugar, menos aqui. 
 Eu realmente no tive bons momentos 
enquanto estava sem memria.  fitei o cho  Eu me 
sentia perdida e sem identidade. As pessoas falavam 

sobre coisas que eu havia feito e eu no conseguia 
lembrar. Eu tentava puxar da memria, mas as 
lembranas nunca apareciam. Era algo muito 
perturbador na verdade. 

 Sinto-me horrvel por no estar ao seu lado 
neste momento.  ele beijou minha mo  Eu queria 
tanto ter estado ao seu lado. 
 Acho que eu s no recuperei a memria 
mais depressa por que voc no estava por perto.  
brinquei, apesar de acreditar nisso  Eu que me sinto 
horrvel toda vez que olho para essa cicatriz em seu 
brao. 
 J eu sinto orgulho dela.  ele levantou o 
brao esquerdo   a prova de que eu fao qualquer 
coisa por voc. Eu tenho outra nas costas, quer ver? 
 No!  disse alto  Eu no gosto de lembrar 
que isso aconteceu. Eu no consigo imaginar a dor que 
voc sentiu. 
 No foi to grande assim.  ele sorriu e 
depois ficou srio  Tudo bem, doeu pra Caramba, mas 
j passou. Fora que ter voc comigo compensa 
qualquer dor que eu j tenha passado em minha vida e 
qualquer dor que eu venha a sentir. Se eu puder 
continuar vivo para ouvir voc dizer que me ama, 
qualquer coisa ser valida. 
 No diga uma coisa dessas!  briguei. 
 Bobagem.  ele sorriu. 
 Disse tudo: BOBAGEM! 

 Vamos entrar?  Alexis se levantou devagar  
Est ficando frio aqui. 

 Est mesmo.  me levantei tambm  Vamos 
entrar. 
A cabine do capito era bem luxuosa para o 
padro do resto do navio. Parecia um quarto de hotel. 
Havia uma cama enorme revestida com pequenas 
pedrinhas douradas e com lenis de seda branca, um 
longo tapete com um desenho de forma irregular  me 
fazia lembrar uma baleia engolindo um caminho, mas 
sabia que no era aquilo  e um guarda roupas bem 
grande que, assim como a cama, era revestido em 
pedras douradas. 

 E um quarto bem aconchegante!  disse 
assim que entrei. 
 Acho que escolhi bem o navio!  Alexis sorriu 
 Fico feliz que tenha gostado dele. 
  muito bonito.  sorri  Adorei os 
candelabros. A iluminao da luz de velas da um clima 
romntico ao quarto. 
 Acho que  exatamente o que estvamos 
procurando!  Alexis deitou na cama  Esse colcho  
timo. Deita aqui Beatriz! 
 No, no!  fiz um sinal negativo com o dedo 
 Pensa que eu no sei qual so as suas intenes? 
 E quais so minhas intenes?  ele se 
sentou. 

 Voc quer que eu me deite, para depois me 
seduzir e fazer-me fazer o que no quero fazer. 
 E o que voc no quer fazer?  ele me olhou 
malicioso. 
Alexis se levantou e comeou a me beijar 
lentamente. Seus lbios beijavam meu brao e iam 
subindo at o pescoo. Alexis me abraou por trs e 
continuou beijando meu pescoo devagar. Meu 
corao estava por um fio. Ele pegou meu brao e me 
fez abraar-lo tambm. Seus lbios quentes foram 
descendo novamente e beijaram meus ombros. Joguei 

o meu cabelo para o lado contrario ao que Alexis 
estava beijando e segurei firme em sua mo. Minhas 
pernas estavam tremendo e eu estava sem ao e s 
conseguia pensar em querer mais e mais. 
Alexis me soltou e me fez virar, olhando em 
meus olhos. Um olhar sedento e sedutor. Seus lbios 
agora atacavam meu queixo. Ele dava leves mordidas e 
subia at minha orelha, dando mais leves mordias e 
seguindo para minha boca. Suas mos desciam pelas 
minhas costas e agarravam minhas pernas. Quando 
menos percebi, Alexis estava me segurando no colo e 
beijando novamente meu pescoo. 

 Voc realmente no quer fazer nada essa 
noite?  Alexis perguntou e eu respondi com um beijo. 
Alexis me levou at a cama e sentou comigo no 
colo. Ele comeou lentamente a me despir e beijar a 
cada nova parte descoberta do meu corpo. Acabei 


fazendo o mesmo e retirando sua camisa. Segurei firme 
em seus braos e o beijei desesperadamente. 

Deitei-me na cama enquanto Alexis se despia 
por completo. Meu corao estava mais acelerado que 
nunca e meu corpo estava em chamas. Eu quase no 
conseguia respirar direito, mas mesmo assim eu no 
queria que ele parasse. 

Alexis pegou minha perna e comeou a me 
beijar comeando pelos ps. Enquanto seus lbios 
subiam pela minha perna, meu corao tentava fugir 
pela boca e quando seus beijos alcanaram minha 
barriga, achei que o sentiria sair de verdade. 

Alexis me puxou para perto dele e grudou seu 
corpo no meu. Pude sentir que seu corao tambm 
estava acelerado. Ele envolveu seus braos em minha 
cintura enquanto nos beijvamos. Eu acariciava suas 
costas lentamente e segurei bem forte em seus 
cabelos. Minha boca s no estava seca por que estava 
ocupada demais beijando e recebendo beijos de Alexis. 

As mos de Alexis passeavam pelo meu corpo, 
enquanto ele tentava conseguir parar de me beijar. 
Minhas mos tambm exploravam o corpo em forma 
de Alexis e isso fazia nossos corpos entrarem em 
combusto. 

Alexis voltava a beijar meu corpo, enquanto eu 
esperava sentada em seu colo por seus lbios em 
minha pele. Aquele estava sendo um os momentos 
mais romnticos e bonitos que eu j havia vivido e 
queria aproveitar bem cada segundo. 


Ainda no colo de Alexis, fui deitando devagar 
na cama, puxando Alexis para se deitar comigo e o 
beijando como nunca o havia beijado. Seu corpo 
quente se juntou ao meu corpo em chamas e logo ns 
j no ramos mais dois corpos queimando, mas um 
nico corpo vivendo um nico sentimento e vivendo 
uma nica sensao. 

Entre abraos e beijos quentes a noite 
prosseguiu de forma mgica. No sei se preciso 
descrever o que aconteceu depois e nem sei se 
conseguiria. Foi o momento mais mgico e mais 
sensual que havia vivido em toda minha vida. Um 
momento do qual eu no iria me arrepender de ter 
vivido com Alexis. Melhor, esse momento no poderia 
ter sido vivido com outra pessoa que no fosse o Alexis. 
Eu estava em completo xtase e no queria que a noite 
acabasse to cedo. Mas uma hora ela tinha que acabar 
e meu nico consolo e que essa noite havia sido a 
primeira de muitas outras que viriam. Muitas outras. 


CAPTULO 20 / UM PLANO ARRISCADO 


D


epois de uma noite como aquela era impossvel no 
acordar bem. Eu j estava em outro nvel de 
relacionamento com o Alexis e aquela noite s 
confirmou o que eu j sabia: Alexis  meu prncipe 
encantado. 

Tentar imaginar minha vida sem o Alexis era 
quase impossvel e isso era bem preocupante. Melhor 
dizendo, era muito preocupante. 

Eu sabia que em Ofir eu teria Alexis para 
sempre, mas e na Terra? Eu teria que voltar para Terra 
um dia. Como deixar minha me para trs. 
Provavelmente ela deve ter me encontrado desmaiada 
em minha cama ou talvez pensado que eu desapareci. 
O que mais ela poderia pensar? Quais so as condies 
dela agora? Tudo que eu mais quero na vida e ficar ao 
lado de Alexis, mas no  justo que minha me sofra 
por egosmo meu. 

 Beatriz?  Alexis me acordou dos meus 
pensamentos  Onde voc foi? Seu olhar estava to 
distante, parecia que estava a milhas e milhas daqui. 
 E eu realmente estava!  fiquei sria  Estou 
preocupada com minha me. Cm o que esto pensando 
que aconteceu comigo. Da ltima vez acreditaram que 
eu havia ficado em coma, mas  agora? 
 Eu j disse para voc no se preocupar.  ele 
me abraou  Mas acho que entendo voc. A ltima 
coisa que voc quer e que sua me sofra certo? 

No disse nada, apenas assenti com a cabea. 

 Tudo o que eu menos desejo e ver minha 
me sofrendo. Minha me e voc, claro. Por isso eu 
entendo sua preocupao, mas do que adianta? Voc 
no vai poder voltar agora. Pensar nisso s ir te fazer 
mal. 
 Acho que sei.  disse de cabea baixa. 
 Vamos fazer o seguinte?  ele sorriu  Vamos 
pensar apenas em ns dois por enquanto. Depois a 
gente pensa no resto. 
 Uma hora dessas o pessoal j deve estar em 
Calidora.  disse lembrando que havamos fugido  Do 
jeito que aquele submarino  rpido, no duvido que 
tenha dado tempo deles resgatarem as garotas e j 
estar de volta na Capital. 
 Ser?  Alexis sorriu. 
 Eu realmente acredito nisso.  tambm sorri 
 Se bobear eles j esto de volta a Calidora s para 
ns dar uma bronca daquelas. 
 Voc acha mesmo?  Alexis estava quase 
gargalhando  Seria timo no? 
 Por qu? 
 Assim nos poupava tempo.  ele voltou a me 
abraar  Eu queria mesmo era ter um pouco de paz e 
sossego para aproveitar com voc. Ns dois sozinhos. 
Agora, se eles tiverem feito isso por ns... No ligo de 
levar bronca. 

Fiquei observando Alexis olhar o mar. Desde 
que nos reencontramos, eu tenho sentido o Alexis 
mudado. Ele parece mais seguro e menos arrogante. 
Talvez o tempo em que passou como um ser do bosque 

o tenha feito amadurecer um pouco mais. Porm no 
era apenas isso que havia mudado, existia algo mais. 
 Sabe Alexis.  eu disse  Agora eu vejo o 
quanto eu senti falta de voc, mesmo estando 
desmemoriada. Voc sempre esteve em meu corao. 
No sei como eu consegui passar todo esse tempo sem 
voc. 
 Bom ouvir isso.  ele me presenteou com seu 
belo sorriso  Assim no me sinto to solitrio. 
Tambm senti muito a sua falta. No sabe como eu 
estou feliz em ter voc ao meu lado agora. 
 Acho que sei sim!  me agarrei em seu brao 
 E a mesma felicidade que eu estou sentindo agora. 
 Eu te amo tanto.  Alexis me abraou e me 
beijou. 
 Quero ficar bem aqui, ao seu lado, por toda 
vida.  encostei minha cabea em seu peito. 
No dia seguinte j estvamos em Calidora. J 
fim de tarde quando chegamos ao porto local. Haviam 
guardas para todo lado e eu fiquei muito preocupada. 
Melhor dizendo, apavorada. Tnhamos nos deixado 
levar pelas emoes e com essa histria de deixar 
para depois, acabamos esquecendo de planejar como 
desceramos do navio sem ser percebidos. 


 Fique tranquila!  Alexis parecia ler meus 
pensamentos. 
 Como assim tranquila?  sussurrei. 
 Eles no vo nos ver.  ele segurou firme 
minha mo  Pelo menos no agora. Ainda no est na 
hora. 
 Como assim no est na hora?  sussurrei 
assustada. 
 Eu te explico depois!  ele beijou minha testa. 
Sem soltar minha mo durante um nico 
segundo, descemos do navio. 

Meu corao estava prestes a parar de tanta 
aflio. Aparentemente ningum estava notando a 
nossa presena e isso  apesar de bom  me 
incomodava. Parecia que nem estvamos sendo vistos. 

 Por acaso estamos invisveis?  perguntei 
quase sem emitir som. 
 No.  Alexis respondeu tranquilo. 
 Ento por que ningum parece nos notar?  
perguntei cochichando. 

 Ficar invisvel no meio dessa multido e 
complicado.  Alexis sorriu  Alm de correr risco de 
trombar com algum e ser pego, os guardas de Calidora 
perceberiam um feitio to simples como esse. 
 Sim, mas ainda no respondeu minha 
pergunta.  falei um pouco mais alto. 

 De certa forma, eles esto nos vendo.  ele 
sorriu  Mas no  as nossas imagens que eles esto 
vendo. 
 No entendi nada!  bufei. 
 Preste mais ateno em voc mesma.  ele 
continuou sorrindo. 
Olhei para mim e no vi nada demais. At que 
comecei a notar algo tremeluzindo em todo meu 
corpo. Pisquei e olhei novamente. Era uma segunda 
pele. Uma segunda e peluda pele de leo. 

 Ns somos Leons?  perguntei. 
 No.  Alexis fez piada  Mas eles acham que 
somos. 
 Mas que timo!  fiquei feliz e tentei bater 
palmas. Alexis segurou firme minha mo. 
 Esqueci de dizer um detalhe.  ele me olhou 
srio  No solte a minha mo. Essa magia e bem forte 
e eu sozinho no dou conta. Desculpe, mas estou 
sugando um pouco de sua energia para fazer a magia. 
Voc no est sentindo tanta diferena por que eu 
estou usando a magia em voc tambm. 
Depois que ele falou, comecei a notar que 
estava levemente cansada. Meus olhos pareciam no 
querer ficar abertos, mas eu ainda me aguentava de 
p. No estava exausta e nem com sono, apenas 
levemente cansada. Mas era por um motivo muito 
importante. 

 Voc pretende entrar assim no castelo?  
perguntei. 


 No!  ele respondeu srio  Nem eu e nem 
voc agentaramos gastar tanta energia assim. Ns 
iremos de cara limpa. 
 Voc quer dizer, sem nenhum disfarce ou 
feitio?  perguntei assustada. 
 Sim!  ele respondeu sem reao. 
 Mas ns seremos presos na mesma hora!  
falei um pouco alto. 

 Shhh!  Alexis colocou o dedo indicador na 
frente da boca  Eles podem no estar prestando 
ateno na nossa conversa, mas se falar alto demais 
eles podem nos ouvir. Ns iremos de cara limpa. Sem 
disfarces, sem feitio. Apenas ns. Eu quero ser pego! E 
de preferncia ser entregue a Bianor. 
 Voc enlouqueceu?  gritei. 
 Tudo bem, eu no irei responder mais 
nenhuma pergunta sua.  Alexis fez sinal de que tinha 
trancado a boca. 
 Desculpe.  falei mais baixo  Mas isso  
loucura. 
 Quando chegar o momento, eu te explico!  
Alexis me fitou repreensivo. 

Eu realmente iria querer uma explicao. Uma 
boa explicao. O que exatamente ele estava querendo 
se arriscando tanto assim? Tudo isso por causa das 
meninas? Acho que no. Mas ento o qual outro 
motivo Alexis estava fazendo todo aquele plano 
arriscado? 


Quando samos das vistas dos soldados, Alexis 
soltou minha mo e de imediato eu senti um forte 
cansao e um baque muito grande. Foi algo parecido 
com o que se senti quando estamos carregando algo 
muito pesado junto com outra pessoa e essa pessoa 
acaba, por algum motivo, jogando todo o peso para 
voc por alguns instantes. 

Alexis tambm parecia ter sentido o mesmo, 
mas em propores bem maiores. Ele estava ofegante 
e parecia estar suando, mas logo voltou ao normal. Ou 
pelo menos aparentou ter voltado ao normal. 

 Acho que Neandro e Cia no deram as caras 
por aqui.  Alexis vigiava as ruas. 
 Talvez estejam em outro lugar.  disse 
seguindo-o  Ou talvez realmente no vieram. 
 De qualquer forma ns teremos que ir para o 
castelo.  Alexis continuava vigiando a rua. 
 Agora que estamos longe da grande multido, 
ser que voc poderia me explicar o que pretende 
fazer?  perguntei autoritria. 
 No agora. Depois.  ele olhou rapidamente 
em meu rosto e depois voltou a vigiar. 
 Mas talvez fosse mais til eu saber de tudo 
agora!  continuei autoritria. 
 Quer esperar um pouco?!  ele me segurou 
pelo brao e me puxou para trs de uma grande rvore. 
 O que foi?  cochichei. 
 Leons.  ele apontou com os olhos. 

Dei uma leve espichada com o pescoo e vi trs 
Leons caminhando pela rua. Era engraado como que 
em Calidora e Neide seres como aqueles caminhassem 
livremente. Eu no acharia nem um pouco normal. 
Apesar de que, em Ofir, nada  realmente normal. J 
era para eu ter me acostumado. 

Chegamos ao castelo sem ser vistos. Eu 
continuava sem uma explicao e ainda no tinha 
achado um sentido nas atitudes de Alexis. No sei se eu 
estava exagerando, mas o fato e que eu estava muito 
aflita. Talvez fosse o fato de eu estar com muito medo 
de perder novamente o Alexis. 

 Pronto, chegamos.  disse tentando me 
esconder atrs dos grandes portes  O que vamos 
fazer agora? 
 Vamos entrar!  ele disse como se fosse algo 
super obvio e simples. 
 Assim?  olhei-me de cima a baixo. 
 Eu disse que entraramos sem disfarces e sem 
magia.  ele sorriu. 
 Mas isso  loucura!  tentei segurar-lo  Ns 
seremos presos! 
 Mas ainda no entendeu que  essa a 
inteno?  ele me fitou sorridente. 
 Isso  muito maluco. Muito arriscado! No sei 
se... 

 Beatriz, voc no confia em mim?  ele fez 
um olhar de anjinho. Quem conseguiria resistir 
aquele olhar? 
 Confio.  sorri, apesar de estar um pouco 
aflita  No muito, mas confio. 
 Eu juro que tenho um bom plano.  ele me 
beijou  No tenha medo! 
 Se voc est falando... Vamos l!  disse me 
rendendo. 
 Mas antes...  Alexis se abaixou, pegou um 
punhado de areia e colocou dentro de um saco de pano 
 E com isso que iremos fugir. 
Olhei para Alexis sem entender, mas deixei 
passar. 
Alexis pediu para entrarmos como se 
tivssemos tentando invadir o local, mas de uma forma 
bem fcil e com todas as chances de ser pego. A 
inteno ali era entrar no castelo como prisioneiro e 
no como invasor. 

Voamos por cima dos grandes portes e 
tentamos entrar pendurados nas correntes que 
seguravam o porto principal. Poderia ser uma forma 
de entrar no castelo, mas de jeito nenhum teria como 
no ser percebido. 

No demorou muito para os guardas nos 
achassem e comeassem a atirar flechas em nossa 
direo. Fingimos cair. Os guardas correram e nos 
pegaram no mesmo instante. Estava me sentindo 


ridcula sendo presa por uma invaso to mal 
elaborada. 

Os guardas nos levaram imediatamente para a 
sala principal, onde deveria ser o salo real, onde o rei 
ficava para reunies e para receber visitas relacionadas 
a assuntos do reino. Nem me espantei quando vi quem 
estava sentado no trono do rei. 

Calidora havia sido o primeiro reino a se juntar 
a rebelio e um dos primeiros a dar apoio a Bianor. Era 
muito mais que esperado que Bianor estivesse no 
controle, mesmo que no tenha sido apresentado 
oficialmente como novo rei de Calidora. 

 Mas o que temos aqui?  Bianor sorria 
maliciosamente  Prncipe Alexis. A que devo a honra 
de sua to ilustre visita? 
 No seja cnico. Por mais que cinismos e 
hipocrisias sejam exatamente a sua cara, no fica bem 
quando  to deslavado. Chega a ser ridculo. 
 Obrigado pelo conselhos  Bianor nos fitou e 
seus olhos mudaram de cor. De verdes, passaram a 
dourados  mas eu irei recusar. Gosto do meu estilo. 
 Acredito.  Alexis estava calmo. 
 Quando disseram que era voc eu quase no 
acreditei. E quando disseram a forma como foram 
capturados... Que ridculo! Tentando entrar pelas 
correntes do porto. 
 Foi um descuido nosso.  Alexis continuava 
calmo. 

 Agora eu que peo para no ser cnico.  
Bianor comeou a gritar e seus olhos se tornaram 
vermelhos  Acham que sou imbecil? Pelo que me 
tomam? Eu sou o maior mago que existe, no pensem 
que eu vou cair nessa histria. O que vocs querem? 

 Voc no  o todo poderoso?  Alexis agora 
falava com deboche  Descubra voc mesmo! Leia 
nossas mentes! Saiba se realmente armamos tudo isso! 
Ah, esqueci, voc no pode. Mesmo tendo todo esse 
poder, voc no pode conseguir um dom. 
 Dom?  perguntei mais para mim mesma.  
Tem certas magias que apenas uma pessoa, ou um 
pequeno grupo de pessoas geralmente da mesma 
famlia, podem ter. E mesmo que voc conseguisse ler 
nossas mentes, no pode se vangloriar de ser o mais 
poderoso dos magos. Dmaris foi quem te deu esse 
poder e ele pode tirar com a mesma facilidade. 

 Mas para isso algum tem que pedir.  Bianor 
ficou serio. Seus olhos continuavam vermelhos, porm 
mais claros passivos.  E os cristais foram destrudos 
por mim. Eu j tenho o que queria, no precisaria 
daquilo. 
Bianor se aproximou de mim e levantou meu 
rosto segurando-me pelo queixo, mas sem encostar em 
mim, apenas usando magia. Ele era bem exibido. 

 Agora eu estou reconhecendo voc garota.  
ele sorriu  Voc  a Mallory. 

 Deixe-a em paz!  Alexis me puxou para perto 
dele. 

 Deixar-la em paz?  os olhos de Bianor 
ficaram roxos e ganharam um brilho de insanidade  
Essa garota est predestinada a me destruir. Eu devia 
matar-la neste exato momento. Mas eu irei poupar-la. 
Na verdade eu serei piedoso com vocs. Deixarem que 
morram juntos. Um do lado do outro. Estou sentindo 
que vocs esto selados para toda a vida. Muito bem, 
acho que irei abreviar essa vida. 
 Incrvel no?  Alexis voltava com seu tom 
debochado  Tanto poder dentro de si e j h tanto 
tempo e ainda no aprendeu a usar e administrar-lo 
por completo. Aposto como desmaia muitas vezes. Ser 
o mago mais poderoso do mundo pode ser um fardo 
muito pesado para um corpo to frgil quanto o seu. 
 Cale-se!  Bianor bateu no rosto de Alexis 
usando magia ele parecia transtornado. Seus olhos 
mudavam de cor vrias vezes  Leve-os daqui! Amanh 
eu mando cuidar de vocs. E eu no terei um pingo de 
piedade. Quero que cortem as cabeas dos dois. 
Colocarem na parede do meu quarto como trofus de 
mais uma batalha vencida. 
 Batalha que voc ir perder mesmo que nos 
mate. Esse guerra j  perdida para voc de qualquer 
forma. O que voc ir fazer com um reino arruinado e 
destrudo? 
 E quem disse que eu quero destruir o reino?  
Bianor soltou uma gargalhada  Acha que eu sou o 
que? Um vilozinho de conto de fadas? Meus planos 
para Ofir so bem maiores que apenas destruir. 


 Eu imaginei.  Alexis ficou srio  Posso te 
fazer uma pergunta? 
 Aproveite enquanto pode!  Bianor falou 
nervoso. 
 Onde est minha me?  Alexis perguntou  
Sei que ela no morreu. 

 Espertinho voc no?  Bianor sorriu  Nos 
vemos amanh. 
 E a minha resposta?  Alexis perguntou antes 
de Bianor sair. 
 Eu disse que poderia perguntar, no prometi 
uma resposta.  Bianor ficou parado na frente da porta 
 Mas se fosse voc eu tomava cuidado onde voc pisa. 
Fomos levados mais uma vez para os 
calabouos. Na verdade eu fui levada novamente para 
os calabouos. Era um pouco estranho estar ali de 
novo. A primeira vez que entrei em contato com Alexis 
foi ali e aqui estava eu novamente e com ele ao meu 
lado. No sei nem se podia achar graa disso. 

 Ser que agora voc pode me explicar o que 
est acontecendo?  perguntei quando as luzes foram 
apagadas. 
 Fique tranquila, o plano esta seguindo como 
o planejado!  ouvi apenas a voz de Alexis. 
 Mas ser que  to difcil me dizer o que est 
planejando?  perguntei, mas fui ignorada. 
Vi o vulto de Alexis pegando alguma coisa. 
Meus olhos ainda estavam um pouco confusos na 


escurido, mas aos poucos foi se acostumando com 
manto negro que aquilo se tornava quando apagavam 
as luzes. 

 Muito bem.  fiquei irritada  Deixe-me sem 
saber dos planos. Mas depois, se eu fizer algo que nos 
prejudique por no saber exatamente o que estamos 
fazendo, no reclame. No reclame, ouviu? 
 Ouvi e entendi.  consegui ver a silueta de 
Alexis na escurido  Mas nada do que voc faa ir 
atrapalhar os planos. J estamos na parte final dele. 
 Parte final?  perguntei nervosa  Estamos 
presos! 
 Mas vamos fugir!  Alexis pareceu sorrir. 
 Como? 
 Lembra do punhado de areia?  ele 
realmente devia estar sorrindo. Isso s podia ser uma 
piada. 
 Voc est falando srio?  perguntei. 
 Fogo, por favor.  ele abria o saco de pano. 
Fiz uma pequena chama de fogo com a mo e 
consegui ver melhor o rosto de Alexis e o saquinho de 
pano cheio de areia. Era impossvel imaginar que aquilo 
nos ajudaria a fugir. 

 Beatriz, apenas veja! 
Alexis tirou um pouco de areia do soco e 
estendeu a mo, colocando-a na frente da chama de 
fogo. Alexis soprou levemente os gros de areia, que 
atravessaram a chama de fogo. Inicialmente eu no vi 
nada, at olhar mais atentamente para trs. 


 O que  isso?  me espante. 
 Uma replica exata minha!  ele sorriu  Claro, 
 inanimada. Mas at eles repararem nisso j 
estaremos longe. 
Alexis pegou outro punhado de areia e 
novamente soprou na frente da chama de fogo, mas 
desta vez foi uma replica minha que apareceu. 

 Mas como... 
 Depois eu explico!  Alexis me interrompeu. 
 Isso j est ficando chato!  disse emburrada. 
 Sem dramas, vamos sair logo daqui! 
Alexis estiou bem a palma da mo e colocou na 
frente do porto que comeou a gemer e entortar at 
abrir passagem para que pudssemos sair. Alexis me 
mandou sair e depois saiu fazendo as grades do porto 
voltarem ao normal. 

 Voc realmente ter muitas coisas para me 
explicar!  sussurrei. 
 Sim, mas... 
 Deixa-me adivinhar?  o interrompi  Agora 
no, depois? 
Alexis sorriu e apagou a chama que ainda 
estava na minha mo. Samos dos calabouos. 


CAPTULO 21 / SUGADOS PELO CHO 


A 


ssim que samos do calabouo, o primeiro lugar que 
seguimos foi o quarto de Nnive. Ela era a nica que 
tinha certeza absoluta que poderia nos ajudar. 
Por alguns instantes eu quase me perdi no meio de 
tantos corredores, mas consegui localizar o quarto de 
Nnive sem muitos estragos. 

Abri a porta bruscamente. Nnive estava no 
quarto sozinha  para minha sorte, o que  uma 
surpresa. Ela olhou ao redor e fez uma cara no muito 
agradvel. 

 Quem entrou?  ela perguntou autoritria  
Eu estou sentindo que h duas presenas aqui. Exijo 
que se mostrem! 

 Calma!  fiquei visvel. 
 Voc?  Nnive estava espantada  O que faz 
aqui? 
 Viemos resgatar as noivas.  respondi. 
Alexis resolveu ficar visvel. A cara surpresa de 
Nnive ao encontrar-lo foi ainda maior do que a 
surpresa de me encontrar ali. Ela parecia estar vendo 
um fantasma ou qualquer outra coisa do tipo. 

 Mas o que ele est fazendo aqui?  ela 
perguntou. 
 Ajudando.  respondi. 
 Vocs... Vocs so loucos ou o que?  ela 
falou um pouco alto  Esto querendo ser presos? 

 Tecnicamente ns j fomos presos!  Alexis 
sorriu um pouco debochado. 
 Como?  Nnive no entendia nada. 
 Esquece!  fiz um sinal de desdm  
Precisamos da sua ajuda para levar as noivas daqui. 

 Sim, eu imagino.  ela respondeu  Mas ainda 
acho que vocs se arriscam demais. Bianor pode entrar 
aqui a qualquer momento e por qualquer lugar. 
 Qualquer lugar?  perguntei. 
  uma coisa que ele gosta de fazer.  ela dizia 
como se estivesse explicando para as amigas uma 
daquelas manias chatas que o marido faz com 
frequncia  Ele gosta de se materializar nos locais e s 
vezes aparece de surpresa, enfim...  uma coisa bem 
chata. 
 Mas voc vai nos ajudar?  Alexis perguntou 
um pouco alto demais. 
 Sim, eu vou!  ela respondeu fazendo sinal 
com a mo para que baixasse a voz. 
 Traga todas!  disse. 
 Eu irei trancar a porta, para evitar que outras 
pessoas entrem.  Nnive fez um gesto e a chave saiu 
da porta e foi para a mo dela  Se algum bater, no 
respondam. Finjam que o quarto est vazio ou que eu 
estou dormindo, sei l... Mas no respondam! 
Nnive saiu ouvimos a porta ser traada. 
Estvamos presos outra vez e Alexis no pareceu 
gostar muito da situao. 

 O que foi?  perguntei sussurrando. 

 Tem certeza que podemos confiar nela?  ele 
tambm sussurrou. 
 Claro!  sorri  Ela  irm do Nicardo. 
 Grande consolo.  Alexis revirou os olhos. 
 Alexis... Ela  legal!  falei sem sussurrar. 
 To legal que est do lado de Bianor!  Alexis 
continuou sussurrando. 
 Mas ela... Sei l. Talvez ela foi enfeitiada!?  
sugeri. 
 E porque ele no fez isso com as outras?  
Alexis rebateu. 
 Ah... Bem... Ah... Alexis eu confio nela.  
fiquei sem argumento  Voc acha que eu sou tola? 
Fcil de se enganar? 

 No.  ele respondeu. 
 Ento pare de implicncia!  dei um tapa em 
seu ombro. 
A desconfiana de Alexis fez com que os 
minutos parecessem horas interminveis. Cada 
segundo de demora de Nnive parecia uma eternidade. 
Sentia-me como se eu estivesse sendo a enganada e 
que Nnive estava apenas nos segurando para avisar a 
Bianor e nos entregar. 

Alexis ficou invisvel e segui para a janela. No 
sei se ele ficou muito tempo na janela, mas quando ele 
ficou visvel outra vez o seu rosto estava srio, porm 
aliviado. 

 O que aconteceu?  perguntei. 

 Eu acabei de ver Bianor saindo do castelo. 
 E isso  bom n?  estava confusa. 
 Isso  mais do que timo.  Alexis sorriu  O 
nico problema que eu poderia ter era ele. Mas agora 
acho que a parte final do meu plano vai ser concluda 
com perfeio. 
De repente minha viso comeou a ficar 
escura. No estava me sentindo tonta, nem fraca, mas 
comecei a sentir como se meu corpo tivesse deixado de 
existir. Tudo ficou escuro e quando voltei a enxergar, j 
no estava mais no quarto de Nnive. 

Era uma sala grande. Uma sala bem grande. Eu 
estava parada em frente a uma grande porta e parecia 
que a porta crescia cada vez mais. A porta tinha um 
fecho de luz a iluminando e o restante da sala estava 
toda escura. Eu no fazia idia do que estava 
acontecendo, mas sabia que aquilo no era real. 

A porta se abriu lentamente e um enorme p 
surgiu. No era a porta que havia crescido, eu havia 
diminudo. Desviei do p para no ser esmagada. Uma 
grande capa preta repousava sobre os ombro de seja l 
quem tivesse entrado. No consegui ver a pessoa de 
frente. Talvez, na altura em que estava, nem 
adiantasse. 

O homem sentou em um trono, que ganhou 
um feche de luz igual ao da porta. Andei um pouco 
para trs na tentativa de conseguir ver quem estava 


sentado no trono e tive uma terrvel surpresa. Era 
Bianor. 

 Beatriz?  Alexis deu um leve tapa no meu 
rosto. 
 Alexis!  estava assustada  Eu vi. 
 Viu o que?  ele perguntou. 
 Nada ir adiantar. Nada. 
 Do que voc est falando garota?  Alexis me 
segurou pelo ombro. 
 Bianor.  respirei fundo  Bianor. 
 O que tem Bianor? 
 Ele vai... No, no!  estava assustada demais 
com a idia. 
 Beatriz, pare com isso!  Alexis gritou  Est 
me assustando! 
 Eu vi Alexis!  disse quase delirando. 
 Beatriz  Alexis tentou falar com mais calma  
O que voc viu? 
Neste exato momento a porta se abriu. Quase 
deu um grito, mas Alexis tapou minha boca. Eu estava 
com tanto medo e tanto dio do que eu tinha 
constatado com o que vi que nada mais parecia estar 
valendo  pena. 

 O que vocs esto fazendo?  Nnive falava 
baixo  Pude ouvir vocs gritando corredores daqui. 
 A Beatriz...  Alexis comeou. 
 Amiga!  Camila entrou no quarto gritando 
mais alto do que todos ns  Eu achei que no sairia 

dessa. Mas eu sabia que voc no iria desistir de mim 
assim to fcil. 

 Amigas so par isso!  sorri sem muita 
animao  Mas o que aconteceu da outra vez? 
 Eu no sei dizer.  Camila coou a cabea  Eu 
estava bem atrs de vocs. De repente... Eu no estava 
mais. 
 O que?  Alexis perguntou. 
 Quem  seu novo amigo gatinho?  Camila 
perguntou. 
 Alexis!  corri para abraar-lo  Mas ele j  
meu. 
 E o Nicardo?  Camila perguntou. 
 Ns terminamos. 
Um clima meio estranho ficou pairando no 
quarto. Nnive parecia no gostar muito do que estava 
ouvindo e eu provavelmente estava com aquela cara de 
quem se arrependeu amargamente de no ter medido 
as palavras antes de proferi-las. 

Alexis tambm pareceu no gostar muito de 
como tudo aconteceu. No sei se foi a forma como 
Nnive olhou ou se foi a cara de espanto da Camila. 
Talvez as duas coisas ou talvez nenhuma. Palavras no 
devem ser ditas sem se pensar nas consequncias. 

 Mas ento... Ns dois terminamos. Estamos 
bem.  tentei corrigir. 
 Ser que podemos resolver o problema delas 
logo?  Alexis falou com um pouco de urgncia. 

 Ah claro!  aproveite a deixa  Voc vai fazer 
do mesmo jeito que da outra vez? 
 Sim!  Nnive respondeu  E o jeito mais 
seguro. S eu tenho acesso aquela passagem. 
 Que passagem?  Alexis perguntou. 
  uma passagem que eu mesma criei. Para 
emergncias.  Nnive respondeu. 
 Voc criou uma passagem? Dentro do 
castelo?  Alexis estava confuso. 
 No no castelo.  Nnive sorriu   uma 
passagem mgica. 
 Mgica?  Alexis quase gritou  Voc est 
querendo dizer que criou uma dimenso? 
 Sim.  ela pareceu no entender a surpresa  
Voc pode ir para qualquer lugar que desejar por essa 
passagem. 

 Mas voc tem certeza de que foi voc quem 
criou?  Alexis estava muito desconfiado. 
 Por que desconfia tanto?  Nnive realmente 
parecia no entender. 
 No vem com brincadeira, voc no criou isso 
nunca!  Alexis gritou. 
 Alexis!?  tambm gritei  O que  isso? 
 Voc realmente acredita nessa histria?  
Alexis ficou nervoso. 

 E por qual motivo no acreditaria?  rebati. 
 Nem voc que tem metade de todo o poder 
mgico da minha me sabe criar passagem simples, 
quanto mais passagem to complexas como essa. 

 Mas eu criei sim!  Nnive tambm ficou 
nervosa. 
 No me convence!  Alexis continuava 
irredutvel  Voc pode at achar que criou, mas voc 
no criou. 
  claro que criei!  Nnive gritou. 
 Isso deve ser alguma armadilha.  Alexis 
cruzou os braos. 
 Pare!  eu quem gritei  J passei por essa 
passagem antes e posso garantir que ela  segura! 
Meninas, vocs podem passar. 
Neste momento apenas que notei uma garota 
alta, com um corpo exuberante e longos cabelos loiros 
e olhos azuis como o mar. Seu rosto tinha um formato 
bruto, porm atraente. Parecia uma sereia de to 
bonita e misteriosa. Era a Layla. 

 Desculpe.  disse olhando para ela  No 
somos sempre assim.  que o Alexis hoje no est 
muito bem. 
 Nem voc!  Alexis interrompeu  At agora a 
pouco estava gritando feito louca. 
 Ignore.  eu disse  Eu sou a Beatriz. Voc 
deve ser a Layla? 
 Sim, sou eu.  ela disse um pouco 
constrangida  Voc me conhece? 
 O Nicardo j falou de voc para mim.  tentei 
ser simptica. 
 Ele falou?  ela ficou surpresa. 
 Falou!  continuei tentando ser simptica. 

 Se no estiverem com medo de serem 
guilhotinados em uma armadilha friamente planejada 
por mim para matar vocs, eu j posso abria a 
passagem.  Nnive falou em um tom snico. 
 Sim, estamos todos!  fitei Alexis. 
 Eu no vou.  Alexis continuou de braos 
cruzados. 
 Alexis!  o fitei mais cruelmente. 
 No  por causa da passagem.  ele ficou 
srio  Eu ainda no terminei o que vim fazer. 
 O que ainda falta?  perguntei. 
 Um pequeno, porm importantssimo 
detalhe.  Alexis respondeu  Mas pode ir com elas. 
Cheguei mais perto do Alexis e o fiz se abaixar 
um pouco. Alexis me olhou confuso e eu fui direto em 
sua orelha e tirei um brinco. 

 O que est fazendo?  Alexis gritou. 
 Tome!  entreguei a Levinda  Quando vocs 
chegarem a uma porta, peam para sarem no castelo 
da Capital. Acredito que voc e a Layla sabem como  o 
castelo certo? 
As duas assentiram. 

 Vocs tem que visualizar o castelo para dar 
certo.  dei dois passos para trs  Mandaria vocs 
para casa de Neandro, mas acredito que vocs nunca 
tenham visto a casa. Quando chegarem ao castelo, 
mostrem esse brinco e eles sabero que vocs foram 
mandadas por ns. 
 Voc no vem?  Levinda perguntou. 

 E eu posso deixar esse aqui sozinho?  
brinquei olhando para Alexis. 

 No precisa disso!  ele estava srio. 
 Podem ir tranquilas!  ignorei Alexis  Assim 
que terminarmos aqui iremos nos encontrar na Capital! 
 Tudo bem.  Levinda sorriu. 
Nnive abriu a passagem e as trs  apesar de 
temerosas  entraram na passagem mgica. 

 Voc poderia muito bem ter ido!  Alexis 
reclamou assim que o portal fechou. 
 At agora voc no contou o que voc 
planejou. Eu vejo as coisas acontecerem, acho que 
entendo, mas preciso ter a certeza de seus planos. Vai 
que esse ltimo passo  algo perigoso demais para se 
fazer sozinho? 
 Beatriz...  ele sorriu  Eu me cuido muito 
bem sozinho. 
 Ah sei!  debochei  Cuida to bem que virou 
um ser do bosque. Mas voc  muito mal agradecido. 
Eu te salvo e voc ainda fica com ignorncia comigo. 
 Desculpe interromper a briga de casal, mas 
acho melhor vocs sarem daqui logo.  Nnive foi em 
direo a porta  J fiz o que tinha que fazer. Agora 
vocs dois que se virem. Desculpe Beatriz, voc  legal. 
 Tudo bem!  sorri  Obrigada por ter cuidado 
da Camila. 
 Sem problemas.  ela tambm sorriu  Mas 
eu estou falando srio.  melhor sarem. 

Eu e Alexis ficamos invisveis. Eu no o 
enxergava, mas sentia onde ele estava. Consegui seguir 
sua presena, mesmo sem ver a imagem. No sei 
explicar se isso acontecia com todo mundo que usava 
magia ou se era apenas uma ligao minha com Alexis, 
mas eu sentia que ele tambm sentia a minha 
presena. 

Seguimos por vrios corredores e eu estava 
completamente perdida. Se ao menos soubesse o que 
Alexis tanto procurava poderia tentar ajudar-lo, mas 
ele parecia gostar de fazer suspense. 

Na verdade eu j havia entendido um pouco o 
plano dele, mas no tinha certeza se tudo o que eu 
havia presumido era exatamente o que ele havia 
pensado. Se tratando do Alexis qualquer coisa  valida. 

Continuamos caminhado por vrios corredores 
e quase nos perdemos varias vezes  ou eu quase me 
perdi varias vezes  at chegarmos novamente ao 
inicio: A sala do trono. 

Alexis parou nas grandes portas da sala do 
trono e fico ali por alguns segundos. No sabia ainda o 
que queria fazer, mas acho que finalmente ele 
encontrou o que tanto procurava. 

Alexis abriu a porta ignorando todos os guardas 
ali presente. Ele ficou visvel e entrou dentro da sala. 
Fiquei visvel e entrei tambm enquanto os guardas 
seguiam atrs dele. 

 Alexis voc est doido?  gritei. 
 Parem onde esto!  um dos guardas gritou. 

 Beatriz,  aqui!  Alexis parecia ignorar os 
guardas. 
Corri para perto de Alexis, mas um guarda me 
segurou antes que eu pudesse alcanar-lo. 

 Solte-me!  gritei  Alexis o que voc quer 
fazer? 
  aqui mesmo!  Alexis ignorava todo mundo. 
 Fiquei ai rapaz!  outro guarda foi em direo 
a Alexis, que consegui escapar. 
Alexis seguiu para o meio da sala, desviando de 
vrios guardas. Ele se abaixou e colocou a mo no 
cho, bem no centro da sala. Um grande crculo 
dourado rodeou a sala e foi diminuindo at formar um 
pequeno crculo em volta da mo de Alexis. O 
fenmeno se repetiu mais duas vezes. 

 O que voc est fazendo?  um dos guardas 
gritou assustado. Ningum conseguia se mover. 
De repente a mo de Alexis comeou a 
atravessar o cho. Quanto mais sua mo era sugada, 
mas o cho comeava a se tornar instvel. Varias 
pequenas ondas comearam a surgir, como quando 
voc taca uma pedra em uma lagoa. Melhor dizendo, o 
cho estava se transformando em uma lagoa. Estava 
tudo ficando to movedio que parecamos estar em 
cima de uma grande poa de gua. No demorou muito 
e comeamos a afundar e afundar at todos serem 
tragados pelo cho. Depois disso no enxerguei mais 
nada. 


CAPTULO 22 / O LABIRINTO SUBTERRNEO 


N 


o sei se adormeci ou se foi o impacto da queda que 
fez eu ter essa impresso, mas quando abri os olhos 
tudo o que eu conseguia enxergar era o lado de baixo 
de um tapete. 
Ao meu lado estava Alexis, aparentemente pensando o 
mesmo que eu. Do outro lado trs guardas to 
visivelmente confusos quanto eu. 

 O que fez?  um dos guardas perguntou  O 
que vocs fizeram? 
 No devo explicaes para vocs!  Alexis 
falou sem expresso. 
 So nossos prisioneiros!  outro guarda gritou 
 Devem explicaes! 
 J disse que no.  Alexis continuava sem 
expresso. 
 Exijo que diga onde estamos!  o terceiro 
guarda estava apavorado. 
 Se forem inteligentes o bastante, 
descobriram sozinhos.  Alexis ficou alguns segundos 
fitando a reao do guardas  J vi que no so 
inteligentes o bastante... Beatriz, voc j sabe onde 
estamos. 
 Acho que desconfio.  respondi olhando para 
cima. 
No mesmo instante os outros guardas tambm 
olharam para cima e ficaram ainda mais assustados. 


Ningum sabia o que estava acontecendo, mas sabia 
que algo no estava ocorrendo muito bem por ali. 

 Aquilo no teto ... 
 O cho da sala do trono!  Alexis interrompeu 
um dos guardas  Pelo visto o teto dessa passagem 
funciona como um espelho. Ns estamos bem embaixo 
dele. Eu senti essa passagem mgica e resolvi abrir-la. 
Bianor deu uma pista valiosa sobre o paradeiro de 
minha me. 
 Ento todo aquele rebolio era para 
encontrar sua me?  perguntei. 
 E para resgatar as meninas.  Alexis 
completou  Eu queria ter a certeza de que iria poder 
caminha livremente pelo castelo, por isso me deixei ser 
pego. A certeza da nossa priso fez com que 
dispersasse a nossa presena quando estvamos 
invisveis. Se no houvesse essa certeza, eles sentiriam 
nossa presena. Talvez no esses guardas, mas Bianor 
sentiria. 
 Deixa eu ver se entendi?  ignorei os guardas 
 A nossa presena foi camuflada? 
 Sim.  Alexis respondeu  A certeza  algo 
muito forte e pode cegar. Eles estavam to confiantes 
de que haviam nos pego, que ignoraram nossa 
presena inconscientemente. 
 Vocs dois!  um dos guardas se irritou  
Parem de ficar conversando. So prisioneiros. 

 Eu acho que no!  Alexis disse um pouco 
debochado. 

 Tire-nos daqui imediatamente para que 
possam voltar para suas celas!  o guarda insistia. 
 Voc realmente acredita que vai me 
intimidar?  Alexis gargalhou  Eu sou um homem com 
uma misso. E no irei a lugar algum antes de cumprirla. 
Mas se querem tanto sair... 
Alexis estendeu a mo e ficou com ela 
estendida por alguns segundos. Nada aconteceu. Alexis 
impulsiona o corpo como se estivesse se preparando 
para voar, mas nada acontece novamente. 

 Que timo!  disse j desconfiando. 
 A magia no funciona aqui!  Alexis 
confirmou minhas desconfianas. 
 Mas esse lugar deve haver uma sada.  um 
dos guardas estava ficando desesperado. 
 Talvez.  Alexis disse alto  Vamos ter que 
procurar. Depois de achar minha me, claro. 
 Mas at l vocs esto todos presos.  o 
guarda intimista puxou um par de algemas que 
estavam presas em sua cintura. 
 Que saber, tanto faz!  Alexis estendeu as 
mos  Podem me algemar. No vai adiantar de nada 
mesmo. 
Outro soldado tambm retirou as algemas da 
cintura e veio em minha direo. Resolvi fazer o que 
Alexis estava fazendo e deixar que me algemassem, 
mas no foi preciso. 


 Ela no!  Alexis falou alto  Pode precisar 
muito dela ainda. Talvez ela consiga descobrir um jeito 
de usar magia e nos tirar daqui. 
 Mas por onde iremos seguir?  perguntei 
olhando em volta  Parece que existem vrias 
passagens. 
O salo onde estvamos era redondo, como a 
sala do trono. As paredes eram de pedras roxas, sujas e 
midas. Estavam repletas de musgos e manchas pretas. 
Havia algumas gretas que escorriam uma gua suja e 
nojenta e, entre um intervalo e outro, portas. 

Eram ao todo cinco portas rodeando o salo. 
Tnhamos cinco passagens. Cinco possveis sadas. E 
nenhuma delas era certeza de segurana e salvao. 
Teramos que seguir os instintos e nos guiar pela 
intuio. 

 O que voc acha Beatriz?  Alexis perguntou. 
Pensei bem. Olhei cada sada com ateno. 
Tentava ver se alguma parecia com uma sada segura, 
mas estava difcil. Quanto mais olhava mais tinha 
certeza de que aquelas sadas podia ser tudo, menos 
seguras. Acabei escolhendo a segunda a minha direita. 
Era o local mais limpo de toda a sala  em comparao 
ao resto, claro  e era a que menos me instigava medo. 

 Aquela ali!  apontei. 
 E quem garante que devemos confiar em 
voc?  o guarda intimista. 

 Algum tem alguma outra sugesto?  Alexis 
foi hspido  Ela  a nossa nica opo. 
Nenhum dos guardas questionou, mas tambm 
no pareciam ter se convencido. O guarda medroso 
tremeu um pouco e sem dvida faria tudo o que Alexis 
dissesse, mas os outros dois continuaram firmes apesar 
de seguirem o meu conselho. 

Entramos em um amontoado de murros e 
corredores. No mesmo instante voltamos para a sala 
principal. 

 tima idia!  o guarda intimista debochou  
Agora deixe que eu escolho! 

O guarda olhou e olhou e resolveu escolher a 
segunda porta a esquerda. Entramos e novamente nos 
deparamos com o mesmo amontoado de muros e 
corredores. Voltamos e olhamos todas as portas at 
voltarmos a porta que eu havia escolhido. Todas as 
passagens davam para o mesmo lugar. 

 Estamos presos em um labirinto?  o guarda 
medroso perguntou. 
 E o que parece.  respondi. 
 E agora?  o segundo guarda perguntou  O 
que vamos fazer? 
 Acho que no temos outra alternativa alm 
de entrar no labirinto!  Alexis falou. 
 Mas que maravilha!  o guarda intimista 
comeava a ficar furioso  Nunca iremos sair daqui! 
 Nunca diga nunca meu amigo!  Alexis 
brincou debochado. 

 Mas de qualquer forma nos no temos outro 
lugar para ir.  tentei ficar calma  Se  para ficarmos 
presos para sempre aqui, pelo menos vamos ficar 
sabendo que tentamos. No temos mais nada a perder 
se entrarmos no labirinto. 
 Nossas vidas!  o guarda medroso disse alto. 
 O que?  Alexis perguntou. 
 Nossas vidas!  o guarda medroso repetiu  
No sabemos o que nos espera l dentro. 

 Mas se ficarmos aqui iremos morrer tambm. 
 eu disse  Quanto tempo acha que sobreviveremos 
sem gua e alimento? 
 Sem gua ns no iremos ficar!  o guarda 
medroso fitou as gretas que escorriam gua. 
 Credo!  gritei  Eu no quero chegar ao 
extremo de ter que beber essa gua nojenta para 
sobreviver. Voto para entramos no labirinto! 
 Eu tambm!  Alexis levantou as mos 
algemadas. 
 Eu tambm!  o segundo guarda. 
 E independente do voto que vocs derem, j 
so trs contra dois  Alexis se adiantou  Por tanto, 
vamos seguindo em frente. Ou fiquei ai. Vocs e quem 
sabem. 
Seguimos para o labirinto e os outros dois 
guardas acabaram seguindo junto com a gente. Eles 
estavam um pouco relutantes, mas pareceram 
perceber que aquela realmente era a nica sada. 


O labirinto era um lugar muito sinistro. Assim 
como a sala principal, o labirinto era mido e sujo. Uma 
fumaa leve, parecia uma nvoa, pairava no local e 
vrios barulhos metlicos ecoavam pelos corredores. 
Um batida se repetia junto com os sons metlicos 
parecendo varias pessoas marchando. Era como se 
estivssemos dentro de um ferro velho. 

A cada novo corredor que cruzvamos, novas 
sensaes iam aparecendo. O labirinto aos poucos foi 
ficando cada vez mais escuro e um clima tenso acabou 
sendo criado. Comevamos a ouvir o som de um piano 
desafinada, junto com o eco de ago que parecia estar 
sempre quicando. Ouvimos tambm, quase 
silenciosamente, gemidos como o de um coral 
agourento. Era como se o vento soprasse os gemidos e 
os destorcesse. Mas o pior e que, por mais que 
tentssemos, parecia que estvamos sempre andando 
para o mesmo lugar. 

 Eu desisto!  o guarda medroso  Esse lugar 
est me dando arrepios! 
 J vi coisas piores!  Alexis debochou, mas 
tinha razo. Eu e ele j enfrentamos coisas bem piores. 
Os corredores comearam a ficar mais estreitos 
e agora ouvamos sons de algo sendo esticado. Era 
como se tivessem pegado algum daqueles elsticos 
bem duros e estivessem tentando esticar ao mximo, 
at rasgar ao meio. Tive a terrvel sensao de que 
poderia ser outra coisa que estava sendo esticada. 


Olhamos para o teto. Estvamos bem debaixo 
do quarto dos empregados. No era sempre que 
conseguamos ver onde estvamos, mas quando 
apareciam era quase um alivio. A nica certeza de que 
no estvamos andando em crculos. 

O corredor seguinte tinha batuques de tambor 
e um cheiro horrvel. Ouvamos grunhidos de animais 
selvagens e um som de gritos primitivos. A nica coisa 
que nos acompanhava desde que havamos entrado 
naquele labirinto era a nvoa. De repente o cho 
comeou a tremer. 

 Mas o que  agora?  Alexis gritou. 
Quando olhamos para trs, um enorme vulco 
havia se formado atrs de ns e estava prestes a entrar 
em erupo. 

 Que droga!  Alexis gritou novamente  Por 
que essas coisas sempre acontecem? 
 E o que estamos esperando para sair logo 
daqui?  perguntei, mas o vulco j estava explodindo. 
Fiquei desesperada neste instante, mas logo 
em seguida fui invadida por um calor imenso que 
entrou em meu corpo. Estava me sentindo mais forte e 
senti a magia voltar ao meu corpo. 

 Todos para trs!  gritei enquanto a onda de 
larva vinha em nossa direo. 
 O que voc vai fazer?  Alexis gritou. 
Senti uma energia se concentrando em minhas 
mos. Uma fora dominou o local e uma grande 
barreira comeou a crescer e se transformou em um 


escudo no exato momento em que a larva iria nos 
atingir. A larva passou por cima do escudo e continuou 
seguindo corredor a fora. Aos poucos o vulco foi 
voltando para debaixo do cho e os gritos e grunhidos 
cessaram e quando dei por mim estavam todos me 
olhando. 

 O que foi?  perguntei. 
 Como conseguiu executar magia?  Alexis 
perguntou. 
 No sei.  fui sincera  De repente ela estava 
l. Mas agora no consigo sentir mais. 
 Voc  incrvel!  Alexis sorriu  Eu disse que 
era melhor no algemar-la! Ela sempre faz coisas 
assim... Surpreendentes. 
 Esto todos bem?  perguntei. 
 Acho que sim.  Alexis respondeu olhando 
para os guardas que estavam de boca aberta. 
 Vamos morrer a qualquer momento!  o 
guarda medroso caiu para trs desmaiado. 
Continuamos seguindo pelos corredores, desta 
vez com o peso extra do guarda que desmaiou, mas 
como no era eu quem estava carregando no fez 
diferena. As coisas comearam a ficar mais calmas e 
apenas a neblina parecia anormal. 

Andamos at um grande beco sem sada. 
Estvamos prontos para dar meia volta quando uma 
porta apareceu. Todos ns nos assustamos. Os guardas 


ficaram to surpresos que deixaram o guarda medroso 
cair no cho, o fazendo acordar. 

 O que aconteceu?  o guarda medroso disse 
meio zonzo. 
 Mas que droga  essa agora?  o guarda 
intimista. 
 Alexis, o que voc acha?  perguntei  
Entramos? 

 Pode ser uma armadilha... 
 Mas pode no ser!  o segundo guarda 
interrompeu Alexis. 
 O que est acontecendo?  o guarda medroso 
estava se recuperando. 
 Chegamos a um beco sem sada, uma porta 
apareceu do nada e agora estamos pensando se 
entramos ou no.  respondi. 
 No entra no!  o guarda medroso gritou 
acordando definitivamente  Isso  uma armadilha. 
 Eu tambm no estou sentindo que isso seja 
seguro.  completei. 
 Eu no acredito em suas intuies!  o 
segundo guarda ficou desesperado  Se voc soubesse 
os lugares seguros teria evitado o vulco. Eu vou 
entrar. Eu quero viver! 
Alexis deu um passo para trs e fez um gesto 
indicando que o caminho estava livre para quem 
quisesse seguir. O segundo guarda no pensou duas 
vezes e foi em direo a porta. Ele segurou a maaneta 
e recuou. Por um instante achei que ele fosse desistir, 


mas ele foi em frente. Sem olhar, ele seguiu e s 
conseguimos ver sua imagem caindo em alta 
velocidade, seguido por um grito. Seguimos para perto 
da porta para ver o que havia acontecido. Talvez aquela 
tivesse sido a cena mais horrenda que j tinha 
presenciado. 

 Minha nossa, que horror!  disse tapando os 
olhos imediatamente. 
 Acho que ningum vai querer seguir esse 
caminho.  Alexis tentou no parecer sarcstico. 
Prefiro no dizer qual foi a imagem horrenda 
que presenciamos. No sei se teria estmago o 
suficiente para descrever-la. Mas uma coisa eu posso 
garantir: No foi uma morte bonita de se ver  se  que 
existe alguma morte bonita. 

Demos meia volta e seguimos por outro 
corredor. O clima comeou a ficar glido e as minhas 
mos comearam a endurecer. Eu no sei explicar, mas 
apesar de todo o clima estranho que estava se 
formando, eu sentia que ali poderia ser um caminho 
seguro. 

 Sabe o que mais me intriga nisso tudo?  
disse fitando os muros. 

 O que?  Alexis perguntou. 
 Essas paredes!  passei a mo sobre as 
pedras das paredes  Elas... Eu tenho certeza de que j 
vi essas paredes antes. 

 Tem certeza?  Alexis perguntou, agora 
tambm fitando os muros. 
 Tenho, mas no consigo me lembrar 
exatamente onde. 
 Seria de algum sonho?  Alexis sugeriu. 
 Talvez... 
Encontramos no caminho outro beco, mas 
desta vez nenhuma porta apareceu de surpresa. Ele j 
estava l quando chegamos. Os guardas j estavam 
dando meia volta quando os fiz parar. 

 Esperem!  disse alto. 
 Voc est pensando em entrar por essa 
porta?  o guarda intimista  Est ficando louca? 
 No.  respondi  Essa porta  segura! 
 Tem certeza?  Alexis me fitou. 
 Tenho!  respondi com toda segurana. 
 Ento vamos entrar!  Alexis seguiu em 
direo a porta. 
 Vocs vo entrar por essa porta?  o guarda 
intimista gritou  Loucos! 
 Eu no passo por ai!  o guarda medroso se 
manifestou  Mas no passo mesmo! 
 Ento fiquem os dois, que ns iremos!  
Alexis falou em seu tom confiante. 

 Que se danem vocs dois!  o guarda 
intimista gritava feito louco. 

Eu fiquei um pouco temerosa antes de abrir a 
porta. Havia afirmado firmemente que aquele era um 
caminho seguro, e ainda sentia que era um caminho 
seguro, mas e se no fosse? 

Abri a porta devagar e olhei bem para toda a 
sala. 

O piso era branco e bem liso. Parecia ter sido 
encerado por umas duzentas vezes pelo menos de 
tanto que brilhava. Era uma sala grande, mas muito 
fria. No parecia ter riscos, mas tambm no parecia 
ser um caminho agradvel. 

 A sala  o nosso nico caminho para sairmos 
daqui!  afirmei com segurana  Se no passarmos por 
ela ficaremos vagando por ai at no poder mais. 
Precisamos passar por ela. 
Os guardas no pareceram se convencer, ento 
entrei para dar mais segurana a eles. Alexis fez o 
mesmo e continuamos andando pela sala. Pouco 
depois eles j estavam atrs de ns. 

A sala parecia bem maior depois que entramos. 
E o frio tambm aumentou. Depois reparei que o piso 
era to liso e brilhoso por que estava congelado. A sala 
inteira estava congelada. As paredes, o teto, tudo 
estava coberto por uma grossa camada de gua 
congelada. 

 Estou me sentindo mais forte.  comentei  
Igual quando aquele vulco entrou em erupo. Sinto 
minha fora aumentando. 


 Acho que sei por que isso aconteceu!  Alexis 
coou a cabea  Foi o contato com o seu elemento. 
Acho que j cheguei a te falar sobre isso. Todo grande 
mago domina um elemento. Alguns dominam o fogo, 
outros a gua. Alguns o vento, outro a terra. Os 
grandes magos, apenas os grandes, conseguem se 
fortalecer e criar mais que simples truques com os 
elementos. Voc se encontrou com o calor, como o 
fogo,  por isso o seu poder aumentou e voc 
conseguiu criar o escudo. Agora voc est em contato 
com a gua e isso est te fortalecendo. Voc tem noo 
do que isso significa? 
 No.  fui sincera.  A maioria dos grandes 
magos s domina um elemento, voc domina dois 
elementos! Pelo menos dois que ns conhecemos. No 
h dvidas, voc ser a pessoa que vai derrotar Bianor. 
 O que  aquilo?  o guarda medroso seguiu 
para um objeto preto no meio da sala. 
Ele encostou no objeto e um barulho estranho 
comeou a ecoar pela sala. Todos ns nos 
entreolhamos e ficamos temerosos. O gelo comeou a 
derreter e logo a sala havia virado uma grande piscina. 
O guarda medroso parecia estar vendo a prpria 
morte, mas eu sentia que estvamos cada vez mais 
perto da sada. 

De repente o cho se abriu e camos em uma 
grande rampa. 
Escorregamos desenfreados rampa abaixo com 
litros de gua caindo em nossas cabeas, enquanto o 


cho  que agora havia se tornado o nosso teto  se 
fechava e nos deixava na escurido total. 

Gritamos desesperados enquanto 
escorregvamos para sabe-se l o que. Apesar de no 
sentir que aquilo pudesse ser perigoso, no pude deixar 
de ficar aflita quanto ao destino final daquela rampa. 

Camos todos em um cho duro e molhado. 
Tateamos uns aos outros e tentamos nos manter 
unidos. Aos poucos nossos olhos comeavam a se 
acostumar com a escurido e conseguimos enxergar 
pequenas coisas a nossa frente, mas ainda no era o 
suficiente para nos sentirmos seguros e para evitar que 
tropessemos. 

Segurei bem firme a mo de Alexis. Senti as 
algemas geladas e segurei as correntes. As algemas 
tinham uma corrente logo, que permitia que Alexis 
esticasse o brao at a largura de sua cintura. Isso o 
ajudou na hora de se localizar tateando as coisas. 

Continuei andando e acabei batendo a cabea 
em algo. Estava demorando  alias, demorando muito  
para que minha sorte desse um ol. Achei que ela 
havia me abandonado. 

 Voc est bem?  Alexis perguntou depois de 
ouvir o meu ai. 
 Estou!  respondi colocando a mo na testa  
Mas eu bati em alguma coisa. 
Alexis entrou em minha frente e pude ver o seu 
vulto tateando seja l o que eu tivesse batido. 


 Parece uma grade!  Alexis falou  Acho que 
 um porto. Espere. 
Um ranger de porto velho ecoou na escurido. 
Parecia um porto bem enferrujado e com muitos anos 
de vida marcados em suas grades. No senti que fosse 
algo ruim. 

 Voc vai passar pelo porto?  no sei qual 
guarda perguntou. Acho que foi o medroso. 
 No h riscos. Eu estou sentindo.  falei. 
 Por via das duvidas...  um guarda se 
aproximou de ns. Era o intimista  Jogue pelo porto o 
meu capacete. Se for um buraco ou uma armadilha 
acho que saberemos. 
 No sei se  necessrio, mas tudo bem.  
Alexis falou com um pouco de indiferena. 

Alexis jogou o capacete. Ele bateu em algo. 
Depois bateu novamente. E novamente. E novamente. 
E mais uma vez antes de bater nos ps de Alexis. 

 Estranho. Muito estranho.  Alexis pegou o 
capacete. 
Alexis pareceu analisar o capacete e jogou 
novamente. E novamente ele bateu em algo e depois 
de novo e de novo e de novo at voltar aos ps de 
Alexis. 

 O que voc acha Beatriz?  Alexis perguntou 
 Seguimos em frente mesmo? 
 Eu no vejo por que no.  disse sorrindo, 
mas acho que ningum viu. 

 Jogue o capacete mais uma vez, s para eu 
conferir uma dvida!  o guarda intimista pediu. 
Alexis jogou e o capacete fez exatamente o 
mesmo que das outras vezes. Bateu em algo e depois 
continuou batendo at voltar aos ps de Alexis. 

 Acredito que seja uma escada!  o intimista 
falou  Talvez ela tenha razo. Pode ser a nossa sada. 
Subimos a escada. A longa escada. A longa e 
irregular escada. 

Era uma escada bem diferente. Ela no levava a 
uma nica direo. Ao mesmo tempo em que 
estvamos subindo, comevamos a descer e quando 
achvamos que desceramos mais, comevamos a 
subir. Em algumas horas j no sabia mais em que 
direo estvamos seguindo, at vermos uma pequena 
linha de luz retangular. 

A luz vinha das frestas de uma porta. Ela 
contornava toda a porta e era a nica coisa que 
conseguamos enxergar. Senti que algo muito 
importante nos aguardava atrs daquela porta. Algo 
que talvez fosse mudar toda a situao atual de Ofir. 

A surpresa foi imensa quando abrimos a porta 
e nos deparamos com o lugar. Talvez no houvesse 
surpresa nenhuma para os outros, mas para mim foi a 
grande revelao. Finalmente havia lembrando onde 
eu tinha visto aquelas paredes roxas. 


A sala com teto cinza e tijolos roxos. Era 
exatamente como no meu sonho. As pessoas de capa 
preta tambm estavam ali, com seus rostos tomados 
pela escurido e suas orbitais girando para vrios lados 
ao mesmo tempo. Era a sala do meu sonho. A primeira 
vez que eu vi Alina. At o espelho estava ali. 

 Alexis.  falei  Acho que finalmente achou o 
que tanto procura. 
 O que?  ele perguntou assustado. 
 Sua me!  respondi   aqui que Bianor 
esconde a Rainha Alina! 

CAPTULO 23 / OS HOMENS SOMBRA 


Orosto de Alexis continuava perplexo quando acordou 

da minha declarao. Ele parecia no acreditar no que 
estava ouvindo. Ou acreditava, mas estava surpreso 

demais para dizer alguma coisa. S sei que tudo o que 

ele conseguiu fazer foi me olhar atnito. 

 Parece que no estamos sozinhos!  o guarda 
medroso apontou para os homens de capa preta. 
Eles estavam parados poucos metros a nossa 
frente. Seus olhos  duas orbitais verdes  haviam 
parado de rodar para vrios lado e se focou apenas em 
ns. Eles pareciam estar nos analisando. Rudos 
estranhos, como o de uma respirao presa, cheia de 
fanhos e de serra eltrica eram emitidos pelos homens 
de capa preta. 

 O que ser que eles querem?  o guarda 
intimista perguntou. 
 Acho que no  boa coisa.  Alexis sussurrou 
cauteloso. 
 Ser que pretendem nos atacar?  o guarda 
medroso perguntou. 
 No vamos fazer nada ainda.  Alexis 
continuou sussurrando  Vamos esperar e ver o que 
eles pretendem fazer. s vezes no  nada do que a 
gente est pensando. 
Os homens de capa preta continuaram nos 
olhando e comearam a seguir lentamente em nossa 


direo. Continuamos parados, esperando ver at onde 
eles chegavam. 

O guarda medroso estava com as pernas 
bambas e o guarda intimista parecia estar sussurrando 
algo para ele. Estava to nervosa com os homens de 
capa preta que nem tentei ouvir o que um estava 
falando para o outro. Um grande erro. 

 Esperar coisa nenhuma!  o guarda intimista 
gritou  Morram! 
O guarda intimista puxou sua espada e correu 
em direo aos homens de capa preta. Tentamos 
impedir, mas no conseguimos. Ele cravou a espada no 
peito de um dos homens de capa preta, mas nada 
aconteceu. A espada atravessou completamente o 
corpo do homem de capa preta e aos poucos foi 
puxando o guarda intimista para dentro do corpo dele. 
O guarda gritou desesperadamente. Tentamos puxarlo, 
mas ele parecia preso ao corpo do homem de capa 
preta. 

 Olhe Alexis!  gritei horrorizada quando 
reparei melhor no brao do guarda. 
 Mais que droga!  Alexis gritou e continuou 
puxando com mais fora o guarda. 
O brao do guarda estava sendo estilhaado. A 
pele estava sendo arrancada, como se o homem de 
capa preta a estivesse sugando e o brao do guarda ia 
entortando em carne viva. O guarda medroso tentava 
fugir, mas a porta por onde entramos havia 
desaparecido. 


 Em vez de tentar fugir, venha e ajude o seu 
companheiro!  Alexis gritou. 
O brao direito do guarda intimista j havia 
sido levado. O homem de capa preta pareceu comear 
a puxar-lo com mais fora, enquanto os outros ficavam 
completamente paralisados, com as orbitais brilhando. 

O guarda estava completamente desesperado e 
acabou  em uma tentativa intil de acertar o homem 
de capa preta  puxando a capa, que veio abaixo. 

Debaixo da capa se escondia uma sombra. Era 
um homem sombra. Ele era uma nuvem em forma de 
gente. O local onde o guarda havia enfiado a espada 
estava com um buraco manchado de sangue. Os olhos 
dele pareciam estar revirados e brilhavam, como os dos 
outros homens sombra. O susto foi to grande que 
acabamos soltando, por alguns instantes, o guarda que 
foi sugado com tudo para dentro do homem sombra. 

 E agora?  o guarda medroso  Ns vamos 
morrer? 
 Deve haver um jeito de derrotar-los, sem 
precisar encostar neles. 
 Alexis?  tentei me manter afastada dos 
homens sombra  Eu sei onde sua me est! 
 Sabe mesmo?  ele perguntou vigiando os 
homens sombra. 
 O espelho!  apontei para o espelho que 
estava no final da sala. 

Neste momento um grito de horror ecoou pela 
sala. Eram os homens sombras. Agora estavam todos 
sem capa. A imagem era apavorante. 

 E agora?  o guarda medroso falou  Acho 
que eles querem brigar. 
 Ento vamos brigar!  Alexis falou  Beatriz, 
v e resgate minha me. Ficaremos aqui distrado esse 
homens sombra! 
 Tudo bem. Tome cuidado!  apertei sua mo. 
 Lembre-se, no encoste neles. Vamos tentar 
desviar seus golpes.  Alexis instrua o guarda medroso, 
mas no sei se adiantaria muito. 
Os homens sombra partiram para cima de 
Alexis, que esquivou do golpe. O guarda medroso 
conseguiu fazer o mesmo. Alexis se esquivou de outro 
homem sombra e saltou para o teto. O homem sombra 
se grudou na parede e foi atrs de Alexis. O guarda 
medroso continuava se esquivando atrapalhado no 
cho. E tinha quase certeza que no eram os dotes de 
luta dele que o estavam ajudando. 

Cheguei no espelho desesperada. Olhei e olhei 
e a nica coisa que via era o meu reflexo. Tinha certeza 
que a Rainha Alina estava ali, mas como eu iria 
encontrar-la. 

Bati varias vezes no espelho, mas nada 
aconteceu. Pelo reflexo do espelho pude ver parte da 
luta. Alexis estava indo muito bem e conseguia se 
esquivar rapidamente dos homens sombras. Agora o 
guarda medroso j estava muito cansado e 


desesperado demais para continuar aquela luta. Em 
alguns momentos achei que ele teria o mesmo destino 
do outro guarda. 

Alexis continuava muito bem, se esquivando e 
atirado coisas que ia encontrando pelo caminho em 
uma esperana intil de derrotar os homens sombra. O 
guarda medroso parecia querer usar sua espada, mas o 
medo de ser engolido estava visivelmente falando mais 
alto. 

Alexis quase sempre fazer os homens sombra 
de tolos. Ele estava indo muito bem, mas toda aquela 
luta estava sendo apenas para ele se cansar e isso me 
preocupava demais. 

Tentei novamente bate no espelho e procurei 
por algo que pudesse fazer a Rainha Alina parecer. 
Qualquer coisa. Mas nada apareceu. Nada e nem 
ningum. 

Por alguns segundos quase tive um ataque do 
corao quando um dos homens sombra chegou bem 
perto de Alexis. Por poucos centmetros Alexis no 
acaba ganhando o mesmo trgico e infeliz final que o 
guarda intimista teve. Foi um momento horrvel e 
desesperador. 

 Rainha Alina, por favor, aparea.  pedi em 
frente ao espelho. Mas nada aconteceu. 
Eu precisava agir rpido. Alexis e o guarda 
estavam distraindo os homens sombra para que eu 
pudesse resgatar a Rainha Alina, mas eu estava 
fracassando. 


De repente o vidro do espelho comeou a se 
transformar em um portal e assim que encostei, fui 
sugada para dentro dele. 

Eu estava no mesmo local absolutamente 
branco que havia encontrado a Rainha Alina da 
primeira vez, antes de enfrentar Bianor no deserto de 
Orestes. A Rainha Alina estava presa, com as mos 
amarradas encima da cabea. Seus olhos estavam 
completamente brancos e suas pupilas estavam 
dilatadas. Seus cabelos estavam soltos e tinham uma 
aparncia horrvel, praticamente sem vida. 

 Rainha Alina!  corri para encontrar-la. 
 No Beatriz!  Alina gritou. 
Antes que eu pudesse parar, levei um grande 
choque. Uma barreira invisvel. Tentei me recuperar do 
susto e do choque eltrico e voltei a falar com a Rainha 
Alina. 

 Rainha Alina?  minha voz estava falhando  
O que est acontecendo? 
 Beatriz!  Alina tentava olhar em meus olhos 
 Eu sabia que voc iria me achar. Eu tinha certeza 
absoluta disso. 
 Mas o que est acontecendo? Como eu posso 
te tirar da?  perguntei atropelando as palavras. 
 Voc  uma garota de coragem!  Alina 
continuou falando  Uma garota de muita coragem.  
uma garota muito esperta tambm e tem um grande 
poder em suas mos. 

 Rainha Alina? 
 Beatriz, voc precisa lembrar-se disso.  Alina 
tentou erguer a cabea  Bianor  muito forte. Ele  
extremamente forte. Mas no sabe usar toda essa 
fora. Voc precisa aprender a usar essa fora. Precisa 
superar-lo para poder vencer-lo. 
 Sim, sim.  tentei no parecer arrogante  
Mas agora precisamos te tirar daqui! 

 Eu estou bem.  Alina tentava me convencer 
 O seu pedido me salvou da outra vez e se estou aqui 
hoje  por sua causa. Voc me salvou, nobre garota. 
 Eu fico agradecida, mas srio, preciso te tirar 
da!  tentei apressar-la. 
 Beatriz, eu estou bem!  ela sorriu  Eu vou 
ficar bem. Eu te trousse at aqui apenas para lhe dizer 
que voc precisa sair o mais rpido possvel. Bianor 
est rumando em direo a Capital, eu estou sentindo 
isso. Sua grande batalha est prestes a comear. 
 Mas eu no posso sair daqui sozinha!  resisti 
ao impulso de dar alguns passos a frente. 
 Vocs no precisam de mim.  ela continuava 
com um ar alegre no rosto  Minha misso com voc j 
foi cumprida. Eu deveria te trazer para Ofir. E eu 
trousse. Agora o restante  com voc Beatriz! Voc j 
est mais forte do que esperava, mas ainda no  o 
suficiente para liberar o seu poder mximo. Voc 
precisa achar a sua inspirao. O seu motivo para lutar. 

 Mas eu j achei!  disse alto  Eu quero salvar 
Ofir. Eu quero ajudar a fazer de Ofir um lugar pacifico 
novamente. 
 Mas ser que as suas ambies ticas 
correspondem aos anseios do seu corao?  ela 
continuava com um sorriso no rosto. 
 Do que est falando?  perguntei confusa. 
 Quando sua motivao chegar, voc saber o 
que eu estou dizendo.  Alina fechou os olhos. 
 Rainha Alina?  fiquei desesperada  Rainha 
Alina? 
 Eu ainda estou aqui!  ela respondeu 
tranquila. 
 Achei que tivesse acontecido o pior!  
suspirei aliviada. 

 Eu no te disse que ficaria bem?  ela 
continuava de olhos fechados  Meus olhos doem 
quando tento impedir o labirinto de usar minha magia. 
 O labirinto?  perguntei. 
 Bianor criou o labirinto para jogar seus 
prisioneiros.  ela comeou a explicar  Existem muitas 
armadilhas e todas so mortais. O fato de ter 
conseguido chegar at aqui s prova o quanto voc  
capaz de derrotar Bianor. 
 Mas nem foi assim to difcil!  no estava 
usando de falsa modstia. 
 Voc sabia por quais caminhos seguir.  Alina 
estava ficando mais fraca  Acha que todas as pessoas 
conseguem fazer isso com tanta exatido? E mesmo 

sem saber o seu instinto te trousse at mim. Isso sem 
dvida no  para qualquer pessoa. 

 Falando assim parece at que sou uma 
pessoa extraordinria!  fiquei constrangida. 
 E quem disse que no ?  Alina tentou abrir 
os olhos  Voc deve acreditar mais em voc mesma 
Beatriz. Voc salvar Ofir. 
 s vezes eu no acredito.  disse sria  Se eu 
no posso nem te salvar, como irei salvar Ofir? 
 No tenha medo!  Alina sorria  Voc 
conseguir. Voc est predestinada a isso. Voc ir 
salvar Ofir. 
 Mas por que eu?  perguntei. 
 No existem motivos para o que  
predestinado. As coisas simplesmente so como devem 
ser. E voc foi escolhida para isso. No  por acaso que 
voc est se tornando mais forte a cada momento. 
Voc nasceu para salvar Ofir. 
 Mas Rainha Alina? 
 Voc precisa voltar!  Alina abriu 
definitivamente os olhos. 
 Sozinha?  perguntei. 
 Alexis est em perigo!  ela levantou a cabea 
 Est precisando da sua ajuda. A outra pessoa que 
estava com ele j se foi. Ele est sozinho. 
 No!  fiquei desesperada  No pode 
acontecer nada com o Alexis. 
 Ento volte agora!  Alina ordenava. 
 E eu terei que te deixar?  perguntei. 

 Eu irei ficar bem!  ela sorriu. 
 Por onde eu volto?  perguntei e o reflexo do 
espelho apareceu. 
 Antes de ir eu quero te dizer uma coisa.  
Alina voltou a fechar os olhos  As chamas vencem as 
sombras. 

 Acho que entendi o que quis dizer, mas 
minha magia no funciona.  falei. 
 Ningum pode aprisionar sua magia.  Alina 
falava baixo  Ela est sempre dentro de voc. 
Novamente fui sugada para fora do espelho. A 
situao estava realmente muito feia. Alexis estava 
muito cansado e os homens sombra estavam o 
cercando. Ele tentou voar, mas um homem sombra o 
barrou. 

 Ei!  gritei chamando ateno dos homens 
sombras. 
Eles viraram e seguiram em minha direo, 
esquecendo Alexis. Por alguns instantes eu fiquei 
desesperada, mas lembrei das palavras da Alina. 

 A magia est dentro de mim!  sussurrei. 
 Beatriz, ficou louca?  Alexis gritou cansado. 
 No se preocupe, eu sei o que estou fazendo! 
 falei tentando acender uma chama. 
 Voc vai se matar!  Alexis tentava chegar at 
mim, mas estava muito cansado. 
 Pode deixar que eu sei o que estou fazendo! 
No tinha certeza se iria funcionar, mas tentei. 
Fechei os olhos e me concentrei. Respirei fundo e 


tentei ficar calma. Sentia a presena dos homens 
sombra se aproximando. Eles estavam mais rpidos do 
que da ltima vez em que os havia visto e isso 
atrapalhou um pouco minha concentrao. 

 Beatriz, saia da!  senti Alexis chegando 
perto de mim. Senti uma ferida. Sua perna estava 
machucada. O que ser que havia acontecido? 
Tentei no dar ateno a isso  o que era 
impossvel  e voltei a me concentrar em liberar minha 
magia. Estava sentido que algo estava segurando 
minha magia. Sentia que ela estava desesperada para 
sair, mas algo a segurava. Continuei lutando e lutando. 
Os homens sombra j havia me cercado. Por um 
instante achei que tudo estava perdido, quando uma 
grande exploso saiu do meu peito. 

Abri os olhos e uma grande bola de fogo estava 
em minha mo. Os homens sombras corriam e 
gritavam feito loucos. A bola de fogo foi aumentando e 
aumentado at no aguentar mais. Joguei a bola de 
fogo na parede. Os homens sombras gritaram e 
comearam a sumir enquanto o local pegava fogo. 

 Beatriz? Como?  Alexis estava perplexo. 
 O que aconteceu com sua perna?  perguntei 
assim que vi o ferimento. 
 Um deles encostou a mo em mim.  Alexis 
tentava no olhar para o ferimento  Parece que um 
simples toque pode fazer um estrago. 
Parte da perna de Alexis estava em carne viva, 
como se tivesse sido queimada. No era um ferimento 


grande, mas eu sabia que aquela ferida exposta no era 
nada boa  mesmo pequena. 

 Ns precisamos sair daqui!  falei alto  Este 
lugar est em chamas! 
 Voc no encontrou minha me?  Alexis 
perguntou aflito. 
 Encontrei, mas no consegui trazer-la!  
respondi constrangida. 

 Como assim?  ele perguntou.  A fora que a 
aprisiona  muito grande, mas ela est... relativamente 
bem. 
 Como assim relativamente bem?  Alexis 
ficou zangando. 
 Alexis, ela no quis vir!  fui honesta. 
 Como no?  Alexis gritou  O que 
aconteceu? 
 Alexis, eu tentei.  comecei a falar  Mas ela 
disse que voc estava em perigo... 
 Me deixasse em perigo!  Alexis se zangou  
Voc deveria ter ajudado minha me. 

 Mas eu tentei... 
Neste momento parte do teto comeou a 
desabar. O fogo estava se espalhando muito rpido e 
logo no iramos conseguir sair dali. 

 Alexis, ela quis assim!  tentei convencer-lo  
Vamos sair enquanto h tempo. 
 No sem minha me!  ele gritou. 

Alexis foi em direo ao espelho que estava 
comeando a trincar. Ele bateu desesperadamente 
contra o espelho, gritando pela me. Tentei afastar-lo 
dali, o fogo estava muito forte naquela parte, mas ele 
me ignorou. 

O teto continuava desabando aos poucos e 
uma parte dele caiu bem ao nosso lado. Alexis no 
pensou duas vezes e pegou uma parte do teto e atirou 
no espelho. No momento nada aconteceu, mas depois 
uma luz forte saiu do espelho e subiu at o teto. 

 O que  isso?  perguntei. 
A luz foi se apagando e revelando uma forma 
humana. Minha surpresa no foi muito grande quando 
vi quem estava caindo no teto para os braos de Alexis. 

 Me!  Alexis gritou  Voc no disse que ela 
estava bem? 
 Eu disse que ela estava relativamente bem, 
mas isso no vem ao caso. Precisamos sair daqui agora! 
 respondi observando as chamas se espalhando. 
 Mas em que direo?  Alexis estava mais 
desesperado ainda  A porta sumiu! 
Olhei em todos os lugares. Tudo o que via eram 
chamas, partes do teto desmoronando e muita fumaa. 
Continuei procurando at ter encontrar a sada. 
A porta que havia desaparecido estava l novamente. 
Fiquei temerosa, achando que poderia ser uma 
armadilha, mas era a melhor opo naquele momento. 

 Veja, a porta voltou!  Alexis quase no me 
ouviu. 

 Vamos passar por trs daqueles destroos a 
esquerda. Ali as chamas esto mais fracas.  Alexis 
sugeriu. 
 Mas ainda  perigoso.  comentei. 
  a nossa sada mais segura! 
Caminhamos com a Rainha Alina pendurada em 
nossos ombros. Ela estava desacordada, mas ainda 
estava viva. Esquivamos-nos das chamas e 
conseguimos chegar at a porta com segurana. Mas o 
que vimos atrs da porta no foi nada agradvel. 


CAPTULO 24 / A FUGA DO LABIRINTO 


A 


sala escura havia desaparecido. Apenas uma grande 
escada estava no lugar, onde conseguamos ver boa 
parte do labirinto. 
O local estava em chamas e runas. Paredes caiam, 
junto com chamas. Estvamos cercados em um 
labirinto pior do que o que entramos. E ainda no era 
tudo. Vrios portais se abriam e fechavam em vrios 
locais do labirinto. O lugar estava completamente 
desgovernado. 

 E agora?  perguntei  O que faremos? 
 Acho que no tem outra forma a no ser 
entrar nesse inferno.  Alexis no parecia gostar da 
idia. 
 Mas no  perigoso? No digo nem por ns.  
falei olhando para a Rainha Alina. 

 Mas  a nica sada.  Alexis olhava em volta. 
O teto estava completamente coberto por 
chamas, formando uma capa laranja que cobria todo o 
labirinto. As sadas mais seguras estavam bloqueadas 
por paredes que havia cado e em algumas as chamas j 
comeavam a tomar conta. Alexis tinha razo, no 
existia outra sada alm daquela. Teramos que entrar 
no meio do labirinto e enfrentar as chamas. 

Estava muito preocupada com a Rainha Alina. 
Ns poderamos nos virar caso tivssemos algum 
problema, mas ela dependia da gente. A 
responsabilidade de qualquer coisa que acontecesse 


com a Rainha Alina seria nossa e eu odiaria carregar 
essa culpa. 

 J que no temos outra escolha. Vamos!  
disse ajeitando a rainha no meu ombro esquerdo. 

 Eu s no consigo imaginar para qual destino. 
 Alexis disse preocupado  Ns no fazemos a mnima 
idia de onde  a sada. Ser que iremos conseguir? 
 Pensamento positivo!  tentei animar-lo, mas 
no estava com toda essa confiana. 
Comeamos a analisar o local antes de 
entrarmos de vez no labirinto. Tentamos encontrar 
algum caminho que levasse a algum lugar que no 
estivesse bloqueado. Apesar de muitas paredes terem 
desabado, o labirinto ainda tinha muitos corredores. 

Descemos as escadas com cuidado. Partes dela 
comeavam a cair assim que passvamos por ela. 
Varias vazes quase camos metros abaixo. No 
lembrava que aquela escada era to alta. Lembrava 
que havia uma parede, acompanhado a escada, coisa 
que j no existia. Estvamos nos equilibrando para 
no tropearmos, mas era difcil fazer isso quando se 
tem algum nos ombros. Alexis tentou varias vezes 
carregar a rainha sozinho, mas eu nunca iria permitir 
uma coisa dessas. Estvamos ali juntos para toda e 
qualquer situao. 

O labirinto estava mais complicado agora do 
que antes. Passar por aqueles corredores e chegar com 
vida ao destino final  seja l qual for  era mais uma 


questo de sorte do que de habilidades. E era 
exatamente isso que me apavorava. 

Passamos por vrios corredores que davam em 
sadas bloqueadas. Tentamos ficar calmos e raciocinar 

o melhor lugar para se passar, mas isso se torna uma 
situao impossvel quando se tem um turbilho de 
chamas ao seu redor. 
O calor tambm estava atrapalhando um 
pouco. Mas esse era dos males o menor, estava 
preocupada mesmo era com os portais. Eles abriam e 
fechavam nos mais diversos lugares e no tnhamos 
idia de onde poderamos ser levados caso cassemos 
em um desses portais. 

No meio do caminho a Rainha Alina comeou a 
dar sinais de vida. Seu corpo se mexia levemente e de 
vez em outra ela dava algumas tossidas, mas 
continuava inconsciente. 

 Acho melhor a gente parar um pouco para 
descansar.  Alexis falou j parando. 
 Mas e esse fogaru?  perguntei  
Precisamos sair logo daqui antes que nos alcance! 

 Beatriz!  Alexis falou um pouco alto  Eu no 
aguento mais. Preciso descansar um pouco. 
 Se ao menos tivesse com os meus poderes... 
 disse pra mim mesma. 
 E quela hora?  Alexis se sentou e colocou a 
me no colo  Voc executou uma magia l na sala. 
Ser que no consegue outra vez? 

 Vou tentar! 
Concentrei-me e tentei executar uma magia, 
mas nada aconteceu. Tentei outra vez e novamente 
nada. Fiz uma ltima tentativa, desta vez com mais 
vontade e continuou no adiantando de nada. 

 Vamos ficar s mais um pouco.  disse 
olhando ao redor  Esse labirinto e bem maior do que 
eu imaginava. 
 E esse fogo?  Alexis perguntou  J reparou 
que ele s est onde ns no estamos? Fugimos e 
fugimos do fogo, mas ele sempre s aparece depois 
que samos do local. 
 Isso  realmente muito estranho.  concordei 
balanando a cabea. 
 Beatriz olhe!  Alexis quase deu um grito. 
A Rainha Alina comeava a acordar. Ela mexia 
um pouco a cabea, como se quisesse acordar de um 
pesadelo e lentamente abriu os olhos. 

 Me?  Alexis estava emocionado. 
 Alexis!  Alina disse um pouco fraca  Mas o 
que est acontecendo? Eu no deveria estar com voc. 
 Calma me!  Alexis impediu que Alina se 
levantasse  A senhora precisa descansar. 
 Eu estou bem!  Alina tentou se levantar de 
novo  Eu no deveria estar aqui. O que foi que 
aconteceu? 
 Eu fiz o que me pediu!  disse para Alina 
segurando a sua mo  Fui proteger Alexis e derrotei os 

homens com o fogo. Mas o fogo se espalhou por toda a 
sala e de alguma forma tomou todo o labirinto. 

 A sala pegou fogo?  Alina perguntou 
preocupada  Ela est destruda? 
 Acredito que sim.  respondi um pouco 
acanhada. 
 Ento est explicado.  Alina se sentou  
Aquela sala era o crebro do labirinto. Toda a energia 
que era tirada de mim era enviada para sala e 
redistribuda para o labirinto. Era desta forma que ele 
sobrevivia. Se a sala est destruda, toda a estrutura do 
labirinto est comprometida. Ele deve ter perdido o 
controle e agora todas as armadilhas devem estar 
desgovernadas. 

 E o fogo?  Alexis perguntou. 
  um reflexo do que est acontecendo com a 
sala principal. Ela, ao invs de enviar energia ao 
labirinto, est enviando fogo.  Alina respondeu  S 
no entendo como eu consegui sair do espelho. 
 Ns tambm no sabemos.  comecei a 
explicar  Estvamos indo embora quando uma luz 
surgiu no teto. 
 E de repente a senhora estava l, nos meus 
braos.  Alexis completou. 
 Acho melhor a gente sair daqui antes que o 
fogo resolva aparecer!  disse cortando o assunto. 
 Tem razo!  Alexis concordou  Venha me. 
Eu te ajudo. 

 Vamos. Deixe que eu te ajudo tambm.  
ofereci meu ombro. 

Continuamos seguindo por corredores 
infindveis. No sabamos onde poderamos chegar, 
mas sabamos que tnhamos que chegar a algum lugar. 
De preferncia um lugar seguro. E como se j no 
bastasse, a nossa situao ainda piora quando viramos 
um dos corredores. 

Pareciam que estavam apenas esperando por 
ns. Trs grandes e gosmentos monstros estavam 
parados, se rastejando pelo cho. Eram trs bichos com 
corpo de cobra, porem com patas dianteiras de um 
jacar e cabea de guia. 

 Era s o que faltava.  Alexis grita nervoso. 
 E agora?  perguntei. 
 Deixem comigo!  a Rainha Alina falou um 
pouco cansada. 
 No me!  Alexis j foi impedindo  Voc 
no pode lutar. 
 Ns iremos te proteger rainha!  disse 
colocando bem devagar a Alina no cho. 
 Mas que tipo de bicho  esse?  perguntei. 
 No fao a mnima idia!  Alexis respondeu. 
 Mas como iremos matar-los se no podemos 
usar poderes?  um surto de realidade me veio no 
momento. 
 Com aquilo! 

Alexis apontou para duas espadas cruzadas 
penduradas em uma das paredes. Fala srio? Isso no  
algo que se acontece todo dia. Seja l o que a sorte 
estivesse planejando para mim, bem, at agora eu 
estava agradecida. 

Pegamos as espadas e tentamos manter os 
monstros longe da rainha antes de comear a atacar. 
Arrastamos as espadas no cho, fazendo algumas 
fagulhas de fogo aparecerem e depois ameaamos 
atacar. Os bichos recuaram e emitiram um som agudo 
que ecoou por todos os corredores. 

 Vamos tentar ficar mais prximo da Rainha 
Alina. No  seguro ficar to longe dela!  sugeri 
quando reparei que a rainha estava quase sumindo do 
nosso campo de viso. 
 Voc tem razo.  Alexis olhou para trs. 
Demos alguns passos para trs e atramos os 
bichos para mais perto de ns. Um dos monstros 
tentou atacar, mas acabei defendendo com a espada, 
cortando levemente sua pata. Outro grito agudo. 

Os outros dois monstros comearam a recuar, 
mas logo voltaram e tentaram atacar. Eu e Alexis 
esquivamos e tentamos dar o revide, mas eles tambm 
se esquivaram. 

 Pelo jeito eles so mais inteligentes do que 
presumi.  Alexis sussurrou  Temos que agir com 
cuidado. 
Assenti e caminhei lentamente em direo a 
um deles. Alexis fez o mesmo. Os monstros recuavam e 


ameaavam. Ficamos nisso por alguns minutos at que 
um deles resolveu atacar. Alexis defendeu no mesmo 
instante arrancando um dos dedos do monstro fora. 
Tivemos outro grito agudo e o monstro comeou a 
atacar com mais ferocidade. Os outros entraram no 
embalo. 

Eu e Alexis entramos em modo de defesa e a 
todo minuto olhvamos para a Rainha Alina, conferindo 
se estava tudo bem. Os monstros continuaram 
atacando e ns defendendo, at que Alexis aproveitou 
uma deixa e atacou. Ele arrancou a cabea de um dos 
monstros, que caiu no cho tremendo at o corpo 
inteiro ficar em pedaos. Tambm aproveitei a 
distrao dos monstros e ataquei o outro, tambm na 
cabea. O monstro seguiu os passos do companheiro e 
tremeu at ficar em pedaos. 

 Agora somos dois contra um!  Alexis falou 
sorrindo. 
 Alexis, olhe!  gritei. 
No cho, os pedaos dos monstros comearam 
a se juntar e formaram 1 novo monstro. Sua forma era 
irregular e as partes haviam se juntado no lugar errado, 
fazendo as patas ficarem junto  cabea  que estava 
virada ao contrario  e as partes da cauda estavam 
deformadas e montadas de forma estranha. 

 Corrigindo, dois contra dois. Luta justa!  
Alexis falou mais srio desta vez. 
Continuamos lutando. O monstro que se 
remontou estava mais forte que o outro, por isso 


acabamos prestando mais ateno nele. O outro 
monstro seguiu a estratgia do inicio recuando e 
ameaando atacar, enquanto o monstro remendado 
tentava atacar. Ele teve dificuldades em atacar por 
causa da nova localizao dos seus braos, mas em 
compensao estava mais resistente aos nossos 
ataques. 

 O que nos iremos fazer?  perguntei. 
 No sei, mas no podemos deixar que eles 
cheguem perto da minha me!  Alexis falava firme. 
 Se ao menos consegussemos executar algum 
poder.  lamentei. 
 O pior  que no sabemos a forma correta de 
matar-los.  Alexis se esquivava dos golpes do 
remendado. 
 O jeito  continuar lutando!  falei. 
 Lutando at nos cansarmos?  Alexis parecia 
no gostar da idia. 
 Mas  a nica opo que temos!  tentava 
encontrar outra soluo. 
 Tem que haver outra forma.  Alexis tambm 
parecia estar pensando em outra soluo  Ns 
precisamos sair daqui. 
 E rpido!  acrescentei. 
 E o fogo que no aparece quando a gente 
precisa?  Alexis estava muito irritado. 
Continuamos lutando contra os monstros. 
Tentamos evitar destroar-los. Queramos tambm 


tempo para pensar em uma sada, mas estava difcil 
demais. 

Os monstros comearam a atacar de verdade e 
ns no tivemos outra escolha a no ser revidar. 

Eu fiquei com o monstro remendado. Por mais 
que Alexis demonstrasse querer lutar contra ele, eu 
no podia deixar-lo fazer isso. Ele j tinha lutado com 
os homens sombra e deveria estar mais cansado que 
eu. Seria muito injusto ele ficar com a mais forte, sendo 
que ele no estava em condies de vencer-lo. No que 
eu estivesse com chances maiores, mas pelo menos eu 
demoraria mais em cansar. E quem sabe at l no 
descobriramos um jeito de escapar daquela 
emboscada? 

Ataquei sem d o monstro, mas a espada fazia 
apenas pequenos cortes onde acertava. O monstro 
aproveitava minha aproximao e me pegava pelo 
brao, atirando-me contra a parede. Tentei amortecer 

o impacto com os ps e aproveitei para pegar impulso 
e pulei para cima de sua cabea, acertando-lhe com a 
espada. 
Alexis e o outro monstro estavam novamente 
nas ameaas, exceto por uma e outra vez que um deles 
atacava. A luta parecia bem mais pesada do meu lado. 
Alexis tentou perfurar o monstro na barriga, mas ele 
esquivou. O monstro conseguiu fazer um leve corte na 
perna de Alexis, o que me fez chamar ateno para 
luta. 


Ver Alexis sangrar me deixou louca. Pulei das 
costas do retalhado e fui com tudo para cima do 
monstro que estava com Alexis. O impacto foi to 
grande que acabei derrubando o monstro no cho. Sem 
pensar acabei cortando a cabea do monstro e 
esquecendo o que tanto estava tentando evitar. 

Assim como os outros dois monstros, ele 
tremeu e se desfez em vrios pedaos. Poucos 
segundos depois ele tambm se juntou ao monstro 
retalhado, fazendo-o ainda mais estranho e horrendo. 

Agora com 2 metros de altura, 2 cabeas, 4 
braos e 2 caudas igualmente deformadas o monstro 
parecia uma criatura invencvel. O seu grito agudo era 
muito mais alto e irritante que os dos outros monstros 
e parecia muito mais resistente. 

 O que iremos fazer agora?  perguntei. 
 Acha que devemos correr?  Alexis retrucou. 
 No vejo uma alternativa melhor.  respondi. 
Alexis pegou a Rainha Alina e colocou em suas 
costas. Ele parecia muito cansado, mas motivado. 
Querer salvar a me parecia estar dando uma fora 
sobre-humana a ele. 

O monstro pareceu perceber o que estvamos 
tentando fazer e deu um pulo, fazendo o cho tremer e 
as paredes carem, bloqueando a passagem. Se duas 
cabeas pensam melhor que uma, trs devem trazer 
idias brilhantes  pelo menos para o nvel de 
inteligncia deles. 


 E agora o que faremos?  perguntei quase 
atropelando as palavras. 
 Agora eu realmente no sei!  Alexis parecia 
realmente desesperado. 
 Eu sei!  Alina disse quase que sem som 
algum. 
 No me!  Alexis se antecipou  No irei 
deixar  senhora lutar! 
 E quem aqui est falando em luta?  mesmo 
fraca, senti um tom de deboche em sua voz. 
 Ento o que est pensando?  perguntei. 
No mesmo instante notei que um portal estava 
se abrindo. Ainda no conseguia enxergar para onde 
ele levaria, mas j imagina qual era a idia da Rainha 
Alina. 

O portal se abriu um pouco mais e consegui ver 

o local. Era o local onde a Rainha Alina estava 
aprisionada. 
 Quando eu disse j.  Alina falou baixo. 
 J entendi!  continuei fixando no portal 
enquanto o monstro se aproximava. 
 Do que vocs esto falando?  Alexis ainda 
no tinha percebido a idia. 
 J!  desta vez a Rainha Alina gritou bem alto. 
No esperei duas vezes e dei um salto bem alto 
me jogando para cima do monstro. O monstro 
desequilibrou, mas no caiu. Teria que ser rpida. 
Continuei forando o meu peso para que o monstro 
virasse e casse no portal antes que ele fechasse. O 


monstro relutou, mas consegui fazer-lo perder o 
equilbrio. Rapidamente dei um salto para trs e o 
monstro caiu no portal que se fechou no exato 
momento em que ele caiu. 

 Beatriz?  Alexis estava de boca aberta. 
 Eu sabia que conseguiria!  a rainha deu um 
leve sorriso. 
 Mas a idia foi sua majestade!  fiz uma 
reverencia. 
 No h necessidade dessas formalidades 
comigo.  Alina estava fraca, mas ficou de p  J 
esqueceu que eu sou sua sogra? 
  verdade!  disse sorrindo. 
 Fico feliz em ver que esto se dando bem, 
mas ns precisamos sair daqui!  Alexis cortou o 
momento descontrao  E precisamos sair rpido, 
antes que o fogo nos alcance. No sei nem como ele 
ainda no nos alcanou. 
 E nem ir nos alcanar!  Alina disse baixo  
Esse incndio no  fruto de uma magia de Beatriz? 
 Sim!  respondi  Acho que o feitio se virou 
contra o feiticeiro, como diz o ditado. 
 Um feitio nunca se volta contra o feiticeiro.  
Alina sorriu  Seja l quem inventou essa frase, ela est 
completamente errada. Nenhum feitio que voc 
executar ir se voltar contra voc. A menos que voc 
deseje isso. 

 Mas ns continuamos presos aqui.  Alexis 
olhou em volta  No temos sada. 

 Eu tambm no fao a mnima idia de como 
sairemos daqui.  disse olhando para Rainha Alina. 
 Eu acho que a sada vir em breve.  Alina 
estava calma  No precisa se desesperar. S temo pela 
Capital. 
 O que tem a Capital?  Alexis ficou nervoso. 
 Bianor est seguindo para invadir a Capital.  
respondi. 

 Eu senti isso enquanto estava presa.  Alina 
completou  Senti que o exercito de Bianor tambm se 
fortaleceu. Se no agirmos rpido a Capital pode ser 
destruda. 
 E por que no me contaram antes?  Alexis se 
irritou  A Capital em perigo e ns aqui presos! 
 Alexis, no houve tempo. Voc viu.  comecei 
a explicar a situao  Samos da sala principal direto 
para esse labirinto e depois ainda tivemos que 
enfrentar os monstros. Mas ns iremos conseguir 
chegar a tempo. 
 Como?  Alexis gritou  At a gente sair desse 
labirinto. Se a gente sair, vai demorar muito de barco. 
 Mas quem disse que iremos de barco?  Alina 
sorriu. 
 O que est falando?  Alexis e eu 
perguntamos ao mesmo tempo. 
 O nosso transporte acabou de chegar! 

CAPTULO 25 / PRELDIO DE UMA GUERRA 


O
O
portal saiu exatamente na sala do trono da Capital. 
Rainha Alina parecia bem mais cansada e fraca agora. 

No duvidaria nada se ela tivesse influenciado de 
alguma forma aqueles portais para que se abrisse um 
para a Capital a nossa frente  isso se ela mesma no 
tiver aberto sozinha. 

Rei Cleo ficou um misto de espanto, alegria e 

preocupao. Ele parecia no saber o que demonstrar 

primeiro e olhava fixamente para a Rainha Alina. 

 O que est acontecendo aqui?  Cleo 
perguntou esfregando os olhos. 
 Papai, eu consegui. Ns conseguimos!  
Alexis disse olhando para mim  Achamos a mame! 

 Mas como?  Cleo se aproximou  Vocs so 
loucos? 
 Talvez, mas se no fosse essa loucura nunca 
teramos encontrado a mame!  Alexis estava com 
Alina no colo. 
 Mas  ela mesma!  Cleo passava a mo no 
rosto de Alina  Ela est to plida. Desacordada. O que 
aconteceu? 
 Bianor estava mantendo a rainha presa e 
usando suas energias mgicas para alimentar um 
labirinto subterrneo em Calidora.  respondi  A 
rainha j havia me mostrado aquele lugar antes, mas 
foi Alexis quem o encontrou. 

 Fizemos um belo trabalho de equipe!  Alexis 
sorriu e segurou minha mo. 
 Mas a rainha est muito mal!  voltei s 
atenes a Alina  Ela precisa urgentemente de 
cuidados mdicos. 
 Eu estou vendo!  Cleo a pegou no colo  
Vamos! Irei levar-la para o quarto. 
Rei Cleo chamou alguns guardas e pediu para 
chamarem o mdico do castelo imediatamente e que 
tambm chamasse o conselho da Capital. A principio 
estranhei o rei ter convocado o conselho da Capital, s 
depois imaginei que era para anunciar que a rainha 
havia sido encontrada. Mas logo em seguida lembrei-
me de outro motivo to urgente quanto esse para 
comunicar ao conselho. 

 Rei Cleo?  chamei quando ele colocou Alina 
na cama  Preciso contar algo. No sei se j ficou 
sabendo, mas a Rainha Alina previu uma invaso de 
Bianor e seu exercito para breve. Eles j devem estar a 
caminho e no demoraro muito para chegarem. 
 Invaso?  Cleo se assustou  Eu no fiquei 
sabendo de nada. Uma invaso... No estamos 
devidamente preparados para uma invaso. 
 Foi o que eu imaginei, por isso resolvi avisar o 
quanto antes.  disse sria. 
 Fez bem. Muito obrigado.  Cleo colocou a 
mo em meu ombro  Preciso comunicar isso 

imediatamente ao conselho. Precisamos tomar 
providencias o mais rpido possvel. 

 Eu queria dizer que estou aqui para o que 
precisar!  disse confiante. 
 E iremos precisar.  Cleo disse apreensivo  
Voc  nossa ltima esperana. A nova esperana. 
 Eu farei de tudo para no decepcionar-los!  
falei j sentindo o peso da responsabilidade. 
Sempre soube que um dia iria ter que salvar 
Ofir, mas nunca havia sentido esse peso antes.  como 
se todo o peso do mundo estivesse em minhas costas e 
eu no pudesse aguentar. E o pior  que o peso de um 
mundo realmente estava nas minhas costas, no era 
apenas uma forma de dizer. 

 Alexis, eu irei para a casa de Neandro.  disse 
baixo  Devem estar todos querendo saber notcias de 
ns. 
 E eles esto aqui?  Alexis perguntou. 
 Em Calidora pelo menos eles no foram.  
lembrei. 

 Espere um pouco, s at os mdicos 
chegarem, alias esto demorando demais. Eu irei com 
voc at a casa de Neandro. 
 Tudo bem.  sorri  Eu tambm quero saber 
notcias da rainha. 
 Majestade?  um dos guardas entrou no 
quarto  Os mdicos chegaram! 
 Mande-os entrar!  Cleo disse apressado. 

Os mdicos examinaram a Rainha Alina de uma 
forma diferente. Eles usavam magia. E eram vrios 
mdicos examinando ao mesmo tempo. Enquanto um 
examinava a cabea, outro examinava a barriga, outro 
os braos e mais um examinando as pernas. 

O Rei Cleo estava apreensivo e parecia no 
gostar nada da demora em que os mdicos estavam 
examinando a Rainha Alina. 

 Ela vai ficar bem!  disse tentando acalmar 
Cleo. 
 Eu espero que sim.  ele olhou inquieto para 
Alina. 
Os mdicos terminaram de examinar a Rainha 
Alina e pediram para conversar com o Rei Cleo em 
particular. Eles ficaram algum tempo conversando, mas 

o Rei Cleo parecia mais aliviado. No devia ter 
acontecido nada demais com a Rainha Alina. 
 E ento?  Alexis perguntou quando Cleo se 
aproximou. 
 Ela passou muito tempo sendo explorada por 
Bianor e isso a enfraqueceu demais.  Cleo parecia 
bem mais aliviado  Ela vai ficar bem, s precisa de 
cuidados. S me preocupo com essa guerra que parece 
no ter mais como fugir. Eu no sei se conseguiremos 
nos manter firme. Estamos enfraquecidos e o exrcito 
de Bianor  grande demais para competirmos. 
 Calma Rei Cleo, ns estamos aqui!  disse 
em um tom animador. 

 Como disse, voc  nossa esperana nesta 
inevitvel guerra.  ele sorriu. 
Sai do quarto e Alexis veio atrs. Ele me 
abraou como se soubesse de minhas novas 
inseguranas  e talvez realmente soubesse. Consegui 
no cair em lgrimas e ficar contente pela Rainha Alina. 
No sei se seria uma boa hora para ficar me 
lamentando de um destino incerto. 

 Vamos para a casa de Neandro?  perguntei 
sorrindo. 
Alexis no disse nada, apenas assentiu 
sorrindo. Mesmo ainda no sendo comunicados sobre 
a possvel invaso de Bianor, os guardas da Capital 
estavam todos bem alertas, no pareciam to 
despreparados como o Rei Cleo dizia. Mas eu tambm 
no tinha visto ainda o tamanho e nem a competncia 
do exercito de Bianor que contava com homens de dois 
reinos. Provavelmente apenas os melhores de cada 
reino foram chamados para essa batalha, mas ainda 
tinha alguma esperana de que o nosso exrcito ser o 
suficiente para lutar contra Bianor. 

Chegamos  casa de Neandro ainda  tarde. 
Assim como eu havia imaginado, estavam todos l. 
Todos mesmo. A casa de Neandro havia se tornado 
quase que um tipo de penso, abrigando todos que 
estavam ligados a minha misso. 

Alm de Linfa, Neandro, Tales, Thalassa e 
Nicardo estavam na casa Camila, Levinda e Layla. 


Apenas Cosmo no estava presente. No sabia como 
eles estavam abrigando tanta gente em uma casa to 
pequena, mas pareciam estar todos muito 
confortveis. 

 Olha quem apareceu!  Neandro falou 
quando nos viu na porta  Os fujes! 
 Beatriz! Alexis!  Thalassa correu para nos 
abraar  Achei que tivesse acontecido o pior. 
 Calma Thalassa.  sorri  Estamos todos bem. 
Pelo menos por enquanto. 
Contamos a eles toda a nossa viagem ao 
castelo, o plano de Alexis, o labirinto, o resgate da 
Rainha Alina e sobre a invaso de Bianor. A noticia da 
invaso no pareceu ser surpresa para eles como foi 
para o Rei Cleo. 

 Eu sonhei com isso.  Nicardo falou  Eu vi 
Bianor e seu exercito chegando a Capital e destruindo 
tudo. Fazendo com a Capital o mesmo que fizeram com 
Sotero, Leander e Menelau. 
 Menelau tambm foi destruda?  perguntei 
assustada. 
 No como aconteceu com Sotero e Leander, 
mas ela foi atacada.  Nicardo estava srio. 
 Destruram toda a cidade do castelo, assim 
como o castelo tambm.  Tales continuou  Bianor 
conseguiu, a fora, o comando de Menelau e s por 
isso no destruiu o reino inteiro. 
 Mas isso  terrvel!  lastimei. 

 Isso  mais que terrvel!  Nicardo me olhava 
triste  Isso  o inicio do fim. As tropas de Bianor 
acabaram ganhando mais um reforo. 
Era estranho olhar para Nicardo agora. 
Principalmente depois de tudo o que havia acontecido 
comigo na minha viagem com Alexis. No conseguia 
olhar em seus olhos. Sentia como se estivesse em 
divida com o Nicardo. E talvez esse sentimento 
continuasse dentro de mim enquanto eu no tivesse 
certeza de que ele est feliz de verdade. 

 Acho que a viso da rainha e a confirmao 
que estvamos esperando.  Tales falou em um tom 
estratgico  J podemos comear a por em prtica o 
nosso plano. 
 Que plano?  Alexis perguntou. 
 No acredito que ser possvel impedir a 
entrada de Bianor no reino, mas podemos diminuir a 
carga para facilitar a vida do exrcito da Capital.  Tales 
se aproximou um pouco mais de ns. 
 E o que pretende fazer?  perguntei. 
 Cosmo foi at Leander buscar os meus 
homens e iremos reforar a tropa. Eles so homens 
fortes e a batalha que todos eles enfrentaram s os 
tornou ainda mais fortes. Ficaremos a postos no porto, 
eles tero que passar por ali. Provavelmente invadiro 
j atacando, ainda mais depois de nos ver esperando 
por eles. A inteno  impedir que eles prossigam, mas 
acredito que muitos conseguiro passar pela nossa 

barreira e chegar ao castelo. Invadiro a Capital, mas o 
nmero ser menor e mais fcil de lutar. 

 Uma idia um pouco maluca e arriscada, mas 
quem sou eu para julgar planos malucos e arriscados?  
Alexis pareceu gostar da idia. 
 Mas voc disse bem  eu no estava 
gostando da idia   muito arriscado! 
 Mas  nossa nica opo no momento.  
Neandro falou. 

 Voc tambm est de acordo com esse 
plano?  perguntei. 
 Beatriz,  o que podemos fazer.  Linfa sorriu 
tentando me convencer, mas ela tambm no parecia 
gostar do plano. 
 E as pessoas de Tales?  perguntei  Toda 
batalha dessa dimenso sempre acabam em mortes. 
 Mas se o exrcito de Bianor chegar ao castelo 
vai haver muito mais mortes!  Neandro defendeu a 
idia. 
 Meus homens sabem dos riscos de uma 
batalha e esto todos prontos para o pior.  Tales 
parecia um pouco preocupado  Mas eles faro o 
impossvel para no morrer, isso eu posso garantir! 
 O fato  que no temos muitas escolhas.  
Nicardo tambm defendeu a idia  Se o exrcito de 
Bianor atacar inteiro o castelo ns no teremos chance 
nenhuma. Mesmo tendo voc no grupo. 

 O exrcito dele  to forte assim?  perguntei 
assustada. 

 So os melhores dos melhores!  Tales falou 
assustado  Beatriz, eu vi o que o exrcito dele  capaz 
de fazer quando eles no eram nem a metade do que  
hoje. Por isso no temos esperanas de parar-los nesse 
plano e  por isso que precisamos eliminar o mximo 
de pessoas possvel para atacar o castelo. 
 Mas se lutarmos antes voc acha que seus 
homens, os que sobrarem, ter foras para ajudar em 
outra batalha?  tentei ser realista. 
 Eles lutaram at o fim, isso posso garantir!  
Tales disse confiante, mas parecia preocupado com 
alguma coisa. 

 Isso  loucura demais!  disse pra mim 
mesma. 
 Beatriz, se meter em um labirinto que 
poderia te levar a morte no  algo muito prudente.  
Nicardo falou tentando no parecer ressentido. 
 A situao era diferente.  tentei me justificar 
 Era uma situao de urgncia! 
 E essa no  uma situao de urgncia?  
Neandro perguntou. 

 No sei se gosto da idia de por outras 
pessoas em risco.  disse  Eu deveria enfrentar essa 
guerra sozinha. No  assim que a profecia diz? 
 Isso sim  loucura!  Alexis falou alto  Voc 
acha mesmo que conseguiria vencer um exrcito 
inteiro? 
 Mas no  essa a profecia?  tambm falei 
alto. 

 No.  Neandro normalizou nossos tons de 
voz  A profecia diz que voc salvar Ofir, mas isso 
pode ser de vrias formas. No quer dizer que voc, 
sozinha, vai derrotar um exrcito e ainda o mago mais 
poderoso do mundo. 
Respirei fundo e fechei os olhos. Talvez eu 
estivesse assustada demais. Talvez comear a sentir o 
peso do mundo tenha fervido meus nervos, mas eles 
tinha razo. Eu no conseguiria acabar com uma guerra 
sozinha. Eu no sou to extraordinariamente forte para 
isso. Eu precisaria de toda a ajuda possvel. 

 Tudo bem, vocs esto certos!  baixei a 
cabea  Eu estou muito assustada com tudo isso. 
Sempre soube que esse momento chegaria, mas agora 
que ele est prestes a chegar eu no sei como agir. 
 Ns entendemos!  Thalassa falou colocando 
a mo em meu ombro  Acho que est sendo parecido 
para todos ns. Ningum nunca havia passado por algo 
parecido antes. Ofir sempre foi um mundo pacifico, 
houveram pouqussimas guerras. 
 Ns precisamos ns preparar enquanto  
tempo!  disse tentando parecer muito segura. 
 E haver tempo?  Alexis perguntou. 
 Precisamos usar o tempo que tivermos!  
Neandro estava aparentemente tranquilo  Enquanto 
os homens de Tales no chegam, seria uma boa idia 
nos prepararmos. O que iremos enfrentar ser 
completamente novo e devemos estar prontos para 
tudo. 


 Quando os meus homens chegarem, 
ficaremos de planto esperando o exercito de Bianor 
chegar.  Tales falou seguro. 
 Nosso plano  arriscado, mas pode dar certo 
sim!  Nicardo estava mais animado. 
 O plano vai dar certo!  Thalassa sorriu. 
 E se o plano no der certo?  voltei a ser 
realista. 
 No vamos ficar pensando nisso.  Alexis me 
abraou. 
 Mas ele pode no dar certo.  estava 
preocupada  O que iremos fazer? 
 No temos um plano B em mente.  Tales 
fitou preocupado para todos ns  Acho que esse plano 
no pode falhar de jeito nenhum ou ser o fim de Ofir. 
 Mas ele vai funcionar!  Alexis se levantou  
Ns iremos lutar juntos! 

 Para proteger Ofir!  Tales completou. 
 Iremos unir nossas foras e nos tornam uma 
nica arma!  Thalassa sorriu. 
 Esse vitria ser nossa!  Neandro tambm se 
levantou. 
 Juntos somos imbatveis!  Linfa segurou a 
mo de Neandro. 
 E no existe mal neste mundo que no 
poderemos derrotar!  Nicardo pareceu mais 
confiante. 
Levantei-me bem mais confiante e 
esperanosa. Era engraado como algumas palavras 


positivas podem mudar tanto o animo de uma pessoa. 
Se fossem ditas mais vezes talvez as coisas no 
parecessem to ruins. 

 Todos juntos nesta batalha!  sorri  E que 
seja a ltima! 
 Por Ofir!  juntamos nossas mos e gritamos 
todos juntos. 
 noite eu tive um sonho muito estranho. Um 
pesadelo para ser mais exata. E no tinha dvida de 
que aquilo era um pressagio do que eu iria viver. 

Eu estava novamente no deserto Orestes, mas 
desta vez era noite e um vento muito forte soprava 
areia para todos os lados. Raios e troves pipocavam a 
cada minuto e chovia pouco para o clima que havia sido 
formado. 

Eu estava muito fraca e via varias pessoas 
cadas ao meu redor. Alexis, Thalassa, Linfa, algumas 
pessoas que no conhecia ou no conseguia identificar, 
estavam todos muito mal e pareciam tentar dizer algo 
para mim. Eles estendiam as mos, mas eu no 
conseguia entender o que eles estavam dizendo. Bianor 
estava atrs de mim. Ele no parecia bem, mas estava 
melhor que os outros e eu estava completamente 
confusa. 

De repente a imagem mudou. Eu estava em um 
local isolado e com uma paisagem bonita. A minha 


frente estava um tumulo. No conseguia ler o que 
estava escrito na pedra do tumulo, mas eu estava 
muito triste por ter perdido aquela pessoa. 

Novamente a imagem mudou. Estava na frente 
do castelo, vendo uma grande batalha acontecer. Eu 
queria fazer alguma coisa, mas no conseguia. Eu 
estava presa. 

A imagem mudou novamente, agora para uma 
grande montanha. Rainha Alina estava na frente de um 
precipcio e atrs dela estava um grande portal. Eu 
olhei novamente e no era mais a rainha e sim eu que 
estava prestes a entrar no portal, mas existia algo que 
me fazia hesita. 

A imagem mudou pela ltima vez. Agora eu 
estava no mesmo deserto em que sempre encontrava o 
grande lobo. Como j esperava, ele apareceu e deixou 
comigo palavras que ecoaram em minha cabea por 
muito tempo: 

 O que voc escolher deixar para trs no final 
disso tudo? 

AGRADECIMENTOS 

Sempre e sempre a Deus e a minha famlia. 
Dois grandes pilares em minha vida. 

Aos melhores amigos que uma pessoa pode ter 

 e que estaro sempre aqui  Yasmin e Pryh. 
Gostaria de deixar meus agradecimentos 
tambm ao Diego Imperiano, que segurou minha barra 
em alguns momentos cansativos da minha vida 
enquanto escrevi esse projeto. 

Queria aproveitar tambm para agradecer 
novamente a Vicky, do blog Minha Vida Vampira 
(http://mylifevampira.blogspot.com/) , que ajudou a 
divulgar o meu trabalho e ainda abriu espao para uma 
singela, porm importante, entrevista. 

E por fim a todos os meus fs, desde os que me 
acompanham em meus primeiros passos at os mais 
recentes. Todos vocs so muito importantes para mim 
e se eu continuo seguindo esse caminho e por vocs! 

Espero todos em Hart! 


No perca o incrvel desfecho da histria de Beatriz Misse 

Hart 



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